Os duplos dão um filme

 

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Respeito muito os duplos…os do cinema.

A ficção tem algumas situações que se confrontam, por fronteira ou até mesmo antes de lá chegar, com a realidade da nossa vida, com particular enquadramento na política, mas atingindo outros sectores onde se não há políticos faz-se política e fazendo-se política temos os duplos em contexto realmente vivido. Na ficção, os filmes fazem os duplos que parecem realidade; Na realidade, os duplos fazem “filmes” que até parecem ficção.

Entre a ficção e a realidade, os duplos, de um lado ou do outro, desempenham um papel determinante no resultado que, tanto a indústria cinematográfica como as sociedades, podem ou não alcançar. O sucesso ou insucesso depende, em grande parte, dos duplos. É interessante este exercício quando olhamos à nossa volta, todos os dias, de manhã à noite, e verificamos que no “filme da vida”, nem sempre os atores têm os papéis principais, às vezes são mesmo os duplos a desempenhá-los. A experiência é grande e tantas vezes paramos, por momentos, com aquela reação típica e corriqueira de que “já vimos este filme”. E quando vemos melhor, são os duplos que lá estão, não são os atores.

Embora estejamos a falar de duplos em diferentes enquadramentos, a palavra tem as mesmas características quando recorremos aos dicionários disponíveis para a chegarmos à sua definição. O problema não é a palavra mas a sua aplicabilidade. Sendo aplicada de forma distorcida, proporciona-nos entendimentos diferenciados quando abordamos a temática sob os pontos de vista ficcional e real. Por exemplo, os duplos do cinema correm riscos para segurança dos atores. Os duplos da vida real nunca correm riscos e põem em risco os verdadeiros atores. Os duplos do cinema são pagos para construir uma história que faça parecer real. Os duplos da realidade são pagos e “pagam-se” para destruir a história e para que esta pareça ficção. São formas de ser, aceites commumente pelas sociedades, que já olham os duplos como figuras determinantes na triste história que estamos a construir a todos os níveis. Deveriam mesmo constar dos manuais de sobrevivência, do género suporte de vida, tanta a influência que hoje têm e que terão no cataclismo que um dia há-de chegar se não houver inversão de acontecimentos, de princípios e de valores.

Os duplos do cinema passam por cataclismos, acidentes de automóvel , incêndios, quedas, fazem o chamado “trabalho difícil” dos filmes. Os duplos da realidade escapam aos “cataclismos”, aos “incêndios”, aos “acidentes” precisamente porque eles próprios é que os provocam e deixam para os outros o “trabalho difícil”. Os primeiros fazem “queda livre”, os segundos “livram-se de quedas”.

Os duplos do cinema podem sofrer ferimentos e correm riscos de morte. Os duplos da vida real não. Têm sempre um pé dentro e outro fora e passam incólumes a todos os sistemas e vicissitudes. Voltam aos cenários que entretanto vão mudando como se nada tivesse acontecido e convivem com protagonistas diferentes como se de velhas amizades se tratassem. Esta realidade serve a muita gente, mas sempre mais aos duplos.

Os duplos do cinema, normalmente, não sabemos quem são, assumem-se como heróis anónimos. Os duplos da realidade são heróis na mesma, heróis da arte do bem sobreviver numa sociedade carente e doentiamente perdida em conceitos que vão corroendo os alicerces. Mas sabemos quem são e onde estão. São praticamente os mesmos e estão na mesma, sempre duplamente garantidos. Como só estes duplos sabem ser. Duplamente reconhecidos por outros duplos, que se duplicam em manifestações duplas para que se fique sem saber se estão à direita da esquerda ou à esquerda da direita.

São uns “castiços” estes duplos. Uns “castiços” perigosos.

É por isso que cada vez gosto mais dos duplos…os do cinema.

É por isso que muita gente já diz: “Tirem-me deste filme”.