Quando o desemprego faz regressar pais e avós à escola

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De volta aos livros e às salas de aula. Uma forma de melhorar qualificações.

Cedo abandonaram a escola para trabalhar. Muitos anos depois, já com filhos e netos, o desemprego fá-los regressar às aulas. Estão prestes a terminar o 2º Ciclo na Escola Básica dos Louros, um estabelecimento que tem pela primeira vez a funcionar uma turma de Educação e Formação de Adultos (EFA).

Zeza, Humberto, Mário e Tânia fazem parte dos 2.404 alunos que este ano se inscreveram nos cursos de Educação e Formação de Adultos, na Madeira. Têm em comum o facto de, só recentemente, terem voltado aos bancos de escola, após um longo período de afastamento. Abandonaram o ensino precocemente e, como muitos portugueses da sua geração, começaram cedo no mundo do trabalho e a formar família. Hoje, são mulheres e homens feitos, com anos de contribuições e filhos criados, mas a quem faltam as qualificações mínimas para fazer frente à grande competição laboral e à recessão económica.

Integram um grupo de 12 alunos, entre os 35 e os 56 anos, que se mantém decidido a terminar o 2º Ciclo e a conseguir assim a escolaridade obrigatória, patamar que se impõe na hora de se candidatar a um novo emprego.

A frequentar um curso de EFA de nível 1 (Tipo B2), na Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos dos Louros, no Funchal, estes alunos partilham da mesma situação: desemprego e baixas qualificações. Encontram-se inscritos no Instituto de Emprego da Madeira, organismo que os encaminhou para o curso, a fim de melhorarem as suas condições de (re)inserção laboral.

O ano letivo iniciou-se com 15 elementos. Três, entretanto, regularizaram a sua situação profissional e tiveram de abandonar o curso que funciona em horário diurno.

Fomos encontrar a turma, uma destas manhãs, envolvida na aula de Matemática e de TIC. Para alguns dos participantes, o regresso aos livros e à sala de aula não foi pacífico nem isento de alguma resistência. Outros garantem ter sido uma oportunidade de reconquistar a confiança em si próprios e ganhar competências há muito perdidas. Comum a todos é a sensação de enriquecimento pessoal e de estreitar de amizades. Ao fim de poucos meses, as aprendizagens e a dinâmica não se limitam à sala de aula. O grupo reúne-se todos os sábados para cumprir um passatempo recém-descoberto: as caminhadas pelas serras e levadas.

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O curso EFA tem permitido a reconciliação com a escola.

“Sou capaz, agora nada é impossível”

Até há bem pouco tempo, Zeza não sabia sequer como ligar um computador. Os seus 48 anos de vida foram passados a trabalhar como doméstica e a cuidar dos filhos. Deixou a escola aos 14 anos, depois de muitas repetências e sofrimento. Casou aos 17 e a partir daí os estudos deixaram de estar nos seus horizontes. Ficou com a antiga quarta classe e muito ressentimento pelas más experiências que guarda dos seus tempos de infância. Sem pai para apoiar, Zeza teve como referência apenas a mãe, mulher pobre e analfabeta, a quem faltaram as competências para ajudá-la a ultrapassar as dificuldades. Mais do que a escassez de material escolar e vestuário – “nem sapatos tinha; ia para a escola de chinelos” –, magoam-lhe as memórias de rejeição por parte dos professores e colegas. Desde cedo, ficou com o rótulo de quem “não dava para a escola”. Marginalizada no fundo da sala, ignorada pelos professores, Zeza foi desmotivando e desistindo de aprender. No recreio, a insegurança e os “complexos” aumentavam com as situações de humilhação por parte dos colegas. “Só aprendi a ler aos 12 anos com o professor Nicolau. Ele não desistiu. Afinal, eu não era burra, apenas ninguém tinha puxado por mim, nem tinha apoio em casa.”

Só mais tarde, depois dos filhos criados e da separação do marido, Zeza percebeu que precisava de continuar com a sua educação. Havia tentado concorrer para trabalho em organismos oficiais e as portas fechavam-se sempre por causa do mesmo argumento: não possui a escolaridade obrigatória. Ainda tentou voltar à escola, mas a falta de bases e a insegurança condicionou. Finalmente, no ano passado, o Instituto de Emprego chamou-a para uma proposta de concluir o 2º Ciclo através do curso EFA. “Não hesitei”, conta. “Era a oportunidade que nunca tinha tido. Até agora a experiência tem sido muito boa. Sinto que o esforço destes últimos meses tem valido a pena”.

