Mediocridade liderante: a eterna macacada


  1. A liderança de pessoas, grupos, organizações é, efetivamente, uma função sobejamente absorvente, mas altamente prestigiante se tomada com honestidade, comprometimento, responsabilidade e até mesmo “doação”. Neste sentido, as palavras de Sanborn (2007), ao referir que o “interesse genuíno em ajudar os outros e fazer a diferença pela positiva é a essência da liderança”, devem ser um referencial para todo o líder em boa liderança.
    Com todas as limitações próprias de cada ser humano, especta-se que um verdadeiro líder seja inspirador, mobilizador, que não se contente com a mediocridade, que não se bafeje com vãos elogios, não se refugie nos “auto-louvores”, não se defenda criando muralhas de algodão doce. Espera-se que um verdadeiro e bom líder procure elevar sempre e cada vez mais os patamares de qualidade da sua prestação e das pessoas e/ou organização que lidera; que seja empreendedor; que se supere e faça com que os outros se superem continuamente. O verdadeiro líder revela a preocupação de ser melhor e de aperfeiçoar, em cada dia, as condições de trabalho daqueles que lidera.
    É também Sanborn (2007) que perentoriamente afirma: “quando agimos como líderes, fazemos mais do que o necessário.” Daí a minha arrepiante surpresa ao deparar-me com “insignes” líderes que abusivamente se fazem passar por representantes de outros e até mesmo de organizações em eventos externos e que nem as mais básicas e imprescindíveis competências que lhes estão legalmente atribuídas são capazes de assumir, de cumprir, no seu dia a dia, no interior da sua (desorganizada) organização. Vivem batendo asas em nome de uma representação externa que nada abona em favor dos elementos da organização que apregoam representar. Em favor da continuidade da sua errante liderança vão subjugando e responsabilizando pela sua ausência, imperícia, inatividade e falta de visão, aqueles que por si deviam ser orientados, não poucas vezes, arrasando-os humana e profissionalmente.
    Incredulamente indiferentes ao desprestígio das equipas que dizem liderar, utilizam falhas, minúcias do trabalho alheio para desviar as atenções daquilo que sabem ser as suas próprias lacunas. As suas responsabilidades atiram-nas para cima dos outros. Todavia, os mais atentos percebem a diferença entre aqueles que a ter de fazer opções, a ter de deixar algo para trás, deixam aquilo que só a eles mesmos, pessoalmente, individualmente, os prejudica e aqueles que, voluntariamente, faltam com aquilo que prejudica a qualidade do trabalho alheio. E aqui está a “invisível” grande diferença: dignidade, responsabilidade, comprometimento!
    Diz-nos Sanborn (2007) que “os verdadeiros líderes tornam as coisas melhores não apenas para si próprios mas também para os outros”, porém vamos vendo arrepiantes colmeias onde é tão grande e visível o desgaste das “operárias” e o rosto da “abelha-mestra” está cada dia mais liso e reluzente como o mel. Porque será? Será que o parasitismo pode explicar este fenómeno? Com certeza! Mas desconfio convictamente que as verdadeiras responsáveis são as “melgas” lambareiras! Aquelas que promovem esta futilidade, que elogiam em troca do extraordinário favorecimento, tornam-se cúmplices desta descaraterização do real, alimentando não só o amor próprio e a arrogância, mas também a perversão de caráter.
