Quem foram as escritoras madeirenses do passado?

Livros

Laureano Macedo*

Quem foram as escritoras madeirenses do passado? Esta pergunta (entre outras que se farão ao longo do texto) poderá suscitar uma série de perplexidades. A primeira perplexidade consiste no facto de haver um desconhecimento quase generalizado sobre nomes como Viscondessa das Nogueiras, Maria do Monte de Santana e Vasconcelos, Berta de Ataíde, Joana de Castelbranco, Luzia e Cristina da Cunha entre centenas de nomes de autoras que foram romancistas, poetisas, dramaturgas, jornalistas, compositoras, artistas, viajantes, religiosas e cientistas, todas anteriores à segunda metade do século XX. A segunda perplexidade é que as histórias da literatura, os dicionários biográficos e catálogos bibliográficos, quase todos de âmbito nacionalista, nada dizem ao seu respeito e, quando as mencionam, mantêm um discurso de menorização sobre o seu contributo para a cultura a nível nacional. A terceira perplexidade – que considero pessoalmente mais importante – consiste em saber onde pára e o que fazer com este património.

Se alargarmos as mesmas questões para o âmbito da Macaronésia, sobre escritoras anteriores ao século XX, o desconhecimento é quase total.

À falta de obras abrangentes sobre o tema, surgiu (discretamente e sem pompas de apresentação) em 2013 uma edição eletrónica de autor na Amazon intitulada Da Voz à Pluma: Escritoras e património documental de autoria feminina de Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde: guia biobibliográfico (http://www. amazon.com/dp/B00ENPJS88), contendo 480 entradas e mais de 3200 referências bibliográficas. Este dicionário biobibliográfico reúne toda uma informação que se encontrava dispersa e inacessível. A maior parte das obras destas autoras não se encontra na biblioteca ou na livraria mais próxima do seu domicílio. O mesmo exercício pode ser feito na Internet, com igual insucesso. A solução foi simples: tive de peregrinar por várias bibliotecas e arquivos em Portugal e no estrangeiro, consultar muitos jornais do século XIX, material de arquivo, várias monografias e vários catálogos bibliográficos para encontrar uma referência, um indício, uma apostila, no meio de tantos nomes do sexo masculino, no ensejo de encontrar qualquer referência sobre as nossas escritoras insulares. A maior parte destas escritoras não foi suficientemente estudada pelos diversos centros de investigação universitários especializados em cultura e literatura.

E, no entanto, escreveram! Há um dito latino antigo muito conhecido: aut maritus aut murus (ou o casamento ou os muros do convento). Estes muros, que condicionaram muitas mulheres à condição de mãe, filha ou esposa, devendo ser hábil em fiar a lã e nos afazeres domésticos, não foram impeditivos de dominarem um outro tipo de cerzidura: a escrita. Se bem que as classes mais possidentes instruíam as suas filhas para o domínio básico da leitura, da escrita, da matemática, dos lavores femininos, das artes e o domínio de línguas estrangeiras, há casos excecionais dignos de nota. Quando consultei na Biblioteca da Ajuda uma obra manuscrita de cartas inéditas de uma autora madeirense totalmente desconhecida desde há quatrocentos anos, senti-me na obrigação de lhe dar voz: a serva de Deus, Maria da Encarnação (1613-ca. 1653). É provavelmente a referência mais remota que se conhece de uma mulher madeirense que sabia ler e escrever. As suas cartas dirigidas aos seus confessores traçam a sua autobiografia: ela era de baixa condição social, foi impedida de ser freira no convento de Santa Clara por ser mestiça e foi acusada de blasfémia. Maria da Encarnação conseguiu entrar no recolhimento de Santa Teresa, depois Convento de Nossa Senhora da Encarnação, com grande contestação social na época. A pedido desta religiosa mestiça, o fundador do Convento de Nossa Senhora da Encarnação transcreveu obras de Santa Teresa de Ávila para que ela pudesse ler, porque o acesso ao livro nas ilhas era muito difíicil. Muitas das cartas místicas desta religiosa madeirense contêm teor erótico, porque relatar a sua experiência mística implicava escrever sobre o seu corpo. Por que motivo esta obra permaneceu inédita e desconhecida durante tantos séculos? Talvez por ser uma obra subversiva.

