13 de setembro de 1987: O acidente de Goiânia com o Césio-137

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Há 39 anos, uma cápsula retirada de um equipamento médico abandonado desencadeava em Goiânia o maior acidente radiológico da história fora de uma instalação nuclear. Quatro pessoas morreram, 249 foram identificadas como contaminadas e mais de 112 mil tiveram de ser monitorizadas.

Uma peça aparentemente inofensiva

Na tarde de 13 de setembro de 1987, dois trabalhadores que recolhiam sucata, Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira, entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia, no estado brasileiro de Goiás. O edifício encontrava-se abandonado, mas no interior permanecia um aparelho de teleterapia utilizado anteriormente no tratamento de doentes oncológicos.

Os dois homens retiraram parte do equipamento, com cerca de 200 quilogramas, convencidos de que poderiam aproveitar e vender o metal, sobretudo o chumbo que servia de proteção. A peça acabou por ser transportada para a casa de Roberto e, posteriormente, vendida ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira.

O equipamento continha uma fonte radioativa de Césio-137. Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica, a fonte apresentava então uma atividade estimada de 50,9 terabecquerels, equivalente a 1375 curies. O material estava protegido por uma cápsula e integrado num dispositivo concebido para impedir a exposição à radiação. Ao ser desmontado com ferramentas comuns, o aparelho perdeu a sua proteção.

No ferro-velho, a cápsula foi aberta. No seu interior encontrava-se cloreto de Césio-137, sob a forma de um pó altamente radioativo. O material emitia um brilho azul-esbranquiçado no escuro, uma característica que despertou a curiosidade de Devair, dos seus familiares, trabalhadores e vizinhos.

Sem saberem que estavam perante uma fonte radioativa, várias pessoas tocaram no pó, levaram-no para as suas casas ou distribuíram pequenas quantidades entre familiares e amigos. O Césio-137 foi, assim, espalhado por contacto direto, pelas roupas, pelos objetos e pelos espaços frequentados pelas pessoas contaminadas.

A forma química do material facilitou a dispersão. Ao contrário de uma fonte selada que permanecesse intacta, o cloreto de césio podia aderir à pele, às superfícies e à roupa, além de ser ingerido ou inalado. A exposição ocorreu tanto por irradiação externa como por contaminação interna.

Os primeiros sintomas

Dias depois do contacto com a substância, começaram a surgir sintomas como náuseas, vómitos, tonturas, diarreia e lesões na pele. Inicialmente, alguns dos afetados e os próprios profissionais de saúde associaram esses sinais a uma intoxicação alimentar ou a outras doenças comuns.

A explicação só surgiu no final de setembro. A esposa de Devair Alves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, percebeu que várias pessoas relacionadas com o ferro-velho apresentavam sintomas semelhantes. De acordo com os relatos históricos, ela levou parte da cápsula a um posto da Vigilância Sanitária, onde os técnicos suspeitaram que o objeto poderia estar na origem do problema.

Em 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira confirmou a presença de níveis extremamente elevados de radiação. A descoberta desencadeou a intervenção das autoridades brasileiras, da Comissão Nacional de Energia Nuclear e de equipas médicas e de proteção civil. O acidente foi identificado mais de duas semanas depois da abertura da cápsula.g1.globo+1

Uma emergência no centro da cidade

A resposta teve de ser organizada numa área urbana densamente habitada. As autoridades instalaram um centro de triagem no Estádio Olímpico de Goiânia, onde foram examinados milhares de residentes. Entre 30 de setembro e 22 de dezembro de 1987, cerca de 112 mil pessoas foram monitorizadas; 249 apresentavam contaminação radioativa interna ou externa.

As pessoas foram submetidas a medições com detetores de radiação e, nos casos necessários, a exames médicos. Foram isoladas casas, ruas, veículos, roupas, objetos pessoais e áreas dos ferros-velhos por onde o material havia passado.

A contaminação não se limitou a um único ponto. As autoridades identificaram vários locais fortemente afetados, incluindo o antigo instituto de radioterapia, a casa onde o equipamento foi inicialmente desmontado, o ferro-velho e as habitações de pessoas que tinham recebido ou manipulado o pó. A distribuição dos fragmentos tornou mais complexa a localização de toda a fonte radioativa.

Quatro mortes e dezenas de feridos

As pessoas mais expostas desenvolveram a chamada síndrome aguda da radiação, acompanhada em alguns casos por queimaduras e lesões graves. Vinte pessoas chegaram a necessitar de internamento hospitalar, e 28 sofreram queimaduras radioinduzidas, segundo o relatório da Agência Internacional de Energia Atómica.

