De mestre depreciado a ilustre falecido

imagem retirada de mubi.com
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Morreu Manoel de Oliveira. Em vida, sofreu sempre de um certo divórcio da grande maioria do povo português, pouco preparado para apreciar convenientemente as suas obras cinematográficas. Era aplaudido e alvo das maiores laudatórias em certos círculos de críticos, principalmente estrangeiros (da Europa Ocidental). Mas o público luso nunca se rendeu completamente à sua genialidade, propalada por alguns, e considerava muitos dos seus filmes verdadeiramente soporíferos,

Não estranhamente, agora que faleceu, com a provecta idade de 106 anos (mas não o aparentando minimamente, já que viveu toda a vida com a energia de um jovem), multiplicam-se as homenagens nas redes sociais, os lamentos de “grande perda” para a cultura portuguesa… e já há mesmo quem reclame para ele honras de Panteão Nacional.

A Manoel de Oliveira resta provavelmente ser amplamente reconhecido e saudado como génio em Portugal depois do seu passamento. Entre os círculos mais selectos de críticos europeus, há muito que o fora, sendo também o mais velho realizador do mundo em actividade.

Teve uma carreira multifacetada, gozando de uma posição social e financeira privilegiada que lhe permitiu dedicar-se a múltiplas actividades, entre elas o atletismo e as corridas de automóveis. O cinema veio-lhe de início como uma actividade algo diletante, mas cedo se tornou a paixão de uma vida.

Nos seus inúmeros filmes obteria colaborações de actores notáveis da cena internacional, como John Malkovich, Catherine Deneuve, Irene Papas ou Marcello Mastroianni, e de portugueses como Rogério Samora ou Leonor Silveira.

“O Velho do Restelo” foi o mais recente trabalho do realizador, que o caracterizou como “uma reflexão sobre a Humanidade” e os tempos hodiernos.

Manoel de Oliveira recebeu a Legião de Honra de França, em Dezembro último, quando celebrou o seu 106º  aniversário. Foi uma das últimas honrarias que recebeu este autor de mais de quatro dezenas de filmes, que presenciou a transição da Sétima Arte do mudo para o sonoro e do preto e branco para o colorido.

Classificava-se a si próprio de “lutador contra a morte”. Acabou por sucumbir, mas a obra continua.