As restrições ao Alojamento Local podem devolver imóveis ao arrendamento de longa duração e reduzir a pressão sobre as rendas nas zonas mais tensionadas, mas o efeito não é automático nem uniforme. Em Lisboa, por exemplo, a eliminação de cerca de 8.300 registos após a pandemia não travou a subida dos preços das casas, embora possa ter abrandado o ritmo de crescimento nas áreas de contenção.
A razão é simples: o Alojamento Local é um fator relevante, mas não é a única causa da crise. A escassez estrutural de habitação, o crescimento da procura, a reabilitação cara e a insuficiente construção nova continuam a ser determinantes.
Efeito sobre a oferta de arrendamento
O impacto mais direto é a possibilidade de reverter habitações antes destinadas a estadias curtas para arrendamento permanente. Em Portugal, o Banco de Portugal concluiu que o Alojamento Local contribuiu, nas zonas de maior densidade, para a redução da oferta de imóveis anteriormente destinados ao arrendamento de longa duração, para aumentos das rendas e para processos de gentrificação turística.
Em Espanha, o Banco de España estima que as habitações de uso turístico representavam cerca de 355.000 unidades em média em 2025, cerca de 1,5% do parque habitacional nacional, mas com um peso próximo de 10% no mercado de arrendamento. A concentração em ilhas, costa e grandes cidades explica por que razão o efeito local pode ser muito superior à média nacional.
O caso português
Em Portugal, a legislação passou a permitir que as câmaras municipais criem áreas de contenção e áreas de crescimento sustentável, com regras mais apertadas onde o Alojamento Local esteja a pressionar a habitação. Nas áreas de contenção, não pode ser autorizado o registo de frações que tenham tido contrato de arrendamento para habitação permanente nos dois anos anteriores; também é possível suspender temporariamente a atividade por até cinco anos, nomeadamente para fins de arrendamento habitacional.
Em Lisboa, a redução de 8.300 alojamentos locais no período pós-pandemia não se traduziu em queda dos preços: numa das zonas de contenção absoluta, o preço médio passou de cerca de 5.500 euros/m² em 2022 para 6.986 euros/m² no primeiro trimestre de 2026. Isto sugere que as restrições podem atenuar pressões adicionais, mas não corrigem sozinhas um mercado marcado pela falta de oferta.
O caso espanhol
Em Espanha, as restrições produziram resultados desiguais. Entre agosto de 2024 e maio de 2026, o número de habitações turísticas caiu 9.004 em Madrid, 2.785 em Barcelona, 5.675 nas Baleares, 2.858 em Málaga e 12.441 em Alicante.
Contudo, nem todas as habitações retiradas do turismo regressaram ao arrendamento residencial. Parte foi transferida para o arrendamento de temporada, dirigido a estudantes e trabalhadores deslocados, o que mantém o imóvel fora do mercado de contratos de longa duração. Na Catalunha, apesar das restrições, o número de apartamentos turísticos triplicou entre janeiro de 2023 e julho de 2026, de 5.400 para 15.200.
| Efeito das restrições | O que se observa | Leitura |
|---|---|---|
| Redução de Alojamento Local | Espanha perdeu cerca de 62.000 habitações turísticas entre agosto de 2024 e maio de 2026 | As medidas e a reorientação para arrendamento de temporada reduziram a oferta turística. |
| Devolução ao arrendamento permanente | Ainda limitada | Parte dos imóveis passou para arrendamento de temporada, sem aliviar o mercado residencial. |
| Pressão sobre rendas | Pode diminuir nas zonas onde a conversão é efetiva | O Banco de España associa a expansão do turismo residencial à redução da oferta de arrendamento permanente e à subida de preços nas zonas procuradas. |
| Preços de compra | Efeito menos claro | Em Lisboa, os preços continuaram a subir mesmo após a redução de registos. |
| Impacto económico e social | Pode reduzir receitas turísticas e emprego | Em Barcelona, um estudo citado pela imprensa associa a proibição a uma potencial perda de mais de 1,9 mil milhões de euros no PIB e 40.000 postos de trabalho. |
| Eficácia das medidas | Depende do desenho e da fiscalização | A Comissão Europeia exige evidência de impacto durante pelo menos três anos, medidas proporcionais, delimitadas e revistas. |
O quadro europeu
A Comissão Europeia propôs um enquadramento comum que permite restringir o Alojamento Local apenas em zonas onde exista pressão habitacional comprovada. As autoridades terão de demonstrar, com dados objetivos, que os arrendamentos de curta duração afetam significativamente a disponibilidade ou a acessibilidade da habitação há pelo menos três anos; as medidas não podem ser genéricas, devem ser proporcionais e têm um período máximo de cinco anos, sujeito a revisão.
Bruxelas reconhece que, em alguns destinos turísticos, os alojamentos de curta duração podem representar até 20% das habitações, com impacto nas rendas e nos preços. Mas sublinha também que limitar o Alojamento Local não resolve, por si só, a crise: é necessário aumentar a construção, reabilitar o parque existente e criar mais habitação pública e acessível.
Conclusão prática
As restrições funcionam melhor quando são cirúrgicas: visam zonas comprovadamente pressionadas, impedem a conversão de arrendamento residencial em turismo e incentivam a devolução dos imóveis ao arrendamento de longa duração.
Mas, se forem acompanhadas apenas por proibições, sem construção nova, fiscalização eficaz e incentivos à conversão para habitação permanente, o resultado pode ser apenas uma deslocação da oferta para o arrendamento de temporada — sem alívio real para os jovens que procuram uma casa.
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