Toca piano, cultiva rosas, gosta de jazz e chega a presidente do Governo

Miguel Albuquerque

Rosário Martins

 Miguel Albuquerque toma posse amanhã como o histórico sucessor de Alberto João Jardim na presidência do Governo Regional da Madeira. Um percurso que culmina em glória, após um delfinato bem disputado e azedo para suceder o homem que somava 37 anos de poder laranja na Madeira.

Os madeirenses guardam do novo presidente a imagem de marca de presidente da Câmara Municipal do Funchal, onde se destacou ao longo de três mandatos consecutivos. De trato fácil com os munícipes, aberto ao diálogo e às lisonjas do público sobretudo feminino e, com um poder de encaixe enorme quando outros adversários seus preferiam amuar, Albuquerque foi sempre levando a água ao seu moinho. A rutura entre o histórico presidente da Câmara do Funchal, Virgílio Pereira, e Jardim levou-o à presidência da maior autarquia na década de 90 e daí para cá foi a preparação nos bastidores da corrida à sucessão de Jardim.

PRESIDENCIA

A oposição que com ele travou inúmeros confrontos na Câmara não guarda boas recordações de Albuquerque: conhecia mal os dossiers, falava superficialmente e retoricamente dos assuntos e, tecnicamente falando, não primou pelo arrumar das contas da autarquia, antes as aumentou. Mas a boa figura foi galvanizando sempre simpatias, a que não era indiferente o chamado lobby da cultura, com quem Albuquerque tinha boas relações, dada a sua confessa paixão pelo piano, pelo jazz e por outras luzes da ribalta citadina.

ALBUQUERQUE 1

Como é da praxe, licenciou-se em Direito e chegou a ter escritório aberto. Mas trilhou o caminho da política, naturalmente na asa da JSD, década de 80, quando chega a líder. Estava dado o pontapé de partida para o estrelato político. Líder da “jota” na Madeira, nos tempos em que o então Pedro Passos Coelho chefiava também a “jota” nacional. Uma cumplicidade que se mantém até hoje e que pode facilitar o tão defendido diálogo institucional entre a Madeira e o Estado, por oposição à artilharia apontada ao retângulo por Jardim.

Rapidamente se desligou do desgastante e minucioso mundo da advocacia para fazer a rodagem política. Depois, teve nos braços, em 1994,  a chefia da maior autarquia da Madeira e procurou trilhar um caminho semi-independente, ora comungando das ligações perigosas do jardinismo e dos seus negócios ora enfrentando alguns barões do partido.

Com três casamentos e uma farta prole, Albuquerque passou anos a enfrentar os dramas do poder local e a arejar a cabeça no roseiral da Quinta do Arco, onde assumia a sua paixão pela botânica, nomeadamente pelas rosas. Foram três mandatos consecutivos a tentar conciliar os interesses dos munícipes com os poderosos lobbies da Região. Como se não bastasse, a eterna novela dos delfins de Jardim, nomeadamente o fogo cruzado com outro delfim de peso, João Cunha e Silva. Albuquerque sabia que a simpatia o tornava um vencedor certo nas urnas, contrariamente aos seus adversários políticos que fizeram carreira com nomeações políticas de confiança.

Outra vertente pouco explorada de Albuquerque prende-se com a sua alegada simpatia pela causa monárquica, o que, para alguns dos seus críticos, bem pode constituir uma faceta de líder não muito dado aos braços e afagos típicos dos políticos carismáticos como era timbre do seu antecessor.

Quando decide enfrentar Jardim e marcar terreno no PSD, muitos consideraram que a estratégia de poder foi precoce e que a astúcia do então presidente se encarregaria de liquidar o filho rebelde. Mas Albuquerque arriscou e convenceu. Durante algum tempo ninguém o viu aparecer, após a derrota inicial contra Jardim. Viajou, abriu uma empresa, em parceria com Pedro Calado, de Consultoria. Preparou a conquista da Quinta Vigia. Acumulou experiência no estrangeiro para replicá-la na Madeira. E impôs-se como vencedor, derrotando os seus opositores, em particular o último adversário, Manuel António Correia.

Miguel (o mais pequeno) com o irmão Francisco
Miguel (o mais alto) com o irmão Francisco

Albuquerque tem agora o poder da Madeira nas mãos e vai ter que provar que a mudança não foi em vão e que não se gere um governo como quem toca piano. O estado de graça ainda agora começa mas o eleitorado vai depois querer ver serviço no terreno, bem diferente da liturgia da chamada Madeira Nova.