Confessa que a Matemática é a área que lhe coloca mais desafios. O Português e as aulas de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação) abriram, pelo contrário, novos horizontes e possibilidades de expressar emoções e sentimentos. As sessões de “Ioga do riso” e a língua inglesa mostraram a esta jovem avó que ir mais além é já uma opção. “É uma conquista. Mostra que sou capaz, que nada é impossível.”

Para Zeza, a experiência do curso EFA tem operado mudanças muito mais profundas. Sente-se uma pessoa diferente, “com uma atitude positiva e confiante”. Para além das amizades, conseguiu encontrar novos focos de interesse na sua vida: as caminhadas, o computador por onde agora navega, partilhando as suas receitas e a nova forma de ver o mundo. O acesso às redes sociais possibilitou criar novos laços de afinidade com os filhos mais novos e com os dois netos. “Aconselho-os a investirem na sua educação, para não repetirem os meus erros”.

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O curso devolveu o sorriso a alguns alunos, através de novos desafios e oportunidades.

“Ajuda a libertar a maldade e o sofrimento”

Tal como a sua colega Zeza, Humberto pretende continuar o curso EFA no próximo ano, já ao nível do 3º Ciclo, caso não lhe surja uma oportunidade de emprego. Tal como ela, partilha igualmente uma infância difícil. O divórcio dos pais e a separação da mãe em idade ainda muito jovem agravaram as suas dificuldades de adaptação e aprendizagem. Criado pela avó e pelo pai, foi desde cedo sinalizado como aluno com necessidades especiais, devidos aos problemas na articulação da fala e à sua grande timidez, apesar de ter sido atleta (basquetebol) e de “gostar de conhecer pessoas”. Frequentou a Quinta do Leme até aos 17 anos e aí aprendeu a arte da carpintaria. Quando saiu para trabalhar tinha apenas o 3º ano. “Vendo bem, acho que merecia a oportunidade de continuar os estudos numa escola normal”, lamenta. Mesmo assim, conseguiu trabalhar como ajudante de manutenção em algumas empresas de carpintaria e decoração. Com o desemprego, decidiu completar o 1º Ciclo e frequentou as Novas Oportunidades, em 2010, no centro de Formação do Pico dos Barcelos. Entretanto, a doença da mulher voltou a atrasar os seus planos e Humberto, de 37 anos, adiou uma vez mais o sonho de avançar nos estudos.

Só agora, na Escola dos Louros, experimenta uma nova etapa. Tal como os demais é muito assíduo e dá por si a sentir falta das aulas quando chega o fim de semana. “Isto tem sido maravilhoso”, revela. “Deu-me força interior e ajuda a libertar a maldade que temos cá dentro, acumulada por tanto sofrimento”.

Mais uma vez, a Matemática é a má da fita. “Não gosto, mas esforço-me”, sublinha, confessando-se um apaixonado pelas novas tecnologias. “Quero continuar a estudar; estou muito motivado”.

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A turma EFA dos Louros terá página na net para divulgar o grupo de caminhadas.

Descobrir novas paixões

Ao lado, Mário Abreu sorri enquanto ouve Humberto a enumerar os ganhos desta nova experiência. Apesar das reticências iniciais – “Vim obrigado, confesso” –, é atualmente a força motriz do grupo. O antigo bate-chapas e apaixonado por automóveis, de 56 anos, explica que veio a contragosto e só porque não quis perder a prestação do desemprego. “Estou a pouco tempo de me reformar e não vou deitar tudo a perder agora”, explica.

Passados os primeiros meses de curso EFA, faz um balanço positivo. Conseguiu criar laços de amizade e descobriu uma nova paixão na sua vida: a natureza. O seu espírito empreendedor, talhado por 43 anos de trabalho, 20 dos quais como empresário, conseguiu arrastar os restantes colegas nesta descoberta pelas levadas e montanhas da Madeira. Todos os sábados, lidera a turma em caminhadas que têm desafiado até os mais céticos. Atualmente, todos trabalham para dar corpo ao “Louros Montanha – Grupo de passeios”, um projeto que tem já adeptos e se prepara para divulgação na internet. A página está a ser construída no âmbito das aulas de TIC e Mário Abreu reconhece, com orgulho, que “tem sido uma surpresa sentir o gozo em partilhar conhecimentos e experiências” com os seus mais novos colegas.

Apesar dos resultados positivos, Mário revela que não vai passar à etapa seguinte. Diz que tem muito em que se ocupar, entre os carros, os biscates, o filho com trissomia 21 e um casal de tios idosos. “Logo que possa, meto a pré-reforma e ocupo o meu tempo com outras coisas porque tenho boas mãos. Não quero continuar a viver de prestações sociais. É só incerteza e humilhação”.

