O ADN de sempre

h_sampaio

No passado dia 20 de Outubro, o actual governo regional completou seis meses de existência.
Pese embora, o seu tempo de vida seja ainda curto, são já visíveis alguns sinais que evidenciam que traços marcantes da governação jardinista permanecem, o que não constitui propriamente uma surpresa, se atendermos à circunstância de ambos emanarem do mesmo partido.
Claro está que há quem considere que o facto do ambiente de confronto político-partidário se ter desanuviado representa uma diferença substancial que se não deve menosprezar.
Naturalmente que é preferível que esse confronto se desenrole de um modo, digamos, mais civilizado, mas isso não significa que a prática governativa se tenha tornado mais consensual, ou que o respeito pelas opiniões alheias venha prevalecendo sobre o poder de quem detém a maioria parlamentar. Ou seja, de pouco vale ter, por exemplo, um regimento no parlamento regional mais plural e participativo se, na hora das votações dos diferentes diplomas, o aval só é dado aos que provêem da respectiva maioria.
Tal com a governação anterior, a novel continua imbuída do mesmo espírito megalómano – se a criatura que nos legou uma dívida “oculta” e o correspondente PAEF pretendia transformar a Região na “Singapura do Atlântico”, o sucessor quer agora que a Ribeira Brava passe a ser conhecida por “Brava Valley”, numa referência a “Silicon Valley” nos Estados Unidos.
Aliás, o ex-edil do Funchal já era sobejamente conhecido por anunciar projectos com alguma grandiosidade que depois ficavam pelo caminho. Foi assim com o empreendimento turístico-imobiliário do Toco e o espaço museológico no antigo Matadouro, para dar apenas alguns exemplos.
A esse nível, não deixa de ser caricato que tenha disponibilizado a residência oficial da presidência do governo regional para a celebração do contrato entre as empresas que supostamente iriam (irão?) assegurar o transporte de carga entre os aeroportos da Madeira e de Lisboa, que o próprio chefe do executivo prometeu a 4 de Maio e que, seis meses depois, continua por iniciar, tendo já sido adiado por 3 vezes.
De resto, mesmo que agora, o governo regional pretenda (para não ficar mal na fotografia) distanciar-se deste anúncio, sucessivamente adiado, alegando que não houve intervenção directa do poder público na operação, a verdade é que no encarte que fez distribuir com os dois diários locais, por ocasião dos 100 dias de governo, foi escrito que (cito): “o governo desenvolveu esforços para a criação das condições necessárias à retoma de um transporte aéreo de carga regular entre a Madeira e o Continente” (fim de citação). O resto é conversa da treta.
Nada mudou também no que concerne à promiscuidade entre o partido e o governo. É disso exemplo o facto de, nas recentes jornadas parlamentares realizadas em Santa Cruz, os governantes se terem feito transportar nas respectivas viaturas oficiais, como foi prática corrente durante o consulado jardinista. E tal, como o auto-intitulado “único importante” cá do burgo, que fazia coincidir as inaugurações com o calendário eleitoral, utilizando actos oficiais para fazer propaganda partidária, o seu sucessor também já evidenciou que não terá qualquer pejo em lhe seguir o rasto, não tendo sido por acaso que procedeu à inauguração do novo quartel dos bombeiros na ilha do Porto Santo e das novas instalações de uma empresa sediada na Cancela, precisamente durante a campanha eleitoral que antecedeu as últimas eleições para a Assembleia da República. Não houve mais porque os tempos são de “vacas magras”.
Estranho seria que tivesse procedido de modo diferente. Ao fim e ao cabo, o ADN partidário é o mesmo. A escola, a cartilha que lhes serviu de fonte, o chip em que foram formatados tem a marca do grande timoneiro que os catapultou para a vida político-partidária. Isto é, a “renovação” tem limites, mesmo que alguns, por terem tido acesso a um cargo ou a uma condecoração, possam já considerar que há uma grande mudança. Confundindo de algum modo a árvore com a floresta.
Prova disso mesmo é o comportamento adoptado pelo novel governo relativamente à decisão judicial que condenou o governo regional num processo intentado por uma lista candidata ao conselho directivo da Escola Secundária Francisco Franco ou ainda no que se refere às verbas do IRS das Autarquias Locais, em que o simples facto do ex-edil ter mudado de lugar foi suficiente para mudar de opinião.
Por outro lado, os seis meses de existência têm sido já férteis em trapalhadas. Em decisões que se anunciam, que depois se corrigem, mas que continuam a suscitar reparos pertinentes.
É o caso, por exemplo, do diploma sobre as viagens aéreas que, mesmo depois da recente alteração introduzida no respeitante ao respectivo reembolso, está longe de gerar consenso, tanto mais que nos Açores a solução encontrada não colocou limites nos preços a praticar e nas garantias de reembolso.
Pior ainda é o folhetim à volta da nova (?) escola básica e secundária na ilha do Porto Santo, em que o governo tem falado a várias vozes, sendo por isso legítimo que se questione se no final haverá ou não uma nova escola de raiz ou a actual objecto apenas de reparações, tando mais que é duvidoso que, no local onde a mesma presentemente funciona, possa ser edificada uma nova, conforme avançou o presidente do executivo regional, sem pôr em causa o respectivo funcionamento.
O mesmo se deve dizer do processo do novo hospital, em que continuam a emergir informações contraditórias, o que indicia que a questão não se limita a um problema de financiamento, face até aos diversos interesses em presença.
Finalmente, e no que diz respeito ao transporte marítimo de carga e passageiros, até agora, tudo se pode resumir a muita propaganda e a nada de concreto. Muito à imagem, registe-se, do que foi o anterior exercício governativo do ex-edil do Funchal.
P.S.: A argumentação usada pelo ainda Presidente da República para ostracizar a participação do BE e do PCP num eventual governo da República não deixa margem para dúvidas sobre a falta de cultura democrática do inquilino de Belém. Ao fim e ao cabo, se pudesse o homem de Boliqueime proibiria a existência de tais partidos, remetia-os para a clandestinidade, como o ditador de Santa Comba Dão fez no designado “Estado Novo”.
O sr. Silva teve até a lata de não só fazer um apelo à dissidência partidária, mas também de convidar os mercados a reagir, se um tal crime de lesa pátria vier a ocorrer. E ainda proclama defender os superiores interesses do país.
Foram dois mandatos para esquecer. Ficará para a história como o pior presidente da República do pós 25 de Abril de 1974. Ao nível do general Spínola de triste memória. Uma nódoa, uma vergonha.

*Texto escrito, por opção, de acordo com a antiga ortografia.


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