Vanda Teixeira recorda o marido e ator: “Fui a mulher da vida dele!”

vanda teixeiraRui Marote (Fotos)

Era uma miúda quando conheceu um dos homens mais charmosos da época. Ator, bem-parecido, com carreira firmada na Europa e em Hollywood, Virgílio Teixeira fazia suspirar as fãs do grande ecrã. Mas foi precisamente a personalidade “anti estrela” que cativou Vanda, 25 anos mais nova.

Atualmente, a viúva do ator madeirense mais internacional do seu tempo reconhece que foi necessária muita coragem para enfrentar preconceitos e os riscos de partilhar o companheiro com o brilho do estrelato.

Virgílio Teixeira morreu há cinco anos, deixando na vida de Vanda uma ausência difícil de colmatar. Foi toda uma existência intensa, entre o ensino, a família e a carreira do ator, esta bem presente e marcante durante os primeiros anos de casamento em que Virgílio Teixeira se dividia entre Portugal, os Estados Unidos e Espanha.

Aposentada há já vários anos, Vanda Teixeira preenche os seus dias entre os afazeres da casa, as saídas com os amigos e as atividades no sindicato dos Professores da Madeira. O círculo de literatura e as aulas de educação postural ajudam-na a gerir as saudades do filho, em missão da ONU em Myanmar, antiga Birmânia, e dos dois netos que, embora a residir na Madeira, nem sempre conseguem estar com a avó devido às suas rotinas.

Contrariar o silêncio

A aposentação e a viuvez mudaram-lhe a vida. Aos 73 anos, reconhece que esta nova etapa, embora menos stressante, traz com ela novos desafios e perigos. “O principal é quando nos acomodamos ao silêncio e perdemos a capacidade de manter o nosso círculo social e o diálogo com os outros”, sublinha. “É muito fácil alguém que se aposenta perder capacidades de interação, porque de facto passamos muitas horas sozinhos”.

Então, qual é a sua estratégia para contornar essa situação? “Todos os dias, o meu objetivo é sentir-me viva, não me tornar dependente. Mesmo que me custe, tento cumprir com as rotinas e integrar os meus círculos de amigos. Tomamos chá, falamos, discutimos assuntos. Isso ajuda a manter a mente ginasticada”.

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Paixão pelas viagens

Outro dos hábitos que mantém é sair regulamente da Região para férias. Acostumada às viagens, na companhia do marido, Vanda continua a cumprir este ritual, aventurando-se em novos destinos e na companhia de outras pessoas. Acabada de chegar da China, onde este esteve cerca de 13 dias, conta como decidiu pela primeira vez partir sozinha, integrando um grupo de professores reformados do Continente.

“Estava um pouco apreensiva por se tratar de uma viagem longa e a minha amiga não poder acompanhar-me. Mas acabou por ser muito agradável, conhecer novas pessoas que partilham os mesmos interesses”. Surpreendida com o ritmo de desenvolvimento do país – “Macau é um império do jogo” – e com a beleza de algumas regiões rurais, como Guilin, Vanda só lamenta o timing da viagem. “A nossa estadia coincidiu com uma série de feriados nacionais, pelo que o turismo interno nesses dias foi enorme. Então, tínhamos sempre imensa gente nos pontos turísticos mais emblemáticos, como a Muralha da China ou a Praça de Tiananmen. Tivemos de começar muito cedo para conseguir cumprir o programa”.

Optar pelo coração

Nada que a demova de voltar a partir. Aliás, foi esta paixão pelas viagens – o querer ganhar asas, como diz – que determinou o rumo da vida de Vanda Teixeira. Desde cedo, acalentou o sonho de ser hospedeira de bordo, a profissão que lhe garantia cumprir essa vontade de conhecer mundo. Assim que terminou o liceu, rumou para Lisboa onde se licenciou em Filologia Germânica.

Mas, eis que o destino lhe muda as voltas, assim que termina o curso. Já de regresso à Madeira, conhece Virgílio Teixeira numa festa particular. A atração entre os dois foi imediata e quase um ano depois estavam casados. “Quando o conheci, tinha já o formulário pronto a ser entregue na companhia aérea brasileira Varig, mas o casamento com o Virgílio fez-me optar pelo coração. E a docência foi o resultado natural dessa escolha, porque me permitia conciliar carreira e família e, no fundo, realizar aquele gosto de estar em contacto com pessoas diferentes”.

Dos tempos de professora de Inglês em várias escolas do Funchal, entre elas a Escola Industrial – onde iniciou a carreira em 1967 -, guarda memórias gratificantes. Sobretudo da cumplicidade e da aprendizagem mútua com os mais novos. “Ser docente é um desafio constante. Não pode haver tempos mortos nas aulas. Há que preparar bem as atividades, mas também saber improvisar e manter-se alerta. É dessa adrenalina que sinto falta”, conta.

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Virgílio, o “anti estrela”

Mas é sobretudo como companheira do ator e mãe do único filho do casal que Vanda Teixeira realizou o grande papel da sua vida. Esteve sempre ao seu lado, durante 43 anos de casamento, até ao dia do seu falecimento, a 5 de dezembro de 2010.