    Particularmente, vou reconhecendo dois tipos de liderança: por mérito e por compadrio ou doação. Mas o mais desprestigiante para qualquer profissional reside nas lideranças por mérito. É, pois! Os líderes por compadrio, doação, consanguinidade ou descendência sabemos nós porque lá estão e sabem todos os outros também. O maestro não atina com a baqueta, mas a qualidade dos profissionais da banda faz ribombar o coreto! Mas por que razão uma liderança por mérito pode lá ser pior? Não se indignem! Apenas porque mérito é tão somente mérito! Há quem tenha mérito de competência, de profissionalismo e aí a liderança será de qualidade, distintamente positiva. Mas há quem tenha mérito de incompetência. É o mérito do amigalhaço, do porreiro. Aquele mérito “cinco estrelas” que se reconhece porque “com ele(a) está sempre tudo bem”, “ele(a) não me chateia”, “a ele(a) mais facilmente manipulamos”, “com ele(a) fazemos o que queremos”. Neste caso, sim, a liderança é corrosiva e vergonhosa pois não só revela a pobreza de um líder como a mediocridade dos que o escolhem, dos que o elegem. Ou seja, é toda uma organização que se “autodescredibiliza”.
    E à conta dos bajuladores estes líderes vão proliferando e perpetuando. E quem mais necessita e vive de bajulice são os inexperientes e inseguros. Inexperientes, sim! Desenganem-se aqueles que se autoproclamam experientes porque têm largos anos decorridos numa função, numa profissão, num posto ou simplesmente no assento de uma cadeira. Há quem tenha três anos de atividade e reúna mais experiência que alguns com trinta anos de atividade. Dirão: que exagero, que perversidade! Pois é!… A experiência é a aprendizagem que fica depois das nossas vivências e há quem viva anos e anos e aprenda tão pouco… pouquíssimo… ou nada! Mas cuidado com os bajuladores! Como diz um provérbio inglês: “os bajuladores parecem-se com amigos, assim como os lobos se parecem com cães”.
    Há líderes que são verdadeiros gatões. Será por serem lindos? Não! Desenganem-se. Não falo desses, falo dos que vivem lambendo-se a si mesmos. Em vez de transmitirem expetativas positivas aos seus “subordinados”, em vez de os elogiarem, procurando fomentar a sua auto-estima, o seu autoconceito (forças motrizes de base para um maior e melhor desempenho), vivem se auto-elogiando. Uns verdadeiros perversos narcisistas! Afirmam-se elevando e sobrestimando as suas triviais qualidades, exaltando a sua imagem, mistificando e universalizando uma “moral exclusiva” que permite ficcionar o seu eu e iludir os outros. Autênticos predadores morais que iludem e instrumentalizam os outros para alimentar o seu ego.
    Vejo responsáveis de “organizações” que vivem alheados da realidade, envoltos numa auréola de perfeição criada por eles mesmos. São o mastro mais alto da embarcação, sem dúvida, mas falta-lhes a vela. E como tal, nem têm rumo, soltam o barco a navegar ao largo, mas atracam sempre no mesmo porto; incapazes de inspirar os tripulantes, de investir na embarcação e de alcançar um porto de maior qualidade. Falham na visão da realidade, na orientação, na comunicação, no reconhecimento, na gestão dos conflitos, na gestão dos espaços e na leitura, interpretação e operacionalização das “cartas náuticas”. Concomitantemente, o desgaste dos marinheiros que trabalham no porão é incalculável. Os que contemplam o sol são os lacaios aduladores que acompanham o capitão junto ao leme, porém, incautos, incapazes de reconhecer que só não naufragaram por determinação dos responsáveis marinheiros que bracejam a todo o esforço, remando no porão. Comparável à triste ilusão dos que só chegam à hora do espetáculo para ver de camarote a peça e subir ao palco para receber os aplausos, quando os verdadeiros e únicos promotores estão nos bastidores, sem rosto, sem identidade, sem reconhecimento. E esta graciosidade fantasma navegante perpetua-se a coberto da “marítima inspeção” que surge de pré-aviso, hipnotizando-se com as eloquentes citações psicofilosóficas e “éticas”(!), deixando-se embrenhar e deslumbrar perante a recente e fugaz papelada emprestada pela embarcação vizinha, negligenciando completamente as destrutivas condições em que trabalham dia a dia os marinheiros numa embarcação à deriva.
