Praia do Porto Santo cada vez mais “anoréxica” ameaça economia da ilha

Fotos: Rui Marote

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A praia do Porto Santo tem vindo a perder areia de forma acentuada ao longo das últimas décadas. É o delapidar de um património geológico que corresponde também a um recurso económico importantíssimo que o FN hoje aborda, no ciclo de reportagens consagradas ao Porto Santo. Uma situação que exige planeamento estratégico, apontando no sentido das recargas artificiais e da preservação ecológica.

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É a ‘galinha dos ovos de ouro’ do Porto Santo. A praia da ‘Ilha Dourada’ é, inequivocamente, uma das mais belas do país e mesmo do mundo. Afirmá-lo não será exagero. São nove quilómetros de um areal fantástico, com qualidades terapêuticas, consistência agradabilíssima ao toque, nem muito espessa nem demasiado ‘farinhenta’, enquadrado por uma paisagem muito bonita se bem que algo árida. Descontrair neste pequeno paraíso onde não se encontram os mesmos vícios nem a enorme concentração de pessoas por metro quadrado que se vêem em destinos turísticos de massas, é um autêntico privilégio.

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Mas esta praia, considerada uma das ‘7 maravilhas naturais’ de Portugal, está ameaçada. A forma como a areia tem vindo a desaparecer nas últimas quatro décadas, sem ser reposta, é acentuada e constatada por ambientalistas e geólogos, e bem assim também pelo cidadão comum, que não pode deixar de registar o que está perante os olhos de todos.

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Não é preciso ir muito longe para verificar como a areia da praia se reduziu significativamente ao longo dos últimos anos. Basta lançar mão, como nos sugere Henrique Costa Neves, dum antigo livro, como o guia ‘Porto Santo, Ilha Morena’, de Guido de Monterey, com fotografias do nosso próprio repórter fotográfico Rui Marote, editado em 1982, e olhar para as imagens então captadas, que retratam uma faixa de praia muito mais ampla do que nos dias de hoje.

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O antigo vereador do Ambiente da Câmara Municipal do Funchal e ex-director do Parque Natural da Madeira é peremptório: do seu ponto de vista, a alteração sofrida nas últimas décadas decorre do local, mal escolhido, onde foi construído o porto de abrigo do Porto Santo, e que impede a circulação das areias vindas da parte mais a norte da ilha. As areias acabam por acumular-se contra o paredão do porto, tendo criado uma zona de praia que anteriormente não existia, muito para leste, e não circulam. A quantidade de areia, inclusive, causa um assoreamento do porto e graves entraves à entrada de navios, inclusive do ferry Lobo Marinho, que, ao dar entrada na zona portuária, levanta imensa quantidade de inertes do fundo, que se encontra demasiado elevado, exigindo dragagem e reflectindo-se nos custos de manutenção do próprio ferry, uma vez que os sedimentos são aspirados para a zona da hélice.

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É incontornável que há zonas de grande regressão do cordão dunar, que se reflectem numa taxa de recuo muito grande. O mar retira areia todos os anos, num processo natural, e também a repõe, mas não suficientemente. Para Henrique Costa Neves, tendo em conta que a praia tem milhões de anos e sofreu este recuo tão acentuado num espaço de meras décadas, é uma realidade insofismável que o porto de abrigo terá de ser, mais cedo ou mais tarde, deslocalizado para outro lugar – onde deveria ter sido originalmente construído, como, por exemplo, o Porto dos Frades. Apesar dos enormes custos, tal seria assumir, ao fim e ao cabo, a realidade de que más opções foram tomadas – como se teve que fazer, por exemplo, no caso da Marina do Lugar de Baixo, na Ponta do Sol – e que há necessidade de corrigi-las, para bem de todos.

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É que não há como negar que a grande riqueza do Porto Santo está na praia. E se esta se perder, a economia da ilha vizinha nada mais terá a que se agarrar.

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O engenheiro geólogo João Baptista, investigador da Universidade de Aveiro, admite a possibilidade de interferência da localização presente do porto de abrigo, mas aponta também outras causas para a regressão da praia. Desde 1995 até à actualidade que participa em estudos de dinâmica do litoral e reconhece que há taxas de recuo muito elevadas em áreas como  a que vai desde a foz da ribeira do Touro até à central dessalinizadora. Isso já foi diagnosticado, e objecto de várias apresentações e publicações, e causou imensa polémica.