“É importante saber estar no lugar do outro”

Do lado oposto da faixa etária, está Tânia, de 35 anos, a mais jovem do grupo. É conhecida por ser a mais disposta do grupo. Logo que soube da proposta do IEM fez questão de trazer mais duas colegas consigo. “Sempre gostei de aprender. Ao longo da minha vida nunca estive parada e, por isso, o trabalho não me assusta. Sei fazer de tudo: costura, croché, arraiolos. Agora, gostava de aprender a técnica de pintura em tecido”, diz de forma desembaraçada. Nos últimos dez anos fez um pouco de tudo, desde limpezas numa creche a serviço doméstico, mas a falta de qualificação tornou-a no elo mais fraco sempre que as empresas se viam em dificuldades.

Mãe adolescente, Tânia abandonou os estudos muito cedo. O curso EFA veio agora reconciliá-la com a escola. “Tenho aprendido muito e feito novos amigos. Os professores colaboram imenso, tentam ajudar e estão sempre a nosso favor”.

Gosta principalmente de Português e de Aprender com Autonomia, disciplinas que lhe permitem dar corpo ao debate e ao confronto de ideias. “É importante saber estar no lugar do outro”, sintetiza.

É hoje uma mulher feliz junto do companheiro e três filhos. Para estar completamente realizada, falta-lhe apenas o emprego. “Pelo meu marido, eu nunca trabalharia, mas não me dou sem fazer nada. Além disso, o dinheiro faz falta”.

Logo que complete o 2º Ciclo, Tânia está esperançada em arranjar um emprego mais estável, pelo que não perspetiva a continuação dos estudos pelo menos no horário diurno. “Tenho de ficar com o que aparecer”.

A situação do país, contudo, continua a fazê-la desacreditar na promoção pela Educação. “No meu caso, a escolaridade obrigatória é fundamental. Acho que com a minha idade e devido à grande concorrência não vale a pena tirar um curso mais avançado”, opina, embora concorde com a obrigação da qualificação por parte de quem está a receber subsídio de desemprego.

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O curso funciona este ano no anexo à Travessa do Lazareto.

Escola aguarda programas de financiamento

A Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos dos Louros fez a estreia este ano nos cursos EFA, com formação Tipo B2 (nível 1), que permite reconhecimento das qualificação ao nível do 2º Ciclo. O curso está a funcionar no antigo anexo da Travessa do Lazareto e ministra as disciplinas de Língua e Comunicação Portuguesa e Inglesa, Matemática para a Vida, TIC, Programa de Competências Sociais, Cidadania e Empregabilidade, Aprender com Autonomia e Oficina das Artes (opcional), num total de 840 horas de formação.

Para o próximo ano letivo, o estabelecimento irá alargar a oferta formativa aos cursos de Tipo B1 (1º Ciclo) e B3 (3º Ciclo). Decorrem neste momento as pré-inscrições, estando as matrículas marcadas para o período de 2 a 30 de junho.

Gilberta Camacho, a diretora da Escola Básica dos Louros, manifestou satisfação pelos resultados obtidos com este primeiro grupo, tanto no aproveitamento, como na assiduidade. Com seis professores afetos ao projeto, os próximos cursos EFA aguardam a abertura de programas com vista a garantir financiamento adicionais. “Este ano, uma vez que não houve programas ou fundos disponíveis, tivemos de trabalhar em parceria com o Instituto de Emprego. Julgo que teremos a situação solucionada no próximo ano letivo para que possamos ajudar os formandos nos custos de transporte e alimentação, conforme está previsto na lei. Seria uma mais-valia sobretudo para os alunos”, explica.

Os dados da Secretaria Regional da Educação apontam para 2.404 alunos inscritos nos cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA), durante o presente ano letivo, num total de 138 turmas divididas pelos estabelecimentos de ensino da Região. Uma oferta educativa destinada, como o próprio nome indica, a pessoas com idade igual ou superior aos 18 anos e que pretendam complementar ou adquirir habilitações académicos e/ou competências profissionais com vista à melhoria das suas condições de empregabilidade.

A funcionar há já alguns anos, em muitas escolas da Região, os cursos EFA abrangem os três ciclos do ensino básico (B1, B2 e B3), assim como, o nível Secundário. De acordo com o percurso formativo definido, estes cursos podem conferir uma dupla certificação (escolar e profissional), uma certificação apenas escolar ou apenas profissional. Desde que concluído com aproveitamento, um curso EFA correspondente a um qualquer percurso formativo permitirá a obtenção de um certificado de qualificações. O acesso ao ensino superior é também possível através desta via, ao abrigo de condições especiais previstas para maiores de 23 anos.