Testemunho de uma voluntária no RG3: “Chorámos por dentro, escutámos quem tudo perdeu e respondemos com carinho a tanta desgraça”

silvana princxipal
Silvana Spínola, ligada à Casa do Voluntário, deixa ao FN o seu testemunho, nestes dias de auxílio aos desalojados. Fotos DR

Quando o Funchal ardia, uma onda de solidariedade despontava, de forma discreta mas assumida, em toda a Região. Dezenas e dezenas de jovens e adultos adiaram as suas férias e vida pessoal para agendar como prioritário um compromisso com o voluntariado. Quando as primeiras notícias de desalojados eclodiam e os bombeiros combatiam as chamas, os voluntários chegaram pelos seus próprios meios ao Quartel RG3 apenas com uma missão: ajudar!

Desde a passada terça feira, o voluntariado foi um braço operacional do socorro que em muito contribuiu para que as autoridades dessem uma resposta célere às centenas de desalojados. Poucos falam deles, é certo. Também dispensam propagandas primárias e oportunistas. Alguns já têm um percurso de voluntariado nas instituições da terra. Mas o FN, no rescaldo deste drama que ainda mexe com todos, quis divulgar o exemplo de bons valores que esta equipa quis prestar.
Como esta, outras equipas multiplicaram-se pela Região, a entregar espontaneamente bens alimentares e roupa, outros fizeram os seus depósitos nas contas solidárias, e só assim a reconstrução tem sido certamente mais facilitada. Há ajudas que não se contabilizam, superam os números e fazem toda a diferença porque brotam do lado mais intrínseco do ser humano.
Não é certamente, por acaso, que nos grandes países da Europa, antes de empregarem alguém, pede-se como condição no Curriculum Vitae a experiência de voluntariado. São as empresas a apostarem neste pilar essencial que é a relação interpessoal, a formação para os valores, com destaque para a solidariedade
Silvana Spínola é uma jovem que pratica o voluntariado ao serviço da Casa do Voluntário, com formação prévia nesta área. Alegre, espontânea e empreendedora, tem conciliado os estudos – concluiu agora o 12.º ano de escolaridade, na APEL – com o apoio aos mais carenciados, quer aos doentes oncológicos no Hospital quer a outro tipo de auxílio que é convocada a prestar. É ela mesma que, a pedido do FN, deixa o seu testemunho – também em nome de tantos outros voluntários – de oito dias vividos no RG3.
VOLUNT7
“Desde terça-feira, dia 9/8/16, foram necessários voluntários para ajudar a receber as pessoas desalojadas no RG3 . Era uma tarefa prioritária e de comprovada emergência. A resposta não se fez esperar e foram dando entrada no Quartel muitos anónimos com o ensejo de apenas ajudar.
Inicialmente, os voluntários foram todos identificados como tal e acompanhavam as famílias às instalações do RG3, nomeadamente às áreas dos dormitórios, refeitório e sanitários.
Na terça feira, a Escola Básica da Nazaré teve que ser aberta devido à quantidade elevada de pessoas que iam chegando ao Quartel. Foi tudo preparado na Escola para podermos receber as pessoas com conforto e tranquilidade. Este trabalho foi sempre acompanhado por  assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros e voluntários. Muita dor no rosto dos desalojados, alguns em silêncio, outros mais expansivos.
Sentimos, desde logo, que a dimensão da tragédia estava a aumentar e que o nosso trabalho seria cada vez mais necessário e decisivo. Os voluntários tinham que respirar fundo e retirar do seu coração a força necessária para levantar o ânimo dos desalojados, criar um bom ambiente e levá-los a acreditar num futuro de esperança.
VOLUNT2Felizmente, a onda de solidariedade era imensa, pois não parava de chegar roupas e comida às portas do RG3. Assim são os madeirenses. É incrível como o povo se uniu todo para ajudar quem realmente perdeu tudo. Esta lição é também importante passar às próximas gerações, porque foi tocante ver um cenário bem real de partilha incondicional e de compaixão dos madeirenses para com as vítimas. Os voluntários sabem bem que devemos “um grande obrigado” ao povo madeirense pela enorme solidariedade que se fez sentir durante dias seguidos.
VOLUNT3
Saber escutar os relatos de dor
Qual o papel do voluntário nestas circunstâncias? Não foi apenas ajudar a nível físico as vítimas dos incêndios mas também ouvir muitas histórias das pessoas que passaram por esta situação. Havia que saber escutar quem passou por muito e que parecia que ainda estava a viver o drama.
