Rui Marote
Largo do Chafariz, Funchal. A seis metros do chão, o cenário parece saído de um postal romântico: a calçada portuguesa, a arquitectura histórica e uma jovem descontraidamente sentada no parapeito de uma janela de um alojamento local. De costas apoiadas numa ombreira e pernas estendidas até à outra, parece flutuar sobre a praça. Os olhos estão colados ao ecrã do telemóvel. O mundo exterior não existe.
Estepilha, as o que a imagem esconde é a fragilidade absoluta daquela pose. Ali, a seis metros de altura, a gravidade não perdoa distrações. Basta um reflexo involuntário a um insecto ou uma quebra súbita de tensão ao levantar a cabeça para transformar a paz aparente num desastre irreversível.
Não querendo ironizar com o que é um apelo à cautela das pessoas, contemplando esta situação veio-nos à cabeça a letra da canção de António Mourão:
“Oh Laurindinha, vem à janela/Oh Laurindinha, vem à janela/ Ver o teu amor,(ai ai ai) que ele vai p’ra guerra./ Ver o teu amor,(ai ai ai ) que ele vai p’ra guerra”…
Enfim, estar “trancada” entre as paredes da janela cria uma ilusão mecânica de segurança, mas não há um único ponto de ancoragem para as mãos se o corpo deslizar. O ecrã do telemóvel funciona como uma venda digital: anula a nossa percepção espacial e desliga os reflexos de sobrevivência. O perigo não avisa — e o abismo está sempre a apenas um centímetro de um deslize. Apelamos ao cuidado!
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