Estepilha, parece que o Ventura deixou a porta a’Berta do seu gabinete no Parlamento e ela levou os documentos

AF!

O Parlamento conseguiu, mais uma vez, aquilo que parece ser a sua especialidade em tempos de elevado fervor partidário: transformar um episódio banal de desorganização em tragédia institucional, drama moral e oportunidade para uma sessão de indignação com transmissão garantida. Desta vez, o protagonista foi André Ventura, que apareceu a denunciar a alegada vandalização do seu gabinete e o desaparecimento de documentação sensível, num enredo que tem tudo para agradar ao ciclo mediático: mistério, suspeita, documentos desaparecidos e a inevitável promessa de que “isto não vai ficar assim”. Só faltava a banda sonora.

O caso, segundo foi divulgado, envolve o gabinete do líder do Chega na Assembleia da República, onde terão sido encontrados papéis espalhados, armários mexidos e sinais de uma intrusão que a Polícia Judiciária agora investiga. Ventura afirmou que desapareceram documentos relacionados com o antigo diretor nacional da PJ, Luís Neves, e sugeriu que alguém teria procurado deliberadamente informação comprometedora. Até aqui, tudo muito grave, muito institucional e muito digno de preocupação. Mas há um detalhe deliciosamente português nesta história: a segurança do Estado pode estar em causa, mas a porta parece ter ficado suficientemente aberta para que o enredo se desenvolvesse sem grande esforço de guionismo.

É aqui que a política nacional revela o seu génio involuntário. O mesmo Ventura que, noutra ocasião, se prestou a circular pelo Parlamento com o ar de quem descobriu sozinho o conceito de produtividade, a censurar deputados por não trabalharem à sexta-feira, surge agora do lado da vítima, com ar consternado e discurso inflamado, como se o país tivesse acabado de perder uma peça central da civilização ocidental. A ironia não é subtil, mas a política também não costuma ser. O deputado que acusava os outros de preguiça parlamentar encontra-se, de repente, no centro de uma história em que a principal pergunta não é quem entrou, mas como é que a entrada parece ter sido tão fácil.

Eis o verdadeiro milagre do episódio: a oposição transforma-se em espetáculo, o espetáculo transforma-se em denúncia, a denúncia transforma-se em suspeita de sabotagem, e a suspeita de sabotagem transforma-se numa conferência moral sobre a degradação da democracia. Tudo isto sem que ninguém pareça querer discutir o óbvio com a devida frontalidade: em política portuguesa, a porta raramente está fechada quando deveria estar, e a indignação quase sempre aparece depois do problema estar exposto à luz.

Ventura, como seria de esperar, não perdeu tempo a elevar o incidente ao patamar da conspiração. Não basta que o gabinete esteja remexido; é preciso que a situação tenha uma leitura política, preferencialmente com algum sabor a perseguição. Porque um gabinete desarrumado é apenas uma desarrumação. Um gabinete desarrumado com documentos sensíveis, já é uma trama. E uma trama envolvendo o Chega é, por definição, uma confirmação de que o líder foi alvo de algo maior do que simples vandalismo. Em Lisboa, a política já aprendeu que a gravidade dos factos é menos importante do que a utilidade narrativa dos mesmos.

Do lado das instituições, a reação foi previsível, séria e prudente, como convém: a Polícia Judiciária foi chamada ao local, a Assembleia acompanhou o caso e a situação passou a ser tratada como deve ser tratada quando há suspeita de intrusão num espaço parlamentar. Mas a solenidade institucional não elimina o ridículo do cenário. Porque há qualquer coisa de profundamente cómico — e ao mesmo tempo trágico — em ver um dirigente político que vive de denunciar a desordem alheia descobrir, afinal, que a sua própria casa política também pode ter falhas dignas de uma comédia de porta aberta.

O episódio ganha ainda mais ironia quando lembramos a coreografia habitual de Ventura: o tom de autoridade, a pose de quem fala em nome da disciplina, a linguagem de firmeza moral e a permanente sugestão de que os outros vivem numa espécie de laxismo crónico. Tudo muito bem ensaiado, até ao momento em que o gabinete do próprio líder aparece em estado de confusão. A partir daí, a retórica de punho cerrado passa a coexistir com a imagem de papéis no chão e suspeitas de desaparecimento de documentos. O contraste é tão expressivo que praticamente se escreve sozinho.

Há também, nesta história, uma lição involuntária sobre o modo como certos atores políticos dependem da indignação permanente para se manterem em cena. Quando tudo corre bem, a narrativa é de combate. Quando algo corre mal, a narrativa é de perseguição. E quando há um problema real, como uma alegada intrusão num gabinete parlamentar, o reflexo imediato não é a contenção, mas a amplificação. A política contemporânea vive cada vez mais desta lógica de reação em cadeia, em que qualquer incidente tem de ser maior do que ele próprio. Um armário mexido nunca pode ser só um armário mexido; tem de ser sinal de decadência, ameaça à democracia e, se possível, combustível para o noticiário das próximas horas.

No meio disto tudo, sobra ao cidadão comum o velho privilégio de assistir ao teatro com um misto de cansaço e divertimento. Porque há algo de profundamente familiar neste país que discute portas abertas com a mesma intensidade com que discute reformas, saúde ou educação: muito ruído, muita pose, pouca substância. A cada novo episódio, repete-se o ritual da indignação instantânea, do comentário inflamado e da memória curta. Amanhã haverá outro assunto, outra suspeita, outra frase calculada para as redes sociais, e o gabinete vandalizado passará a ser apenas mais um capítulo na novela nacional da política performativa.

Seja qual for a verdade completa sobre o que aconteceu, uma coisa já está garantida: André Ventura conseguiu transformar um alegado episódio de vandalismo num espelho útil da sua própria estratégia política. E o espelho, neste caso, devolve uma imagem particularmente embaraçosa — a de alguém que passou o tempo a apontar o dedo à falta de trabalho dos outros e acaba, como sempre sucede aos que abusam do moralismo, confrontado com a fragilidade do seu próprio cenário. No fundo, talvez a pergunta mais pertinente nem seja quem levou os documentos. Talvez seja apenas esta: quem deixou a porta aberta para que a encenação começasse?
Será que a D. Berta, a provável responsável pela limpeza, levou os documentos em causa, uma vez que estes estavam desarrumados e a senhora pensou que eram lixo? O Deputado do CHEGA ao chegar ao escritório e não os encontrar, teve que mexer e remexer os armários à procuras dos ditos documentos?


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