As “Olívias” deste País de (o)casos

“O Partido Socialista não pode continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga. Próximo Congresso é oportunidade para escalpelizar como se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos. Pela regeneração do próprio PS, da Política e do País.” A declaração é de Ana Gomes e o DN Lisboa diz que a eurodeputada socialista admitiu estar a referir-se aos casos que envolvem José Sócrates e Manuel Pinho, que desempenharam altos cargos do Estado. O caso Sócrates arrasta-se pela Justiça e pela comunicação social, parece mais por esta do que por aquela. Manuel Pinho é suspeito de, alegadamente, ter recebido, através de um “offshore” cerca de “um milhão do saco azul do GES, entre 2006 e 2012, 500 mil quando era ministro. Ministério Público diz que foi para beneficiar BES e EDP”, segundo faz referência a publicação online “Observador”. Fernando Medina, socialista, presidente da Câmara de Lisboa, diz claramente que Pinho já deveria ter esclarecido a situação, se recebeu ou se não recebeu. Mas a defesa de Pinho manda-o ficar em silêncio, é assim que irá estar se for chamado à comissão de inquérito da Assembleia da República. Carlos César, líder parlamentar do PS, também envolvido no caso dos reembolsos, diz do caso Pinho, à TSF, que “o PS sente-se envergonhado e enraivecido com casos como o de Manuel Pinho”. Carlos Liberato Baptista, até há dias presidente do ADSE, pediu renúncia do cargo e no dia seguinte a TVI transmite uma investigação que dá conta de um conjunto de situações que colocam em causa aquele responsável, que foi ocupando sucessivamente cargos, em diferentes governos, com responsabilidades no manuseamento de milhões. Alguns prestadores de serviço, de várias empresas, algumas já extintas, segundo a mesma reportagem, não se lembram de nada, apesar das elevadas verbas que movimentaram. Um “varrer” da memória que, à primeira vista, é inexplicável.

Estas realidades trazem à discussão, e sobretudo à reflexão, a forma como se faz o exercício dos cargos políticos, a impertinência com que esse exercício é observado, o atrevimento com que é apresentado à opinião pública, muito perto do descaramento, talvez já com o conhecimento de que essa mesma opinião pública pode ser muito pública mas tem muito pouco de opinião. O que, diga-se, facilita muito os chamados “chicoespertismos”, ao ponto de, hoje, esse exercício ser feito, na generalidade, com compadrios, parcerias, mesmo as legais mas completamente imorais, ligações entre poderes, por uma questão de poder, numa perversão de princípios que manda às malvas uma palavra que existe mas que poucos sabem o que é, na realidade: ética. Já não há. Ou melhor, para não sermos tão radicais, contam-se pelos dedos, por razões que têm a ver com os interesses instalados, nas empresas, na política, em quase todo o lado, confundindo-se com o dia a dia das governações.

Há momentos em que é difícil ver quem efetivamente governa. Depois, há os governados e os que se governam bem.

Estes episódios que vamos tendo conhecimento, manda-nos para patamares de avaliação muito complicados. Até prova em contrário, estão inocentes e só os tribunais poderão julgar, embora sabendo que o julgamento público, em muitos casos, está feito e seria desejável que isso não acontecesse da forma como acontece. Mas também, se a malha apertasse, não viriam a público situações que são completamente inconcebíveis, do ponto de vista comportamental, que nem tem nada a ver com o ser ou não culpado, tem a ver com a postura exercida. E é bom saber como se comportam certas figuras em interrogatórios, sem que, com isso, possamos fazer quaisquer juízos de valor sobre ser inocente ou culpado. Apenas se registam as atitudes, tanto de quem é interrogado, mas até de quem faz o interrogatório.

Mas tudo isto acontece, também, porque os partidos são, infelizmente, “farinha do mesmo saco” e ao longo dos tempos foram alimentando determinadas mordomias, nos governos e em organismos públicos, mas também em privados, que servem determinados interesses em conjunturas diferentes, mas sempre com as mesmas fórmulas, quer seja o PS no Governo quer seja o PSD. O chamado “modus operandi” é semelhante e não é por acaso que quando se fala em mordomias, vai tudo bater ao mesmo, os partidos estão de acordo, legislam para tornar legal o que é imoral, por forma a que o caminho vá dar ao objetivo que pretendem. E por exemplo, no caso das viagens dos deputados das ilhas na Assembleia da República, que até nem é das partes mais graves do exercício dos cargos políticos, até o presidente do Parlamento Nacional vem a público defender uma imoralidade, referindo ainda que deveria ser aberto um debate sobre exclusividade dos deputados, pagando ainda mais, claro, como forma de dignificar o Parlamento e ter os melhores. Como se o pagar mais fosse alterar as questões de ética.

É preciso que os portugueses reflitam sobre a forma como se faz Política, a forma como se processa esta cumplicidade perigosa entre políticos e empresários, a completa falta de vergonha com que se passa, num abrir e fechar de olhos, das empresas para os governos e dos governos para as empresas, fazendo lembrar um “sketch” humorístico, já muito antigo mas ao mesmo tempo muito atual, tendo como protagonista a saudosa Ivone Silva, em que a atriz fazia de “Olívia costureira e Olívia patroa”, as duas faces de um único personagem. Sendo que, numa transposição real, há figuras que hoje são “Olívia patroa”, entenda-se governo, e preparam medidas para quando estiverem, amanhã, na condição de “Olívia costureira”, entenda-se nas empresas. Casos destes, como diz o povo, “é mato”. E assim se faz a transparência, ninguém se lembra daquele princípio de que “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecê-lo”. Porque a legislação permite, tanto se passa a administrador da EDP como da CP, tanto se percebe de águas como de aviões, tanto se governa a Saúde como se dá uma mãozinha num Banco.

E não há quem pense na possibilidade de avaliar, porque isso ia dar muito trabalho e pouco dinheiro, que quem ocupasse um cargo político ao nível de Governo, pelo menos enquanto ministro, mas também em empresas públicas, não poderia desempenhar cargos em empresas privadas durante um período razoável, ficando ao critério de uma discussão alargada, em sede de Assembleia da República, o que seria precisamente esse tempo razoável. Seria como um fase “sabática”, pelo menos para dar alguma credibilidade em termos de interesses envolvidos. Mas isso é precisamente o que os políticos e os “homens do carrossel” não querem, por isso…

Assim, como está, já temos tantas “Olívias” a mandar em tanto povo, que infelizmente, só sai à rua para comer espetada ou para festejar a vitória no futebol, que este mesmo povo, quando der por si, já não sabe distinguir se o empresário é o político ou se o político é o empresário. Ou se faz uma “perninha” enquanto dá a mão.

Já esteve mais longe…