Comunidade madeirense na Venezuela alvo de saques e sem dinheiro e os governos contactam só com os que têm mais peso financeiro

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A onda de protestos dura há meses e o caos instalou-se na Venezuela.

A Venezuela está um caos. Há saques a estabelecimentos de portugueses, a maioria originária da Madeira, o regresso está ser equacionado por muitos mas o custo que isso envolve e a falta de disponibilidade financeira, deixa muitos num “beco sem saída”. Tudo desvaloriza, moeda, casa, carro. Tudo é inseguro, nas ruas e nas residências. Tudo é precário, o mais grave é a Saúde, com os hospitais sem meios para acudir às solicitações, valendo o profissionalismo dos médicos.

Todo este retrato é dado por Aura Rodrigues e Nataly Pestana, membros da Associação Venexos, uma organização de ajuda à comunidade, agora que se vislumbra um regresso cuja dimensão ainda não se sabe bem.

Ataque ao mercado e destruição de negócios

Aura Rodrigues faz referência mesmo a episódios assustadores que hoje ocorrem na Venezuela e que atingem particularmente a comunidade madeirense. Conta o caso, ocorrido há duas semanas, de um mercado em El Paso, San Pedro de Los Altos, Estado de Miranda, onde as bancas de vendas de produtos, 99,9% pertença de madeirenses ou luso-descendentes, foram destruídas por grupos de assaltantes, “que nada têm a ver com as manifestações que têm ocorrido, mas que atacam, com a conivência das autoridades locais, incriminando a oposição pelo sucedido. É um desespero”, desabafa quem tem conhecimento real de situações que por vezes nem chegam ao conhecimento da informação, mas que se vê impotente para encontrar um ponto de viragem no atual cenário de impasse. “O que se passa é muito grave”, diz.

Críticas ao presidente da Câmara luso-descendente

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Nataly Pestana, à esquerda, e Aura Rodrigues, representam a Associação Venexos.

“Recebi telefonemas de pessoas que me conheciam, porque trabalhei muitos anos no consulado português em Los Teques, que estavam desesperadas”, diz Aura Rodrigues, que conta testemunhos que apontam críticas ao presidente da Câmara de Guaicaipuro, um luso-descendente, “pela inércia que revela face a todas estas situações que afetam portugueses”.

Assim, parece não há forma de dar solução à grave crise que a Venezuela atravessa, onde há dois meses ocorrem manifestações violentas nas ruas, convocadas pela oposição em protesto face às políticas seguidas pelo presidente Nicolás Maduro e o modo como está a conduzir o país ao desastre.

O resultado de 62 mortos expressa bem o que ali se passa, um país onde se encontram a viver milhares de madeirenses e onde a fome e o caos já estão instalados e atingem dimensões preocupantes. Ao ponto de já termos um número que começa a registar um aumento galopante: 4 mil luso-descendentes já regressaram à Madeira, com os últimos indicadores conhecidos a darem perto de mil inscritos no Instituto de Emprego em pouco mais de sete meses.

Saque, falta de produtos, violência…

Esta realidade promete vir a agravar-se se a situação na Venezuela, como parece, não sofrer alterações, relativamente ao que tem acontecido nos últimos tempos, onde o saque a lojas, a falta de produtos, a violência nas ruas, a que se junta o que já era um clima de insegurança naquele país, prometem acabar com aquilo que, durante muitos anos, foi o “paraíso” para uma grande parte da comunidade madeirense que para ali emigrou e que constituíu família, verificando-se já uma significativa faixa de segunda e terceiras gerações.

Governos avaliam situação, fora e dentro

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As autoridades não conseguem travar as manifestações diárias, os saques e a violência.

Os governos, nacional e regional, foram agora a Caracas, em pleno contexto de instabilidade, procurando encontrar uma plataforma de entendimento que, não só dê conforto aos portugueses quanto à segurança no País, mas também crie condições para evitar o êxodo que se teme e que, a acontecer, vai criar inúmeros problemas internos, de dimensão incalculável e de resultados que podem ser catastróficos, preocupação relativamente à qual não estão alheias declarações recentes do secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, Sérgio Marques, afirmando que a Madeira não tem condições para receber, em massa, os madeirenses de volta à Região.

