Editorial: O paradoxo de Zenão na prestação de cuidados de saúde na Madeira

Há um paradoxo de Zenão na prestação de cuidados de saúde na Região Autónoma da Madeira. O Paradoxo de Zenão é um conjunto de argumentos lógicos criado pelo filósofo grego Zenão de Eleia (século V AC) para demonstrar que a mudança, a multiplicidade e o movimento são ilusões.

Em que é que se traduz esse paradoxo?
De um lado, erguem-se infraestruturas imponentes (Hospital Central e Universitário da Madeira e Centro de Saúde do Porto Santo); do outro lado, deparamo-nos com a exaustão crónica do sistema, as altas problemáticas, as intermináveis listas de espera, a cíclica falta de medicamentos na farmácia hospitalar, a elevadíssima taxa de infecções hospitalares e, mais importante, o DESESPERO SILENCIOSO DOS UTENTES.

O ecossistema da Saúde na Madeira padece de uma ilusão de ótica do betão: O investimento em património físico é inegável. O novo Hospital Central e Universitário da Madeira surge na paisagem física como a promessa visual de uma nova era. Contudo, a edificação de paredes modernas não cura doentes se o interior estiver desprovido do elemento mais crítico: HUMANIZAÇÃO.

As prioridades não podem estar invertidas. Discute-se muito a componente imobiliária (mais esta e aquela obra no bloco X ou Y, o que fazer com o velho hospital depois de inaugurar o novo?). Mas e a negligência estrutural? Aquela silenciosa que não é culpa de ninguém em particular mas de todos (do sistema). Esta negligência estrutural que mata com bactérias e séspis, que mata com pneumonias e desidratação (sim, leu bem, falta de água) e que, no fim da linha, promove romarias para os cemitérios.

Não sou eu que o digo, são as estatísticas: A esperança de vida na Madeira é mais baixa do que no continente. Que mal fiz eu a Deus por ter nascido na Madeira e não no Alentejo, em Lisboa ou em Coimbra?
Uma sociedade do Séc. XXI não pode deixar “morrer como gado” (apenas uma metáfora que simboliza uma morte desumanizada, com perda de individualidade, de dignidade e de controlo sobre o próprio destino, tal como animais levados ao matadouro).

O sistema tem sempre explicações lógicas, qual Zenão: Ah, é a subvalorização crónica dos salários dos profissionais, a fuga de cérebros, a migração em massa de médicos e enfermeiros para o continente ou estrangeiro, o esvaziamento técnico, serviços de ponta sem especialistas suficientes, a falta de incentivos para a atração a fixação de quadros, as famílias que abandonam os mais velhos nas urgências dos hospitais, etc.., etc…

O resultado é uma assimetria brutal: instalações de primeiro mundo geridas por equipas sob pressão de terceiro mundo.

O tempo não pára. Na Saúde luta-se contra o Tempo. É de uma exigência física e mental tremenda.
Não há manifestação mais violenta no sistema de Saúde do que o silêncio de uma lista de espera.

Por vivermos numa ilha, o isolamento do doente que aguarda por uma consulta de especialidade, uma cirurgia programada ou um exame de diagnóstico é ainda mais evidente. A espera prolongada do utente (eufemismo para não falar de doente ou paciente) tem impactos psicológicos e funciona como uma triagem oculta. O utente, sem capacidade financeira para recorrer ao setor privado, vê a sua patologia evoluir de uma condição controlável para uma situação crónica ou terminal. Isto destrói a confiança pública no Serviço Regional de Saúde.

A linha do tempo parece ser esta: início dos Sintomas, espera pela Consulta, espera pelos exames complementarres de diagnóstico, agravamento da Doença, espera pela Cirurgia, Urgência e internamento Hospitalar, infeção hospitalar, espera pela reabilitação/medicação, fragilização do sistema imunitário, cuidados paliativos (os que lá chegam), morte, cemitério.

Há tempos de resposta que ultrapassam os limites clinicamente aceitáveis. Cirurgias adiadas, blocos operatórios subutilizados, exames de diagnóstico retardados, convenções privadas que sugam o orçamento regional. Há uma pressão sufocante sobre o Serviço de Saúde e sobre quem está na Linha de Frente. Entra com grande motivação mas o passar dos dias acaba por quebra-se o ímpeto.