Quatro pessoas morreram:

  • Maria Gabriela Ferreira, esposa do proprietário do ferro-velho;

  • Leide das Neves Ferreira, sobrinha de seis anos de Devair;

  • Israel Santos Alves, trabalhador do ferro-velho;

  • Admilson Alves de Souza, também funcionário do estabelecimento.

Leide das Neves tornou-se uma das imagens mais marcantes da tragédia. A criança ingeriu inadvertidamente partículas do material ao comer, com as mãos contaminadas, um alimento que lhe tinha sido oferecido. A sua morte simbolizou a dimensão doméstica e silenciosa do acidente: a radiação estava presente em casas, roupas e objetos de uso quotidiano.

As vítimas foram sepultadas em caixões revestidos de chumbo, devido aos receios de que o material radioativo ainda presente nos corpos pudesse representar um risco. O procedimento provocou forte tensão entre familiares e moradores, que temiam uma maior disseminação da contaminação.

A descontaminação

A operação de limpeza de Goiânia exigiu a remoção de solos, demolição de edifícios e recolha de milhares de objetos. Foram demolidas sete casas em zonas de contaminação elevada. O processo gerou cerca de 3500 metros cúbicos de resíduos radioativos, acondicionados em milhares de embalagens e encaminhados para uma instalação de deposição em Abadia de Goiás.

A operação obrigou ainda ao controlo de redes de água, esgotos e águas pluviais, bem como à verificação de veículos, mercadorias e dinheiro que poderiam ter transportado partículas radioativas. A preocupação não era apenas tratar os doentes, mas impedir que o Césio-137 continuasse a circular.

Os trabalhos deixaram marcas profundas na cidade. Algumas famílias perderam as suas casas e bens; outras enfrentaram dificuldades económicas e sociais. Durante meses, produtos provenientes de Goiás foram alvo de desconfiança, e muitos moradores de Goiânia foram discriminados noutras regiões do Brasil.

Falhas de segurança e responsabilidades

O acidente expôs falhas graves no controlo de fontes radioativas utilizadas na medicina. O equipamento tinha sido abandonado numa clínica desativada sem que a fonte fosse retirada, selada ou devidamente vigiada. A ausência de sinalização clara e de fiscalização permitiu que uma peça potencialmente mortal fosse confundida com sucata.

A tragédia também evidenciou a necessidade de manter um inventário rigoroso das fontes radioativas, garantir a sua recolha quando uma instalação encerra e informar proprietários de edifícios, trabalhadores da demolição e comerciantes de sucata sobre os riscos associados a equipamentos médicos.

Cinco profissionais ligados ao Instituto Goiano de Radioterapia foram condenados por homicídio culposo, segundo relatos posteriores sobre o processo judicial. A responsabilização tornou-se parte de um debate mais amplo sobre a obrigação do Estado e das entidades proprietárias de assegurar a proteção de fontes radioativas mesmo depois de os equipamentos deixarem de ser utilizados.

Um acidente que mudou a segurança radiológica

O caso de Goiânia é frequentemente descrito como o maior acidente radiológico ocorrido fora de uma central nuclear ou de outra instalação nuclear. A comparação é importante: não houve uma explosão de reator, mas a libertação descontrolada de uma fonte médica altamente radioativa num ambiente urbano.

O episódio mostrou que os riscos nucleares e radiológicos não estão limitados às centrais de produção de energia. Equipamentos usados em hospitais, laboratórios e centros industriais podem conter fontes perigosas. Se forem abandonados, mal sinalizados ou incorretamente desmontados, podem transformar-se em ameaças invisíveis para trabalhadores e comunidades inteiras.

A experiência de Goiânia contribuiu para reforçar normas internacionais de segurança, procedimentos de emergência, formação de profissionais e mecanismos de controlo de fontes radioativas. Também chamou a atenção para a importância da comunicação pública durante uma crise: a falta de informação inicial atrasou a identificação do acidente e aumentou o número de pessoas expostas.

A memória das vítimas

Quase quatro décadas depois, o acidente continua presente na memória de Goiânia. Para além das quatro mortes diretamente atribuídas à exposição aguda, centenas de pessoas tiveram de permanecer sob acompanhamento médico. O impacto psicológico, familiar e social prolongou-se muito além do fim das operações de descontaminação.

A tragédia permanece como um alerta sobre as consequências da negligência institucional e da falta de conhecimento sobre materiais perigosos. Uma cápsula pequena, retirada de um equipamento abandonado, bastou para contaminar pessoas, casas e objetos numa parte da cidade e produzir milhares de toneladas de resíduos controlados.

Em 13 de setembro de 1987, Goiânia aprendeu de forma dramática que a radiação não tem cor, cheiro ou sabor. O brilho azul do Césio-137 podia parecer fascinante — mas escondia uma ameaça capaz de causar doença, morte e uma crise de saúde pública em escala nacional.


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