O mundo à distância de um bilhete

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Rui Marote, em Kiev (Ucrânia) – Texto e fotos

Bom dia, Boa Tarde ou Boa Noite, consoante a hora a que vos chega esta crónica de uma viagem pela Europa Oriental. Durante as próximas semanas, os leitores do Funchal Notícias e os amantes das viagens são convidados a acompanhar os meus relatos da passagem por três países: a Ucrânia, a Arménia e a Moldávia.

Sinceramente, aconselho as pessoas a nunca viajarem no Verão, e por três boas razões: a primeira é a de que na época baixa os preços são acessíveis, a segunda, e não menos importante, é a de que os movimento nos aeroportos e hotéis é reduzido, e as tarifas convidativas; e a terceira é pessoal, e talvez partilhada por alguns de vós: adoro o frio e a neve, os cenários são outros.

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Uma razão pela qual muitos viajam a terras distantes, principalmente os jovens, é porque estão de alguma forma insatisfeitos com o seu país, cultura ou religião, e buscam soluções ou respostas em outro lugar.

Verdadeiramente, muitos estão correndo de uma parte para outra, exactamente como a religião católica diz que aconteceria no “tempo do fim”… Mas não há dúvida de que viajar enriquece a alma, mesmo empobrecendo os bolsos temporariamente.

Realmente gastamos dinheiro, mas ganhamos conhecimento, cujo valor é inestimável. Renovamos energias, interagimos com o mundo, saboreamos novas gastronomias, conhecemos novas culturas e voltamos sempre melhores do que fomos.

Viajar é buscar, sentir, procurar entender, conhecer, surpreender-se, descobrir, saborear, divertir-se, fotografar, imortalizar, sorrir, viver…

Ultimamente, os ilhéus têm sido intensivamente confrontados com a palavra “mobilidade”.

As novas tarifas aéreas podem ser convidativas para açoreanos e madeirenses, mas estão envolvidas numa burocracia tal que afugentam que se quer deslocar ao ‘rectângulo nacional”. Pessoalmente, apelidei o acordo conseguido de “presente envenenado”. O tempo o dirá…

Vou divulgar o custo da minha viagem a Kiev, Ucrânia: na companhia aérea Lufthansa, parceiro da Star Alliance, a viagem Lisboa-Frankfurt-Kiev-Munique-Lisboa cifra-se em 258.70 euros, incluindo as taxas. É matéria para os meus amigos desenvolverem até ao final do ano em curso… Especialmente em comparação com as tarifas de viagem para o continente.

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Por todo o lado há referências à resistência contra o regime do presidente deposto

Estou já em Kiev, instalado num hotel no coração da capital, próximo da Praça da Independência, o principal local de reunião da cidade.

Desde o movimento de independência da Ucrânia, em 1990, a Praça tem sido, tradicionalmente, o local para manifestações de carácter político. O nome actual foi adoptado em 1991, após a declaração de independência da Ucrânia, quando este país finalmente conseguiu separar-se da então moribunda União Soviética… Uma vitória para os nacionalistas.

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A população ainda hoje chora os seus mortos na contestação recente que tanto deu que falar

No decurso da história, esta praça já teve muitos nomes: em 1869 chamava-se Praça Khreshchatyh, em 1876 Praça da Duma, em 1919 Praça Soviética, em 1935 Praça Kalinin, em 1941 Praça do Conselho (Parlamento), em 1943 de novo Praça Kalinin, em 1977 Praça da Revolução de Outubro, e finalmente em 1991 adoptou finalmente a denominação actual… Ufa… É muito nome!

Kiev é uma das cidades mais antigas e importantes da Europa Oriental. Tem desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da civilização eslava, bem como na moderna nação ucraniana.

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O povo não esquece as suas referências contestatárias

Foi fundada no séc V pelos eslavos orientais. Durante os séculos XVIII e XIX foi dominada pelas autoridades militares e eclesiásticas russas. Durante a Revolução Industrial Russa, foi um importante centro comercial do império russo, na exportação de açúcar e de cereais.

A primeira linha de eléctrico do império russo foi implantada em Kiev. Esta tornou-se a terceira cidade mais importante do império e o principal centro comercial. No período turbulento após a Revolução Russa de 1917, Kiev tornou-se a capital de vários estados ucranianos de curta duração, e foi apanhada no meio de vários conflitos: a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Russa e a Guerra Polaco-Soviética. Mudou de mãos nada menos do que dezasseis vezes, até Agosto de 1920.

A partir de 1921, a cidade passou a fazer parte da República Socialista Soviética da Ucrânia. Na Segunda Guerra Mundial, voltou a sofrer danos significativos, mas recuperou rapidamente.

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O presidente russo, Vladimir Putin, não é propriamente apreciado pela maioria das pessoas em Kiev…

Terrível foi também o catastrófico acidente na central nuclear de Chernobyl, a apenas 100 km a norte da cidade.

No entanto, os ventos predominantes sopraram os detritos radioactivos mais substanciais para longe. Uma benesse para os habitantes da urbe.

Mais tarde, na esteira do colapso da URSS, Kiev recuperaria todo o seu significado nacionalista.

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Ainda são visíveis em locais públicos memoriais construídos com capacetes e máscaras antigás

No final de 2004 e início de 2005, aqui ocorreu a Revolução Laranja, em resposta às alegações de fraude eleitoral a favor de Viktor Yankovych, na eleição presidencial de 21 de Novembro de 2004.

Os protestos iniciaram-se no dia seguinte: centenas de milhares de ucranianos fizeram manifestações diárias na Praça da Independência de que já vos falei. Militantes e simpatizantes de Viktor Yuschchenko, o candidato derrotado da oposição, convocaram uma greve geral e ficaram acampados a tempo integral na Praça.

Os resultados eleitorais foram anulados e uma segunda eleição foi ordenada pelo Supremo Tribunal da Ucrânia. A Revolução Laranja teve pleno êxito, e em 23 de Janeiro de 2005 Yushchenko foi declarado vencedor com 52% dos votos.

Geograficamente, Kiev pertence à zona ecológica da Polésia, uma das maiores áreas pantanosas da Europa. Está localizada em ambos os lados do rio Dnieper, que corre para Sul, através da cidade, em direcção ao mar negro.

As ruas ao redor da Praça, com os seus oratórios
As ruas ao redor da Praça, com os seus oratórios

Mais recentemente, a cidade foi palco da enorme contestação à influência soviética no país, como é sabido. Foram enormes as manifestações e os combates nas ruas, contra o regime do deposto presidente Yanukovich, aliado dos russos. A maioria da população pretendia uma maior aproximação à União Europeia, mas Yanukovich estava contra.

O Euromaidan, assim se chama este movimento que buscou uma aproximação á Europa ocidental, e prossegue até hoje. O Parlamento da Ucrânia destituiu Yanukovych em Fevereiro de 2004. Os resultados da eleição subsequente elegeram Petro Poroshenko.

Aos que tombaram na Praça os tijolos servem-lhes de pedestal
Aos que tombaram na Praça os tijolos servem-lhes de pedestal

Porém, começou aí a secessão na Crimeia, que tem uma ampla população russófona. Putin enviou tropas que tomaram posse da Crimeia para a Federação Russa e multiplicaram-se as milícias em outros locais como Donetsk ou Lugansk. Um pacto estabelecido em 2014 busca uma nova estabilidade para a Ucrânia, em troca do desarmamento das milícias e de maior autonomia para certas regiões do país. Mas os sentimentos antagónicos entre nacionalistas ucranianos e cidadãos pró-russos ainda estão à flor da pele.