Assunto delicado, política e socialmente

Não obstante, além desta deslocação a Caracas, os governos vão estabelecendo contactos tendentes a evitar mais problemas, porque os que já estão criados são suficientes para originar grandes apreensões. O Governo Regional criou um grupo de trabalho para enfrentar este assunto, politica e socialmente delicado, que já vai nos 4 mil regressos mas que pode vir a aumentar de forma significativa. E, agora, é esperar que o conflito seja resolvido no sentido de dar estabilidade à Venezuela e à extensa comunidade lusa que ali vive. Mesmo com todos os dados que prenunciam algo mais problemático.

O governo venezuelano, nesta deslocação ao país das autoridades nacionais e regionais, prometeu que ia apoiar, de imediato, os comerciantes portugueses, entre eles muitos madeirenses, que viram os seus negócios destruídos por via do vandalismo que se instalou no meio dos protestos, situação que pode minimizar as dificuldades, ainda que persista o problema de fundo.

Movimentos contra Maduro e pela estabilidade

Na Madeira, sucedem-se os movimentos que, do exterior, lutam contra esta “marcha de Maduro”, sem precedentes, muitos apontam um grande agravamento relativamente ao tempo de Hugo Chávez, já de si um líder controverso. Só que Maduro não está a conseguir os equilíbrios mínimos.

As últimas declarações do líder venezuelano referem que após ser redigida a nova Constituição do país, vai propor “de forma expressa que seja submetida a um referendo antes de ser aprovada”.

Aura Rodrigues, da Venexos, diz que Maduro não estava preparado para o poder, “foi um produto de Chávez” e lembra o percurso do atual líder venezuelano, apontando que o mesmo teve “uma subida repentina na política depois de ter sido motorista de pesados e de metro”.

Luta contra a burocracia

Quem está na Região, mas com familiares muito por dentro dos problemas, a tensão é grande. A Associação Venexos, constituída há quatro anos no Continente português e há um ano em atividade na Madeira, faz o que pode, luta contra a burocracia das estruturas da Região, para garantir apoios que são dados na Venezuela e que as pessoas pretendem possam ser transferidos para cá.

Contactos com os que têm mais poder económico

A deslocação, esta semana, de uma delegação representativa dos Governos da República e Regional, integrando o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, com a tutela das comunidades, não deixa maiores esperanças a Aura Rodrigues, membro daquela associação, que quer ajudar os madeirenses e ainda tem o marido a viver na Venezuela, sabe por isso o que se passa no terreno. “Os contactos que as autoridades do País e da Região fizeram, no Centro Português de Caracas e em Valência, nos últimos dias, tiveram como alvo madeirenses com grande capacidade financeira, muitos deles já não têm grande património lá e, neste momento, não representam a maior parte da comunidade madeirense, aquela faixa que não pertence ao clube, porque é preciso pagar uma quota alta para ser associado, além de que não são esses que estão afetados pelos saques e a precisarem de ajuda”.

Vivem com dificuldades e não têm dinheiro para regressar

Tanto Aura Rodrigues como Nataly Pestana são unânimes em considerar que a promessa de apoios, por parte do governo da Venezuela, é inconsistente, não sentindo alívio, por isso, acerca da preocupação no que toca ao futuro dos madeirenses naquele País. “Os que sofreram mesmo estão numa encruzilhada, vivem com dificuldades e não têm dinheiro para o regresso, porque tudo o que têm desvalorizou. Querem vender o que têm, mas não dá nada”.

A questão que se coloca, hoje, assenta no regresso a Portugal. E quando se fala em perigo real do regresso, Aura Rodrigues não tem dúvidas: “Perigo real era se as pessoas tivessem dinheiro para vir. Não têm. Aqui na Madeira, as pessoas tiveram um, dois filhos. Os emigrantes não, tiveram vários filhos, que por sua vez também têm dois ou mais. As famílias são grandes e não é fácil virem para Portugal, com os custos que isso representa”.

Há muita burocracia”

Em matéria de apoios, na Região, defende que “há muita burocracia” e tem vindo a estabelecer contactos que visam, precisamente, ajudar os que vêm na integração e tentar desburocratizar o que for possível. Recusa que venha a existir tensão entre madeirenses, os que estão e os que chegam, porque “somos todos madeirenses e podemos estar integrados na Região. Não acho que isso seja um problema, os que vêm não querem viver de subsídios, querem trabalhar”.