Mercado dos Lavradores virou uma loja de sementes embaladas para turista ver

Rui Marote
Quem conheceu a entrada do Mercado dos Lavradores transbordante de cor e cheia de flores frescas, hoje mal a reconhece. Aquela que deveria ser a grande montra da nossa identidade transformou-se numa área comercial focada no turismo de massas, onde a flor fresca foi empurrada para segundo plano para dar lugar a stands cheios de sementes, bolbos e plantas embaladas em plástico para levar no avião.
O motivo da decadência? A realidade que ninguém quer ver!!!
As icónicas floristas de traje típico estão com idades muito avançadas. Ao sábado, no exterior, ainda resiste uma força da natureza com 92 anos de idade, mas o relevo geracional é nulo. Os jovens já não querem esta profissão dura.
A produção local de flores é quase inexistente. Até no Largo Gil Eanes, junto à Sé, resta apenas uma única florista com mais de 55 anos a dar o corpo às balas.
A própria Festa da Flor — o nosso maior cartaz turístico — sobrevive à custa de toneladas de flores importadas da Holanda e da Colômbia. A Madeira que o Max cantava como “um jardim no mundo” está a murchar e a virar uma encenação de plástico e caixas de cartão vindas do aeroporto.
Quando a última florista de 92 anos pousar osbraços, o que é que vai restar da nossa tradição? Sementes ensacadas e memórias.
O sábado de manhã continua a ser o último reduto do mercado tradicional. É o dia em que os pequenos produtores locais descem ao Funchal e instalam-se no exterior do mercado e como cenário de fundo os icónicos painéis de azulejos do Mercado dos Lavradores no Funchal que foram produzidos em 1940 pela Faiança Batisttini de Maria de Portugal e pintados pelo artista João Rodrigues a quem eu chamo a Resistência de Sábado. É o retrato perfeito de um amor à terra e a uma profissão que recusa morrer, mas que claramente está a desaparecer com o tempo.
A expressão “A Madeira é um jardim” imortalizada pelo cantor Max (Maximiano de Sousa) traduzia perfeitamente a alma da ilha. Durante décadas, os hotéis emblemáticos como o Belmond Reid’s Palace eram o centro de uma vivência única, onde a presença das floristas com os seus trajes tradicionais à porta complementava o cenário de luxo e a hospitalidade calorosa da ilha.Resta-nos as canções do Max no museu: A Madeira já não é o jardim que ele cantava.


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