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João Baptista insiste que esta não é uma questão política, mas técnica e com a qual o desenvolvimento sustentável da ilha do Porto Santo está inextricavelmente ligado.

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As causas são múltiplas, considera. A primeira fase da construção do porto de abrigo ficou concluída em 1984. A última obra ocorreu em 1998, com o paredão interno que visava não só a amarração de pequenas embarcações, mas também impedir toda a propagação da energia das ondas do mar no interior da bacia portuária.

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Já várias operações de dragagem do porto foram feitas, e supostamente está prevista mais uma, por, em períodos de maré baixa, e com alguma ondulação e regimes de ventos do quadrante sul, ser difícil a operacionalidade dos navios, aponta. “Os bancos de areia estão cada vez mais superficiais”.

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A zona da Praia do Combro é uma das que nos parece em melhor estado, em termos de largura do areal…

Situado no sector nascente da praia, o porto de abrigo interfere com a corrente, “perturbando fortemente toda a propagação da ondulação marítima à superfície e em profundidade, e a dinâmica dessas correntes”. Em determinadas alturas do ano, há correntes marítimas que acabam por depositar grande parte da areia dentro da bacia portuária, com todas as consequências para a atracagem de embarcações de grande porte.

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“Sempre que se constroem infraestruturas fixas e rígidas sobre uma linha de costa que está em equilíbrio, vai haver uma perturbação” – constata.

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Foto eng. Henrique Costa Neves

Porém, o porto de abrigo não será o único culpado.

“Há outras causas menos faladas. A maré negra que ocorreu em 1990, reflecte-se agora… porque foi retirada muita área arenosa conspurcada com o crude”, refere João Baptista. Por outro lado, fez-se também exportação de areias e seu aproveitamento na construção civil. Tudo isso teve efeitos negativos. Inclusive porque o Porto Santo não tem nenhum seguro activo para contrariar os efeitos da maré negra, ao contrário, por exemplo, da costa galega, onde se registou o acidente com o petroleiro ‘Prestige’. As respostas às consequências ecológicas e geológicas não se fazem de imediato – por vezes só passados anos, ou mesmo décadas. E o Porto Santo não tem esse ‘guarda-chuva’. Actualmente, não tem a quem recorrer.

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As entidades oficiais esforçam-se por dar uma ajuda à natureza em certas circunstâncias. Antes da Páscoa, regista João Baptista, houve máquinas da Câmara Municipal do Porto Santo que, no regime de baixa-mar, puxaram a areia mais para cima, no sentido de criar uma maior zona disponível para o banhista.

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Em 1982, a praia estava assim… (foto Rui Marote, do livro de Guido de Monterey ‘Porto Santo, Ilha Morena’

A equipa de investigação da Universidade de Aveiro, na qual o nosso interlocutor está envolvido, tem um projecto, que ignora se será ou não aprovado, mas que aponta no sentido de realizar uma grande campanha de educação ambiental no sentido de educar a população no sentido de limitar a produção de resíduos sólidos.

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Foto colhida o ano passado, pelo eng. Henrique Costa Neves

Para João Baptista, é urgente definir um plano estratégico para combater o que está a acontecer à praia. O Plano de Ordenamento da Orla Costeira, entende, é um documento fundamental para disciplinar várias situações ao longo da praia, nomeadamente as famigeradas “casas da lancha”, construídas mesmo em cima da duna, e que, mais do que a função que tinham no passado, servem hoje de segunda residência ou local de empréstimo a terceiros.

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Foto Rui Marote, do livro de Guido de Monterey (1982)

Até os passadiços que foram colocados na praia merecem ao nosso interlocutor sérias reservas, uma vez que muitos deles acabam por estar colocados no interior da charneira da duna, quando deviam estar sobre-elevados, porque basta haver uma maior circulação de vento e a maior parte fica coberta de areia. E a sua função era, ao fim e ao cabo, diminuir o factor de pisoteamento da duna nos acessos à praia.

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O porto de abrigo, uma infraestrutura polémica

A falta de infraestruturas de apoio à praia, como casas de banho ou balneários, é apontada por diversas pessoas como geradora de mais problemas, uma vez que se verifica séria poluição da zona de praia pelos banhistas. Como não há casas de banho, muitas pessoas acabam por fazer as suas necessidades na zona da tamargueira, e isso causa proliferação de ratos, com todas as consequências que isso tem, vindo somar-se negativamente os excrementos ao lixo que é abandonado na praia.

