Rómulo Neves envia postal de Angola: sede de saber e escolas com carências

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Foto Rómulo Neves

Rómulo Neves é professor e formador na Madeira. Grande parte da sua atividade é também dedicada à inclusão escolar de alunos com necessidades educativas especiais. É este objetivo que também o leva a viajar pelo mundo para participar em eventos sobre essa temática e partilhar experiências. Desta vez, o destino foi Angola, um país tão familiar a muitos portugueses mas distante.

Rómulo Neves, a pedido do FN, enviou-nos o seu postal de Angola para partilhar com os nossos utilizadores esta experiência:

“Quando recebi o convite para falar da inclusão de alunos com necessidades educativas especiais em Angola, assumi de imediato o desafio! Contudo, à medida que a data de partida se aproximava e as pesquisas sobre o destino se intensificavam, os receios de um longínquo e desconhecido lugar começaram a preocupar-nos…

Tudo começa com uma consulta do viajante onde somos informados para uma realidade que não estamos habituados… Os mosquitos, a febre amarela, o dengue, o paludismo, as diarreias, os cuidados necessários com a água… logo a seguir, sentimo-nos impulsionados a confirmar tudo na Internet e as pesquisas acrescentam a falta de água e de luz, a insegurança, os contrastes, a corrupção, a pobreza, as consequências de uma guerra demasiado longa…

Seria verdade? Tantos milhares de portugueses têm partido em busca de melhores oportunidades para Angola, logo, como é possível encontrar um futuro melhor num país assim? E se existem todas estas necessidades no país, fará sentido falar de inclusão nas escolas? Sim, com uma taxa de analfabetismo tão elevada, com uma escola que ainda não é para todos, com um abandono escolar preocupante, o que iria eu lá fazer?

Mas a curiosidade por sentir África, por perceber o que significa a expressão “África tem uma magia inexplicável, que não se vê, mas que, definitivamente, se sente!” justificavam a viagem e, a partir de Luanda, partilhamos este testemunho.

Os preparativos eram simples. Comprar um bilhete de avião (direto a partir de Lisboa e com horários simpáticos), tomar as precauções necessárias ligadas à saúde, tratar do visto. A consulta do viajante (Centro de Saúde do Bom Jesus) foi excelente, muito informativa sem ser alarmante, clara, orientadora, mas a vacina para a febre amarela estava esgotada na RAM! Primeiro obstáculo que apesar de se ter resolvido a tempo, a verdade é que causou ansiedade… O visto, processo burocrático e moroso obriga o viajante a deslocar-se, pessoalmente e em data indicada pelo Consulado (sem alternativa de escolha), a Lisboa apenas para recolher dados biométricos…

Mas com otimismo conseguiram-se reunir todas as condições necessárias à viagem.

Chegou o dia da partida. O que me esperaria lá? Seria verdade o que li? E aquelas imagens que pesquisei seriam um espelho da realidade? E a minha mala, chegaria ao seu destino? Será que me iriam pedir a ‘gasosa’ (pedido de dinheiro) para me deixar entrar no país?

Pois, à medida que nos aproximamos da pista de aterragem vemos as mesmas imagens da Internet. Bairros de lata sem fim, com um aspeto decadente, pobre, sujo. As imagens são mesmo verdade. Por outro lado, a chegada decorreu sem qualquer problema, sendo exatamente igual a qualquer outro aeroporto do mundo. Mas cá fora os contrastes evidenciam-se e impõem-se ao visitante.

Encontrámos um trânsito louco, filas intermináveis de carros, pobreza extrema, milhões de pessoas que vendem tudo em todo o lado (desde as filas de trânsito até à entrada dos seus musseques (bairros), crianças ainda descalças a brincar no meio do lixo que existe em toda a cidade em grandes quantidades… Ao mesmo tempo, muitos e bons carros, de alta cilindrada e de vidros escuros parados nas filas de trânsito.

Luanda é uma cidade bonita, com uma baía deslumbrante, uma ‘ilha’ ternurenta, com serviços muito luxuosos, mas com graves problemas de limpeza, de trânsito, de pobreza. O contraste é de tal forma indescritível que nem parece verdade que não exista água potável, nem tão pouco eletricidade para a grande maioria da população. Mas Luanda é uma das cidades mais caras do mundo, com uma oferta de luxo, de bens exorbitantes e com um grupo de pessoas que consegue pagar! A um europeu, habituado a assumir um conjunto de possibilidades como certezas, é uma realidade, no mínimo, estranha…

Ao invés, sentimos a alegria do povo, a autenticidade das coisas, as cores, os cheiros, os sabores. A música que nos encanta e a relatividade com que se lida com o amanhã, pois o que de facto interessa é viver hoje! Falta-lhes tanta coisa, mas o que importa é o que eles têm e para o angolano a maior riqueza são os seus filhos! Talvez nos faça falta vivenciar esta experiência para encararmos a nossa vida com outro olhar… um olhar mais modesto, mais agradecido, mais sentido!

E as escolas? A escola angolana funciona de Fevereiro a Novembro (agora estamos no inverno aqui, ou melhor no ‘cacimbo’ como se diz) e é uma escola com uma qualidade muito questionável, onde faltam mais coisas do que aquelas que se têm. No entanto, aqueles que conseguem lugar na escola, aproveitam-na, pois a educação aqui é um benefício e não um direito! As crianças e alunos têm sede do saber e tão poucas possibilidades de aceder a esse conhecimento que, novamente, nos faz pensar e questionar a nossa realidade.

O país tem vindo a evoluir muito e em muitas direções. Não sei se ao ritmo das necessidades, mas certamente que tem evoluído e que ainda há muito a fazer. Mas um percurso de 1000 kms, começa com um passo e sim esse está a ser dado!

As escolas particulares, inacessíveis à maioria da população são diferentes. Destinam-se a uma franja da sociedade e apraz-me referir que das escolas mais conceituadas de Luanda se destaca a EPL – Escola Portuguesa de Luanda! Uma escola com cerca de 2500 alunos, muitos de origem portuguesa e muitos docentes deslocados de Portugal. Ora porque a vida os trouxe até aqui, ora porque o destino os empurrou até aqui. Mas a motivação, o empenho, o sorriso, os braços abertos recordam-nos a razão da nossa visita! Queremos uma escola com ainda mais qualidade, inclusiva, que dê uma resposta a todos os alunos quaisquer que sejam as suas características, que garanta o acesso, as oportunidades que todas as crianças têm direito.

Cheguei com tantas incertezas e inseguranças e saio daqui com tantas certezas. A certeza de que a felicidade é tão mais simples do que eu achava, de que os professores são, indubitavelmente, os atores principais na mudança e crescimento das sociedades, de que a Escola tem de ser para todos e é o local privilegiado para a inclusão, de que a educação de um povo tem de ser o pilar de qualquer governo.

E se é verdade que os problemas inicialmente referidos têm um grande fundo de verdade, não é menos verdade de que existe uma magia especial em África! Algo que se sente cá dentro, que nos preenche e, ainda sem termos partido, já nos faz sentir saudades…”