Recorda que esta união reunia à partida todos os ingredientes para não dar certo. Quando conheceu Virgílio Teixeira, tinha ela 24 e ele 49 anos. Uma grande diferença de idades, experiências e mundos. O ator somava dois casamentos anteriores com senhoras estrangeiras, três filhos, uma vida intensa à luz da ribalta, cheia de glamour, e alguns casos amorosos com mulheres do mundo do cinema e da moda. O galã conhecia a fama, contracenara com os maiores vultos do cinema europeu e de Hollywood e movimentava-se como um peixe dentro de água no grande ecrã. Mas, para a jovem madeirense nascida e criada na Rua Conde Carvalhal, o que a cativou foi precisamente a personalidade “anti estrela” de Virgílio Teixeira. “Achei-o bonito, é um facto, mas extremamente simpático, delicado e humilde, que não se punha em bicos dos pés”, recorda. “Por ser um homem mais maduro, tratava-me com deferência e cavalheirismo, algo que não encontrava nos homens mais novos. Isso foi essencial”.

Relação reprovada

Se a relação foi assumida totalmente pelo casal, o mesmo não aconteceu com a família de Vanda. “A minha mãe teve um grande desgosto. Não aceitou que eu casasse com um homem divorciado e, ainda por cima, ator”, recorda.

Na sociedade madeirense de finais dos anos 60, os olhares eram também de reprovação. “ A Madeira era muito fechada, até nas mentalidades. As pessoas metiam-se comigo na rua, criticando a minha opção. Cheguei a ser alertada para comentários de colegas que temiam as repercussões do meu casamento na imagem da escola onde lecionava. O episódio mais marcante foi entrarmos, um dia, numa festa no Reid’s, e as pessoas calarem-se. Foi preciso muita coragem para lutar por este amor”.

Os anos seguintes trouxeram a revolução e a sociedade foi mudando ao ponto de esquecer ressentimentos. Também para Vanda, a residir nesta pequena ilha, partilhar o mundo fascinante de Virgílio Teixeira abriu-lhe novos horizontes e desafios. “Conheci lugares e pessoas interessantes, como Sean Connery, Peter O’Toole e Ferdy Mayne, com quem mantivemos amizade até ao seu falecimento. O cinema permitia de facto uma vida intensa, mas difícil na gestão de uma família. Nem sempre pude acompanhá-lo nas deslocações ao estrangeiro. Tive de adaptar-me às viagens constantes, mas sabia que era aqui na Madeira onde ele queria estar. E voltava sempre”, diz, com um sorriso.

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Confiança e cumplicidade

Antes de casar, aquilo que Vanda conhecia sobre o mundo do cinema era apenas a parte agradável. Depressa percebeu que o brilho e o estrelato acarretam riscos e pressão sobre a vida das pessoas. Aprendeu então que o segredo da relação passaria pela total confiança e cumplicidade, mesmo quando no ecrã as cenas se tornavam mais românticas. A questão surge: Chegou a ter ciúmes ao ver o seu marido beijar uma colega de trabalho? Vanda não vacila. “Nunca, o ciúme é provocado pela insegurança e nós éramos os dois pessoas muito seguras”, explica. “Depois, senti-me sempre muito amada. Ele gostava muito de mim e demonstrava-o. Modéstia à parte, fui a mulher da vida dele. Olhe, consegui chegar-lhe ao coração” (ri-se).

Este sentimento estendeu-se igualmente às ex-esposas de Virgílio Teixeira, com quem Vanda sempre se deu cordialmente. Ainda hoje mantém contacto com os filhos desses anteriores casamentos, a residir no estrangeiro. Vanda reconhece que a sua família era pouco convencional. “O primeiro filho do Virgílio é mais velho do que eu cinco anos e o nosso filho Pedro tem 47, o que não deixa de ser interessante porque eu tinha de gerir duas gerações separadas por 50 anos”.

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Compensar os filhos

Virgílio Teixeira conquistou um lugar ímpar como um dos protagonistas de maior sucesso do cinema português dos anos 40/50. Contracenou com grandes nomes, como Amália Rodrigues. Na década seguinte, muda-se para Hollywood onde participa em várias superproduções – ‘Doutor Jivago’, ‘A queda do império romano’ e ‘O regresso dos sete magníficos” -, esta última ao lado de Yul Brynner. Na sua prolífica carreira, contam-se 92 produções, 150 programas de televisão e duas peças de teatro em Portugal, Espanha e Estados Unidos. ‘As memórias que nunca se apagam’, rodado na Madeira em 2009, foi o seu último trabalho à frente das câmaras.

Se fosse vivo completaria na próxima segunda-feira 98 anos. O último dos galãs portugueses era também um cavalheiro. Formado na requintada escola dos filmes glamorosos, o ator não recebia com agrado as novas tendências da sétima arte. “A violência, o vocabulário obsceno, a vulgaridade e a perda de valores chocavam-no muito”.

À beira de mais um aniversário, a esposa recorda como a religiosidade lhe aconchegou os últimos anos. A aproximação aos filhos, relativamente aos quais mostrava grande preocupação e complexos de culpa pelas ausências durante o crescimento, e a noção de como era contraditório em muitos aspetos da sua vida foram questões prementes na fase de maior recolhimento. Vanda não faz balanços. Neste filme, que foi a vida de Virgílio Teixeira, ela acredita que o pano se fechou com um final feliz. “Antes de partir, ele tentou compensar os que amava”.