Quando me dei conta desta descoberta, aprendi uma nova palavra: serendipidade. E esta palavra tem-me guiado na produção de cada entrada deste dicionário. Constam escritoras nascidas em cada um dos arquipélagos – incluindo as descendentes de estrangeiros-, que permaneceram no seu território nacional ou na diáspora, e integro escritoras estrangeiras que escreveram sobre a sua estada na(s) ilha(s), não esquecendo descendentes de madeirenses, açorianas, canarinas e cabo-verdianas.

Em cada entrada há sempre algo de excecional que a história silenciou. Entre as primeiras escritoras na Madeira, temos a presença de várias poetisas, como a misteriosa Lília Amada (sécs. XVIII-XIX). Temos, só no século XIX, a primeira romancista madeirense, Maria do Monte de Santana e Vasconcelos (1809-1884). Temos a celebrada Viscondessa das Nogueiras (1805-1888), que Bulhão Pato considerou que ela seria uma grande escritora se não vivesse na Madeira, e ainda assim publicou vários textos poéticos, um romance histórico, uma obra didática de ensino primário adotado em Portugal (a primeira de autoria feminina) e uma tradução para francês do romance Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano. Temos Carolina Matilde Esmeraldo (1806-1870) provavelmente a primeira tradutora a ter uma obra publicada no estrangeiro. Temos a faialense Joana de Castelbranco (1856-1920), a primeira poetisa madeirense a publicar em livro os seus textos poéticos, quando a maioria das poetisas tinha os seus textos ou manuscritos ou esparsos em jornais e almanaques. Temos Cristina da Cunha (1897-1850), oriunda do Seixal, a primeira mulher a doutorar-se em medicina em 1925 e que foi uma notável ativista dos direitos das mulheres, hoje esquecida. Temos uma Berta de Ataíde (1847-1928), que através dos seus Mosaicos, foi dinamizadora tanto na Madeira, como no continente e no Brasil na defesa e educação de mulheres socialmente desfavorecidas. Temos uma Mary Phelps (1820-1893), autora de diários escritos no Monte, ainda inéditos. Temos as primeiras dramaturgas, atrizes e compositoras como Carolina Dias de Almeida (1855-1895), Amélia Augusta de Azevedo (1840-1914), compositora premiada na Exposição Universal de Paris em 1889, e a pontassolense Eugénia Rego Pereira (1875-1947).

Do século XX, só para referir escritoras nascidas até 1939, sobressaem nomes como Irene Lucília Andrade, Ângela Varela, as irmãs Margarida Marques e Helena Marques, não esquecendo as que faleceram recentemente como Isaura dos Passos Jardim, Maria Aurora Carvalho Homem, Maria do Carmo Rodrigues, Ângela Caires e a arquivista Maria do Carmo Jasmins Dias Farinha. Há ainda a presença de açorianas na Madeira que deixaram uma importante herança literária, como Adelaide Sodré (1903-1980?), Maria da Trindade Mendonça (1916-1997), Bernardete Falcão e Maria Clara da Costa Pereira (1923-1923) ou de continentais como Maria Rita Chiappe Cadet, Mariana Xavier Silva Freire, Maria Lamas e Agustina Bessa-Luís. Temos, ainda, a presença de escritoras britânicas que viveram na Madeira, como as irmãs Margaret Emily Shore (1819- 1839), Arabella Shore (1822-1900) e Louisa Catherine Shore (1824-1895), Jane Wallas Penfold (1821-1884), Isabella de França (1795- 1880), a prolífica Evelyn Everett-Green (1856- 1932) e Ann Bridge (1889-1974).

