Resposta a Carlos Nogueira Fino

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De Laura Moniz, uma das dirigentes da Associação de Escritores da Madeira, recebemos um texto que pretende servir de resposta a um artigo do nosso colaborador do painel de opinião Carlos Nogueira Fino, no qual este se referia à utilidade das associações de escritores. Abaixo transcrevemos a resposta.

Em resposta a Carlos Nogueira Fino – «A propósito da utilidade social e pública das primas-donas, tenores e afins…»

O Charco não deixa de existir por ser apedrejado. Têm mais pedrinhas? Com elas constroem-se casas. Obrigada pela opinião. Em tudo é preciso ter opinião e verdade. Fui também jovem, um dia, e deram-me de mãos beijadas, as oportunidades que quero dar a outros. Mais, há tantos que morreram inéditos e hoje há quem os leia sofregamente. Quem estudou teoria da literatura, ou leu um bocadinho, sabe que há um grande número de obras que antes de serem vistas como parte de um cânone literário, não eram nada. E algumas nem publicadas tinham sido.
Sim… a caravana passa. O comboio também. E a oportunidade de dar um voto silencioso também passou. Até breve, caro Carlos Nogueira Fino. Até posso ser maternal e falar maternalmente – sou mulher e não nego a minha biologia – comigo houve quem o fosse e não levei a mal, porque o gesto e a intenção eram puros e inocentes e isso mesmo: maternais ou paternais. Mas levo a mal boicotes ressabiados de quem fala do alto do pedestal de uma suposta impunidade, superioridade autoral e consciência de classe. Lamento, não sei que vida você teve – mas eu tive uma vida preenchida de oportunidades que me foram dadas na escola, em casa e em grupos – para mim todas as oportunidades são uma forma de aprender. Ninguém é célebre por ser célebre: ninguém nasce célebre, ninguém nasce ensinado e ninguém nasce informado. Porquê esta raiva flagrante da sua parte, Carlos Nogueira Fino, quando se fala da A.E.M.? Então não era melhor insurgires-te (insurgirem-se) com quem tira a vida e o sono e as oportunidades aos mais jovens? Esta nesga de terra que é a A.E.M. já foi ridicularizada, humilhada, dividida, lapidada, ostracizada e agora mais uma vez vejo quem do alto de um castelo de areia dá o exemplo pouco nobre do desdém.
Que tal falares da corrupção que vinga no país? Do desemprego? Queres parar de meteres-te nos sonhos de alguém e transformá-los em pesadelos?????? Porque a tua opinião é só a tua opinião e é veneno viperino. Trabalho sim… há muito para fazer… Toda a gente tem trabalho a fazer… Porque é que não vens dar uma mão em vez de morderes a mão a quem te devota respeito ou alguma consideração embora não estejas ao nível dos maiores nacionais e internacionais? Andamos todos a remar em direcção ao futuro – eu, tu, eles – esses jovens que queremos integrar na A.E.M. – e todos os que estão comigo(connosco) neste barco podemos muito bem contigo e com quem vier? Moralistas de serviço são o joio desta terra. Tu trabalhas para o teu umbigo – eu estou a trabalhar para a comunidade em que vivo. Tu trabalhas para a tua próxima publicação – eu trabalho para o meu próximo poema: bom ou mau, será o que for – e só o futuro dirá o que é, independentemente das definições de escritor ou de autor que tu me queiras citar? Tens alguma definição que seja tua? Que não passe por essa raiva de pseudo-vate? Ou as primas-donas não têm nada para ensinar a não ser a raiva e o desdém? Queres continuar esta conversa???? Posso continuá-la em qualquer altura. Mas acabaste de deseducar os filhos dos outros. Que pena. o teu grande ensinamento da semana é que basta um Dom Poeta enraivecido e envaidecido pela sua imagem no riacho, pelo auto-declarado epíteto de «alfa» para levar quem não sabe outra língua a não ser a das dores das articulações e da mesquinhez – que grassa muito nesta terra e além-mar – para deitar o pouco de bom que se quer fazer a perder.
Sabes – eu cá não quero que os filhos dos outros não saibam para onde ir. Gente como tu só serve para desorientá-los.
Então não conheces a história? Poetas, artistas, escritores sempre andaram de mão dadas. Em Portugal e Regiões Autónomas é que querem ser todos eremitas. Tem todos os tiques de quem leu todos os livros de etiqueta e todas as definições para saberem onde se situar.
Lamento imenso…. agradeço a tua verdade – agora dou-te a minha.

Laura Moniz