O Serviço Regional de Saúde da Madeira carrega o peso de uma população duplamente vulnerável: envelhecida e geograficamente dispersa.

Nesta pescadinha de rabo na boca, o cidadão já tem os seus truques: Apesar dos apelos públicos em contrário, os Serviços de Urgência do Hospital Dr. Nélio Mendonça funcionam frequentemente como a única porta de entrada eficaz, colapsando logo nos corredores de macas onde GENTE agoniza.

Médicos, enfermeiros e assistentes operacionais fazem o que podem, enfrentam turnos duplos, turnos noturnos consecutivos e uma carga burocrática asfixiante. Passam mais tempo em frente ao computador a fazer perguntas ao doente do que a ouvi-lo DE VERDADE. Entre triagen e pulseiras, perde.se o sentido de humanidade. A exaustão física e o burnout não são exceções; tornaram-se a norma operacional. Há rácios desajustados, número de doentes por enfermeiro muito acima do recomendado.

Dizem as Boas Práticas e os argumentos de Zenão que os Cuidados de Saúde Primários (Centros de Saúde) deveriam funcionar como o escudo protetor do hospital central. Na Madeira, a rede de Centros de Saúde é vasta, mas a sua eficácia prática encontra-se severamente comprometida pela distribuição desigual de recursos. Falta Médicos de Família: Milhares de madeirenses continuam sem um médico atribuído. Os concelhos do norte sofrem de uma escassez de recursos muito mais acentuada do que o Funchal. Os Centros de saúde fecham cedo, a doença não tem horas e empurra as pequenas urgências para o Hospital. Quando a medicina preventiva falha na periferia, o centro hospitalar não suporta a pressão do fluxo contínuo de doentes descompensados.

Viver numa ilha impõe um imposto biológico e financeiro à saúde. Para os habitantes do Porto Santo, a situação atinge níveis de gravidade extrema. A dependência de evacuações médicas aéreas introduz uma variável de risco temporal que pode ditar a linha entre a vida e a morte.

Paralelamente, na Madeira, assiste-se a um crescimento agressivo do setor privado de saúde. Embora este crescimento alivie teoricamente a pressão sobre o setor público, na prática gera uma fratura social violenta. Há uma falsa aparência de equidade. Sim, há respostas rápidas, mas são caras. Há uma Saúde para os pobres e uma para os ricos. Com uma nuance, muitos profissionais de saúde dividem o seu tempo entre o hospital público e a clínica privada, um modelo híbrido que frequentemente penaliza a produtividade no setor estatal. Ninguém é ‘super homem’ embora seja recorrente ver feições diferentes da mesma pessoa estando sentada a uma secretária pública ou privada.

A Madeira enfrenta uma transição demográfica acelerada. Estamos a ficar cada vez mais velhos. A população idosa cresce a um ritmo superior à média nacional, enquanto a taxa de natalidade contrai. Isto reflete-se diretamente nos internamentos hospitalares.

Há altas problemáticas, falta de resposta da rede de lares ou apoio familiar, centenas de camas hospitalares ocupadas por motivos sociais, impedindo o internamento de doentes agudos, a rede regional de cuidados integrados é manifestamente insuficiente. Enfim, um efeito dominó que paralisa as urgências e adia as cirurgias programadas, gerando um ciclo vicioso de ineficiência e sofrimento.

A governança da saúde na Madeira tem sido historicamente marcada por uma forte centralização política. As decisões estratégicas sofrem, por vezes, de uma visão de curto prazo, pautada por ciclos “de dirigentes” em detrimento de um planeamento estrutural. Muitas vezes com decisões erradas que custou milhões ao erário. Veja-se o ‘micro-ondas’ para tratar de resíduos hospitalares.

Não é fácil reverter a degradação silenciosa do sistema, são necessárias reformas profundas e corajosas. Ideias há muitas: Dotar os conselhos de administração dos hospitais de real independência face ao poder político, criar incentivos para fixar médicos e enfermeiros na região, digitalizar e unificar sistemas de informação entre cuidados primários, hospitalares e privados para evitar duplicação de exames, apostar na Saúde Mental, etc. e tal.
Sem perder o foco: A verdadeira saúde da população de uma Região mede-se pelo tempo que um cidadão comum espera por uma resposta, pela dignidade com que um idoso é tratado nos seus últimos dias e pelas condições de trabalho oferecidas a quem cuida.


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