Se fizermos uma digressão pelas ilhas macaronésicas temos escritoras particularmente excecionais. Entre as açorianas teríamos de lembrar as obras perdidas de Sóror Catarina de Cristo (séc. XVII) e de Francisca Cordélia de Sousa (Séc. XVIII). Temos a autobiografia da Venerável Madre Teresa da Anunciada (1658-1738). Temos Hermenegilda de Lacerda (1841-1895), poetisa, dramaturga, romancista e jornalista. Temos a poetisa Mariana Belmira de Andrade (1844-1921). Temos Alice Moderno (1867-1946), poetisa, tradutora, compositora, mulher de negócios e a ativista dos direitos das mulheres. Temos a poetisa Maria Cristina de Arriaga (1835-1915), irmã de Manuel de Arriaga. Temos a dramaturga Olga Guerra (1893-1974), a cientista Matilde Bensaúde (1890-1969) e a compositora e pintora Palmira Enes (1886-1963). Das Canárias, teríamos de lembrar as obras perdidas de Sóror Maria de la Purificación de Arroyo y Rivero (séc. XVII) e de Sóror Josefa del Sacramento (séc. XVIII), bem como os poemas inéditos da fidalga Carolina de Coronado y Monteverde (séc. XVIII) e a primeira mulher cientista das Canárias, Sóror María del Carmen de Bettencourt y Molina (1758-1811). Temos Agustina Gonzáles y Romero (1820-1897), com alcunha La Perejilla, célebre pelos seus versos satíricos e burlescos que ficaram na memória dos canarinos. No século XIX, assistiu-se a uma irrupção de poetisas como María Joaquina Viera y Clavijo, Mercedes Letona del Corral e Victorina Bridoux y Mazzini, entre outras que pontilham nos jornais da época. Há uma Mercedes Pinto de Armas, uma das maiores escritoras latino-americanas, que só foi redescoberta recentemente e que muitos canarinos não conheciam. De Cabo Verde, teríamos de mencionar os versos perdidos da primeira escritora cabo-verdiana, Maria de Spencer Freitas (fl. 1818), mas temos Antónia Gertrudes Pusich (1805-1885), uma das pioneiras do jornalismo em Portugal e ativista dos direitos das mulheres. Temos escritoras como Yolanda Morazzo, Orlanda Amarílis, Margarida Mascarenhas e a jornalista Maria Helena Spencer.

Há uma galeria extensa de exemplos de mulheres que romperam as convenções patriarcalistas até ao dealbar do século XX. Foram estas escritoras que através da sua pena sulcaram nas ilhas os primeiros caminhos para que a geração seguinte tivesse acesso à dignidade de pensar e de criar. Mas quantas destas escritoras deram o seu nome a uma escola, a uma avenida, a uma rua ou a uma estátua? Esta relação que efetuei sobre obras de autoria feminina produzidas nestes arquipélagos desvela apenas uma ponta do icebergue.

* Laureano Macedo é o autor de um livro que apresenta uma recolha biobibliográfica de escritoras e de autoras da Madeira, Açores, Canária e Cabo Verde. Esta publicação (neste caso e-book) tem origem num trabalho que realizou em 2003 intitulado “Escritoras Madeirenses do Século XIX” e do qual recebeu o 1.º Prémio da Fundação Berardo. Ao longo dos anos entendeu ampliar o repertório, estendendo o âmbito para o espaço Macaronésico, já que se sabia tão pouco sobre as escritoras insulares esquecidas ou marginalizadas pelos cânones literários de cunho nacionalista. A sua pesquisa vai desde o século XVI até autoras nascidas em 1939, com cerca de 480 entradas (pelo primeiro nome e não pelo apelido), contendo uma biografia, uma relação bibliográfica das suas obras (com indicação em que biblioteca ou arquivo se encontra tal obra, especialmente obras raras) – com um total de 3200 referências bibliográficas – e uma bibliografia secundária. Atualmente está a ampliar para 500 entradas. 

É arquivista-documentalista na Secretaria Regional do Plano e Finanças, licenciado em Estudos Clássicos pela Universidade de Lisboa e especializado em Ciências da Informação e da Documentação pela mesma universidade e em Gestão e Administração Pública. Além de publicações sobre bens arquivísticos disponíveis no Arquivo Regional da Madeira, desenvolveu uma coleção digital de Biblioteca Histórica de Escritoras da Macaronésia, disponível na Amazon, de que saíram quatro títulos. “Tornar acessível este património em ambiente digital é uma boa forma de tornar acessível todo um legado até então inacessível”, sublinha.