O Tolentino Nóbrega deixou-nos…

tolentinoO Tolentino Nóbrega deixou-nos esta madrugada após ter lutado contra aquele que foi o pior dos seus inimigos: a doença cruel, pungente e avassaladora.

Há umas semanas, tive conhecimento pela Elsa, sua mulher, do sofrimento do Tolentino e da luta titânica do próprio e da família para o salvar desta tempestade imprevisível. Assisti ao testemunho de Fé extraordinário da Elsa na cura do marido, a que humildemente me associei. Essas preces, Elsa, não foram em vão.

Conheci o Tolentino quando tinha 14 anos de idade. Natural de Machico, como eu, acabara de entrar no Diário de Notícias do Funchal, pela mão do então diretor Silvio Silva, e pude assistir à trajetória do jornalista, do artista e do professor de geometria na Escola Francisco Franco. Tinha muito amigos, cá e lá, mas também muitos inimigos porque ele nunca foi unanimista nem adulador calculista. Aliás, quem quiser arranjar inimigos, que enverede pelo jornalismo.

Lembro-me como se fosse hoje: eu, gaiata ainda, atrevi-me numa manhã, a sentar-me na sua secretária porque só voltaria de tarde. Quando, em plena manhã, antecipa a entrada na redação do DN, de mala curta debaixo do braço, com as últimas notícias colhidas no Café Apolo e de olhar esgazeado com que me mirava a ocupar o seu território. Não me livrei das piadas apimentadas e demolidoras com que tratava destas situações e espicaçava os estagiários. Mas também me ficou na mente uma lição de vida, quando certo dia me sussurrou, numa das muitas tempestades vividas na redação: “Rosário, quando o barulho é muito, deixa as moscas pousar. Não digas que não, vai dizendo que sim e depois logo vês…”

Outras vezes, encontrei-o nos bancos do Liceu, como encarregado de educação, com cuidados redobrados com um dos filhos. Sempre atento e vigilante, mas sereno às nortadas da vida, como se já lhe fossem banais.

Hoje, o meu abraço vai para a Elsa e filhos. Muitos dirão tanta coisa. Mas a Elsa dirá pouco e saberá preservar o pai dos filhos que nunca procurou agradar a todos porque os conhecia talvez bem a todos. O jornal Público perde um jornalista fiel e competente, o mundo do jornalismo fica ainda mais pobre do que já está, as artes também perdem com a criatividade extraordinária deste professor de geometria aposentado da Francisco Franco. Guardo aquele olhar impassível, destemido, conhecedor das almas humanas, das misérias e das virtudes, e fico com aquela sensação de que tudo isto é nada.

A equipa do Funchal Notícias expressa as suas condolências à família do Tolentino. Para ti, Tolentino, apenas um recado longe do barulho mundano e efémero: fica em Paz!