    Perante lideranças assim os inteligentes, responsáveis, organizados, são oprimidos e humilhados sob gargalhadas e críticas ocas e ataques à sua vida pessoal e profissional, na falta de argumentos lógicos para demovê-los da sua visão realista. Ser realista num meio de mediocridade é incómodo, dá trabalho, abala muito comodismo e inércia. Pois a mediocridade é incapaz de apresentar lógica no que quer que seja. E como para a sua insípida liderança não encontram fundamento, afirmam-se guinchando que nem jumento ou ignorando a voz da razão como se esta fosse de loucos.
    Efetivamente, pior que não ter visão é descredibilizar aqueles que a têm. E tão somente por um mordaz individualismo, porque o reconhecimento da capacidade e do mérito de outro ensombra os castelinhos de papel onde vivem embrenhados, numa utópica perfeição, o “rei” ou a “rainha” (líder) com seus “príncipes” e “princesas” de fachada. Ou será que nem este estatuto a “rainha” ou o “rei” lhes reconhece? Serão mesmo serviçais sem disso estarem conscientes? Quanta ingenuidade!
    Lamentavelmente, assim existem, intoleráveis à crítica e negligentes no reconhecimento das competências alheias no contributo para a maior qualificação e para o desejável sucesso das equipas. É arrepiante verificar alguns responsáveis de equipas para os quais está sempre tudo ótimo; tudo é excelência desde que seja sob a sua alçada… Fazem sempre o melhor que podem fazer e o melhor que podem fazer é o melhor de todos e para todos… Socorro!!! Derretem-se a olhar as coisas positivas, dançam ao som dos elogios e fingem não ouvir as críticas que lhes picam o ego. Pior: descredibilizam as críticas, cobrindo-as com louvores completamente infundados, medíocres. Líderes que tomam a mais simples questão ou dúvida que se coloca como uma ofensiva, como um ataque, porque deixa a descoberto a incompetência dos mesmos naquelas que deveriam ser as suas mais elementares competências. Quanta roupagem de incoerência utilizam para justificar decisões imprudentes!…
    Um verdadeiro líder utiliza, sem dúvida, em primeira mão, os elogios e os louvores para motivar a equipa a continuar, mas não negligencia as mais pequenas críticas para alavancar o aperfeiçoamento, a superação. Assim como o adubo para as plantas, as críticas são o melhor fertilizante de qualquer organização inteligente. Inteligente, sim! Porque é necessário ser inteligente para ser capaz de transformar a crítica num patamar a superar, num objetivo a atingir. Como qualquer adubo natural (que são dos melhores!) cheira mal, incomoda, suja a imagem, mas é verdadeiramente fortificante. Nem só de beijos de sol vivem as plantas que se querem a dar fruta de qualidade!!!
    Um dos aspetos mais aviltantes das lideranças é a parcialidade. Um verdadeiro líder sabe ser imparcial, não ouve apenas aqueles de palavras mansas, que se abeiram para lhe limpar a pele. Ou será para lhe lamber o pelo? Não se escandalizem! Somos humanos! É conhecimento básico que temos o corpo coberto de pelos! Mas compreendo o escândalo: são as lambidelas! Mas, infelizmente, assim se alimentam alguns egos famintos!
    Segundo a antropologia “ascendemos” à condição de seres humanos, por um esforço de milhares e milhões de anos, porque “um ser até homem” procurou superar-se. Deplorável é concluir que se nos pautássemos pelo nível de alguns “líderes de cadeira”, de título, continuaríamos e viver em cavernas. A eterna macacada! Autênticas pedras preciosas que se vangloriam a si mesmas! E são unicamente isso mesmo: seres petrificados! Seres embrenhados num conformismo inquebrantável! Surdos para a mudança, conformistas, replicam o passado com medo de implementar novas ideias. São verdadeiros empecilhos à inovação e à excelência.
    Mas não desistam nem fujam os de olhar realista e voz crítica! Continuai a ser um marco de qualidade. Abandonar a embarcação é matar esperanças! Precisamos de vós para manter a confiança num melhor amanhã!