Fomos acompanhando de perto algumas situações muito intensas e, aos poucos, criámos uma “família ” após 8 dias que foram de dura luta e de muita coragem.
Uma, entre outras notas curiosas, que não deixámos de considerar absolutamente incrível: as pessoas que, felizmente, conseguiram salvar os seus animais, faziam-se acompanhar pelos mesmos e ficaram assim bem instaladas. Esta companhia dos animais foi preciosa, aliada às doces palavras e empenho dos voluntários.
VOLUNT4Todos foram bem tratados, inclusivamente os voluntários, diga-se em abono da verdade. Ajudas não faltaram, quer de voluntários, quer de assistentes sociais, enfermeiros, médicos, psicólogos, proteção civil, entre outros …
Com o passar dos dias, os voluntários assumiram diversas funções, nomeadamente servir refeições às pessoas, proceder à arrumação das roupas doadas, bem como dos bens alimentares oferecidos, acompanhar às zonas dos banhos e também a escolher roupas adequadas.
Na terça-feira, recebemos estrangeiros ( ingleses e espanhóis ), os turistas, que estavam hospedados em pousadas na zona de São Pedro. Foram bem recebidos e tentámos que estivessem o mais à-vontade possível, de modo a pernoitarem apenas aquela noite, enquanto lá fora as coisas fossem normalizadas. Compreendemos o drama: de férias, a pagar um destino e a viver momentos aflitivos. Era urgente expressar atenção e carinho, de modo a contrariar a onda de desespero, a ameaçar manchar o nosso turismo.
VOLUNT8Os militares foram essenciais
Continuámos a receber famílias na Escola da Nazaré. Importante frisar que a ajuda dos militares foi essencial nesta situação, pois estavam sempre ao nosso “dispor ” , nomeadamente levavam as refeições à Escola Básica da Nazaré, onde também pernoitavam desalojados em situação de evidente carência e desgosto.
A semana foi decorrendo ao ritmo da evolução dos incêndios com informação e contra-informação. Os voluntários com fé rezavam pelo fim das chamas que teimavam em dificultar a vida de todos. O ambiente era tenso. Ao fim de um dia de voluntariado, era chegar a casa com a alma carregada de histórias dramáticas, bem reais, tomar um duche e, vencidos pelo cansaço, tentar adormecer. No dia seguinte, havia que recomeçar esta missão de misericórdia para com aqueles que bem precisavam de nós. Todos foram incansáveis, deram o melhor que podiam e a equipa esteve bem articulada no terreno e orientada por profissionais competentes e dedicados a esta missão. Só quem está no terreno é que pode dizer da dedicação de uma vasta equipa, dia e e noite, no socorro às famílias.
VBOLUNT 1Depois, o sol foi renascendo, desta feita menos hostil. Com o regresso gradual à normalidade, sem a ameaça do fogo e, sobretudo, com o início da atribuição de casas provisórias para as famílias, a situação começou a ficar muito mais calma. Era a etapa de precisar de mais voluntários para organizar a grande quantidade de roupa que chegou ao RG3. Havia que separar, dobrar, empacotar, transportar, oferecer… Uma tarefa que era feita com o inevitável pensamento nas centenas e centenas de madeirenses que acorreram ao RG3 para as suas ofertas aos desprotegidos. Impossível não destacar esta solidariedade que dispensa todas as palavras.
Como já referi, os voluntários ajudam porque a consciência assim os impele. Foram muitos e bons. Tivemos voluntários da Casa do Voluntário, a quem pertenço, o grupo de jovens da Nazaré, jogadores do CAB  e tantos outros que se aproximaram e assumiram o voluntariado com desvelo.
silvana 2
Da minha parte, um “muito obrigada” a todos. Um agradecimento especial à responsável pela Casa do Voluntário, à socióloga Helena Correia e restantes colegas. Palavras de gratidão também para os voluntários Adelaide Clode, Ana Clode, Ana Nascimento, Carolina Gonçalves, Cristiana Camacho, Diana Dinis, Filipa Mendonça, Inês Ventura (turista ), João Vieira, José Luís, Leontina Serôdio, Luísa Pereira, Rute Fernandes, Sara Fernandes, Sofia Campos, Sílvia Carriço, Tetyana, Mara viegas, Sofia Pestana, João Vieira, Águeda, Enfermeiros estudantes da Escola São José de Cluny, Diogo Ferreira, Heloísa Júlio, Petra Melhorado, Iolanda Pereira, e tantos outros nomes que me escapam nesta referência e que são dignos da nossa gratidão.
VOLUNT8Por fim, dizer que o trabalho voluntário é uma lição para toda a vida. Concluída esta etapa decisiva, virão outras que exigirão de nós uma resposta imediata e firme. Cá estaremos, na Madeira ou noutro lado do mundo, para ajudar o próximo. Depois de fazer voluntariado, ninguém fica indiferente ao sofrimento dos outros.”