“Os eleitores têm sempre razão”

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Ao longo de quase quarenta e um anos de democracia, a política – quem a faz e a promove, e ainda bem – foi-se encarregando de fixar um certo jargão e um conjunto de frases feitas que, com utilidade para a técnica e para a fluência do discurso, o vão recheando, passam como originalidades e impõem-se como armas de mestria dos seus autores. É claro que, como se compreende, em muitas ocasiões, exageradas porventura, os bordões o sejam pura e simplesmente: sem significado, sem repercussão, sem eco. Uma dessas afirmações, recorríveis de resto, é a de que “os eleitores têm sempre razão”. Nada a opor, não fosse a circunstância de, como a História mostra, quantas vezes de forma clarividente e dramática, tal afirmação não corresponder à realidade. “Ter sempre razão” não é característica de que ninguém, individual ou colectivamente considerado, se possa orgulhar mas que surge como dificuldade intransponível quando, como na política, – e face à política -, os cidadãos se afastam, recusam, rejeitam, desconfiam, verberam e manifestam total indisponibilidade para a compreender e, muito menos, para dela fazerem parte. Uma decisão correcta, justa e que reflicta a defesa dos interesses individuais e colectivos dos cidadãos, deve – tem de – apoiar-se na preocupação de conhecer o que está em causa, as propostas em presença, as motivações dos seus autores e a capacidade que evidenciam, ou não, para levarem a bom porto tudo aquilo a que se propõem; esta postura tem um inconveniente: dá trabalho. E os eleitores, a quem é atribuída a perenidade e a fiabilidade da “razão”, presos nos seus quotidianos de outras e poderosas urgências, acabam a negligenciar as que resultam de uma cidadania curiosa, activa, reivindicativa, vigilante, exigente e potencialmente fecunda. Sabe-se bem que os caminhos escolhidos e trilhados por quem assumiu, e assume, a responsabilidade da propositura e da representação nas democracias, associados a uma informação cujo norte se desviou para as “tiragens”, “shares” e “audiências”, retiraram à política capacidade de sedução, de comprometimento e de entrega. Não se sabe, – ou sabe? -, da natureza involuntária, ou não, de tais procedimentos, mas reconhece-se, isso sim, que prejudicaram a saúde da democracia, contribuíram para afastar os cidadãos, fragilizaram as escolhas e, com todo um cortejo de consequências negativas, questionam diariamente, de forma visivelmente grave, o regime e tudo o que ele tem de positivo enquanto factor de partilha, de entreajuda e de orgulho colectivo. É cada vez mais premente que se regresse ao debate, às perguntas, ao envolvimento, à dúvida e à exigência. É imperioso que se assuma em plenitude a condição de cidadãos. A democracia reivindica-o sob pena de, se não for feito, se poder ser, um dia, severa e firmemente julgado por aqueles a quem, com passividade e negligência, foram fechadas as portas e condicionados futuros que eram tidos como assegurados e justos.

A cidadania, – quero acreditar -, colocará os eleitores com a capacidade de sempre terem razão.

 Post-scriptum

Se tudo decorrer de acordo com o previsto, em 29 de Março próximo, na Madeira e no Porto Santo, estarão em confronto dezassete forças políticas, dezassete!

A democracia é, por definição, o espaço em que cabem os democratas e tem, por nobreza de temperamento e comportamento, a tolerância suficiente para albergar no seu seio, até, aqueles que dela, da democracia, desconfiam, que com ela antipatizam ou que dela fazem mau uso. Portanto, se há, como parece haver, dezassete forças que, no espaço da política, entendem ter novidades e alternativas capazes de condicionar o comportamento do eleitorado, escolhendo-as, sejam bem-vindas à rua, à luz do dia, à liberdade, à democracia, à escolha.

Por razões que a experiência noutras latitudes vem ditando, deseja-se apenas que se privilegie a seriedade nos comportamentos, nos programas e nas mensagens e se procure nivelar por cima, evitando o tentador escorregar para um perverso facilitismo que acoita os adversários da democracia e da autonomia e que, a mais do que provável dispersão, – consultem-se números anteriores -, não perturbe o encontrar de soluções políticas que a todos interessam ao cabo de trinta e nove anos de orientação monocolor na Região Autónoma da Madeira.

Para o futuro, com inteligência e sentido de interesse público, talvez valha a pena reflectir sobre a lei eleitoral.