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Todos estes aspectos preocupam não só as entidades oficiais, mas também os hoteleiros que apostaram na ilha, que têm zonas concessionadas de praia e que se preocupam com a qualidade do litoral que prometem aos visitantes, que não querem defraudar.

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Uma vez que estudos da Universidade de Aveiro, da Universidade Nova de Lisboa, do Instituto Hidrográfico e de empresas como a Topomadeira – Serviços Topográficos, entre outros, apontam para uma erosão mais acentuada de certas zonas do areal porto-santense, João Baptista acha que era importante “ter acções concertadas de recarga de praia, nos sectores onde no passado também foi retirada areia para a construção civil e obras públicas, nomeadamente junto ao hotel Colombo’s Resort, ao hotel Luamar e mesmo junto à zona da Calheta, onde há determinadas depressões bastante acentuadas, que permanecem como cicatrizes da retirada desse material”.

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Não falta quem ache que o porto de abrigo, ao invés de ter sido feito aqui…
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…deveria ter sido feito aqui, no Porto dos Frades

Mas não só: o entrevistado preconiza ainda a reflorestação do cordão dunar com espécies endémicas ou naturalizadas. E a sensibilização do banhista no sentido de haver uma maior preservação da praia, não abandonando cascas de verduras, fraldas de bebé, lixo orgânico ou beatas de cigarros, que são recorrentes.

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É que a quantidade de lixo produzido pelas pessoas que levam o carro da Madeira para o Porto Santo para as férias é duas vezes, ou mais, superior em matéria de resíduos sólidos do que o lixo que produzem na Madeira. “As pessoas levam muito plástico, muita lata e muito vidro, por causa das condições muitas vezes difíceis de acesso ao supermercado, e porque fica muito mais barato. Levam os carros atulhados de bens alimentícios, mas depois todo esse lixo fica no Porto Santo”, denuncia. “É importante contrariar este fenómeno”.

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Areia acumulada do lado leste do porto de abrigo

Há quem defenda, mesmo, que é praticável, anualmente, a utilização de um sistema de sucção, através de tubos, da areia que se situa a uma cota mais baixa para uma cota mais alta da praia, reabastecendo a mesma e dando assim uma ajuda no sentido certo. Tal investimento, garantem-nos, cifrar-se-ia apenas aproximadamente nuns 60 mil euros anuais. Se tal é efectivamente praticável nestes moldes, suscita às entidades que contactámos algumas dúvidas, embora admitam que possa concorrer para a solução.

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Uma maravilha em risco

O que é certo é que em certas alturas do ano a praia do Porto Santo torna-se “anoréxica, esquelética” mesmo, nas palavras do engenheiro João Baptista. É o que acontece, aliás, todos os anos a partir de Setembro, com as marés vivas. A partir de finais de Abril, a praia entra num sistema de engorda: as correntes e ventos do quadrante norte são favoráveis à acumulação de areia junto da orla marítima. Mas, para além do fenómeno periódico e sazonal, não há como negar que a praia demonstra uma acentuada tendência de regressão, desde a construção do porto de abrigo, concorda o nosso interlocutor.

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Mas não é esta a única causa. A construção de açudes ao longo das linhas de água resultou numa redução da alimentação de sedimentos ao litoral; a retirada de areia para as obras piorou a situação; o abandono da agricultura até à zona litoral não ajudou; a já mencionada maré negra e a quantidade de areia que saiu com o produto petrolífero foi outro problema; a própria energia mecânica do mar que, nas tempestades, por vezes corta mesmo a duna até a zona da tamargueira também não é para desprezar; tudo isto contribuiu negativamente. João Baptista acredita que a praia do Porto Santo necessitará, efectivamente, de uma grande recarga. “Estivemos a retirar areia todos estes anos, e nunca se repôs”.

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O trabalho tem, no entanto, de ser feito cuidadosamente, ao longo do tempo e de forma cientificamente orientada, com a areia a ser reposicionada e fixada com espécies vegetais endémicas ou naturalizadas, tudo isto cuidadosamente alicerçado num documento de planeamento estratégico, que poderia ser o Plano de Ordenamento da Orla Costeira da ilha do Porto Santo. Para que não acabe, inevitavelmente, por reduzir-se a uma magra largura de areal o grande atractivo que o Porto Santo possui, e que constitui a sua enorme mais valia, a sua própria razão de ser, o motor do seu turismo e da sua economia. Todos os alertas são poucos. E a tutela tem e deve de estar atenta.