Mariza encanta mas organização deixa a desejar

FullSizeRender
A paixão pela fadista levou a multidão ao Parque de Santa Catarina que esperou pacientemente na fila para entrar. Fotos DR

O concerto da fadista Mariza teve casa cheia no Parque de Santa Catarina, o que mostra bem a adesão que esta conceituada cantora tem junto do público.

FullSizeRenderMas nem tudo correu bem. A empresa que organizou o espetáculo – no local foi dito ao FN que dava pelo nome de “Homens do Ar” – descurou alguns aspetos que precisam de ser limados noutros eventos. Desde logo, diferentes critérios para receber um público, num espaço historicamente público, e no âmbito das comemorações do Dia da Cidade. Digamos que o público foi como que segmentado por classes, à velha maneira feudal. A segurança “Anthea” tinha ordens para deixar passar para as primeiríssimas filas VIP ilustres figuras desta praça, empresários, políticos e outras figuras públicas, da direita à esquerda política, de bilhete na mão e com passagem muito franqueada, mesmo chegando pelas 22 horas.

Depois, os lugares sentados a 25 euros, que também recebeu uma série de figuras bem conhecidas desta praça, bem como anónimos que levaram a família a ver a conceituada artista, também de bilhete na mão. Ao lado dos lugares sentados, havia muito espaço livre de relva, absolutamente vazio, sem que ninguém pudesse ocupar.

FullSizeRender
O público de pé viu muito espaço livre, além do reservado aos sentados, mas a organização não permitia a passagem.

Na parte mais traseira do Parque de Santa Catarina, estava o povo que mais encheu o recinto, com bilhete de 15 euros na mão ou oferecido, que era o triplo daquele que enchia os lugares à frente. E aqui a confusão era total: idosos,crianças e jovens esperavam e desesperavam pela cantora, com atuação agendada para as 21h30 mas a cantar pelas 22 horas. A organização subiu ao palco para pedir compreensão: “Há pessoas que são mais lentas…”, uma justificação que mereceu as vaias do público.

FullSizeRender
Um público estratificado: uns sentados, outros de pé. Como na bola, no peão e nas galerias. Com a diferença que é um espaço público e não privado.

Ainda à entrada do Parque, pelas 22 horas, dezenas e dezenas de cidadãos aguardavam por um bilhete para ver a Mariza. A segurança não tinha mãos a medir, pedindo para aguardar que ia resolver o problema, assegurando que todos iam entrar. Entretanto, a bonita voz da Mariza enchia já o recinto, arrancando os aplausos do auditório. Mesmo com os mosquitos a picar o público, todos resistiam para viver um momento musical de grande qualidade, com uma artista consagrada.

FullSizeRender
O “Sr. Gomes”, da organização, (de azul), foi muito solicitado. Jornalistas sem credencial, ainda que identificados, não podiam passar para a frente, nem para tirar fotos do palco.

O Sr Gomes, um dos principais elementos da organização, deixava claro: este evento não é organizado pela Câmara Municipal do Funchal mas por uma empresa privada “Homens do Ar”, que define as regras há muito tempo”. Pergunta-se: Terá este promotor pago o acesso ao Parque de Santa Catarina à Câmara, esta que lhe comprou 30 mil euros de bilhetes para oferecer?

Curioso foi ainda verificar que as cancelas bloqueavam o acesso dos cidadãos a inúmeros espaços livres do jardim, com boa visibilidade para o espetáculo e sem sequer fazer concorrência aos lugares sentados. Mas a segurança tinha ordens para não permitir o acesso a esses pequenos jardins que ladeavam o palco. Ouviu-se, a dada altura, que as barreiras vinham abaixo, caso a passagem não fosse autorizada, mas o povo, de brandos costumes, cumpriu as regras, entre um copo de cerveja e as músicas nostálgicas de Mariza.

É certo que haverá vozes a lamentar as críticas de um público, com os rótulos de provincianismo, já que em todos os espetáculos, há bilhetes a custo variado e com regras apertadas em nome da boa convivência e do bom espetáculo. Mas o enquadramento deste concerto tinha por pano de fundo as comemorações do Dia da Cidade do Funchal, num jardim público.