Rui Marote
O comércio tradicional madeirense enfrenta desafios. Muitas lojas tradicionais têm sido alteradas de maneira irreversível, com consequentes perdas para a história madeirense. E isso, segundo apurámos, é que se está a passar numa das mais tradicionais obras da nossa praça, o Bazar do Povo, em obras.
O FN obteve fotografias que documentam o resultado destas obras de transformação e remodelação, que resultam em destruição inevitável de alguns elementos decorativos considerados de valor.
A expressão “não ficará pedra sobre pedra” é uma famosa profecia bíblica atribuída a Jesus nos Evangelhos de Mateus 24:2, Marcos 13:2 e Lucas 21:6. que profetiza a destruição do templo. Hoje o termo é usado de forma figurada para falar de uma ruína total ou de uma mudança radical.
Na história da Madeira o termo é indissociável da luta contra a orografia e os elementos da natureza. Quando falamos de ver o património e as vidas soterrados ou derrubados, os madeirenses reavivam facilmente feridas históricas profundas.
O grande saque do Funchal (1566), episódio mais traumático de pilhagem na ilha, ocorreu quando a uma frota de corsários franceses liderada por Bertrand de Montluc invadiu o Funchal. Igrejas, conventos e casa senhoriais, arrancando ouro, pratas obras de arte e acúcar. O património religioso e os arquivos da cidade foram violentamente destruídos ou roubados.
Nos dias de hoje parece estarmos de regresso ao século XVI… mas a destruição dos elementos é outra. Agora sofre o nosso património comercial…
O FN obteve várias fotos do Bazar do Povo e do resultado de obras e movimentações.
A história do fundador do Bazar do Povo é digna de um livro. Só vamos abordar um pouco: quando em 1890 Henrique Augusto Rodrigues tomou por arrendamento à viúva D. Ema Bianchi de Salles Caldeira, passou ele mesmo a residir no prédio com a frente para a Rua dos Ferreiros, esquina com a Rua Bettencourt e números 56 e 58 para a Rua dos Ferreiros, freguesia da Sé (…). A 2 junho 1896 viria a juntar-se-lhe o seu irmão João Anacleto Rodrigues (1869-1948) na sociedade da loja “Bazar do Povo.
Os dois irmãos, e respectivas esposas, viriam a residir no prédio arrendado da Dona Ema Bianchi de Sales. À medida que a loja se expandia os dois casais saíram do edifício que servia e residência e adquiriram os prédios envolventes no edifício mãe do Bazar do Povo.
Mais tarde, em 1995, Jorge de Sá comprou o edifício do Bazar do Povo. Em 21 de Junho 2012, o empresário madeirense arrendou a loja aos chineses.
A nossa maior loja de comércio local está hoje transformada numa “Chinatown”… Os funcionários chineses chegaram até no inicio a pernoitar nas instalações do Bazar do Povo, segundo se afirma.
Ora, nas instalações onde viveu Augusto Rodrigues, casado em segundas núpcias com Gabriela Cristina Costa e que teve 4 filhas nascidas no edifício do Bazar do Povo que também foi residência do seu irmão, existia um altar no primeiro andar ( ver fotos) que foi destruído conforme as fotos documentam, para dar acesso a prateleiras para armazenar mercadorias.
Ficou tudo reduzido a lenha, não restando tábua sobre tábua. Os proprietários devem ter conhecimento dessas obras modificando e destruindo o interior do edifício. Historiadores como Rui Carita têm alertado frequentemente para o facto de que o património histórico e religioso da ilha continua muitas vezes “a saque” ou vulnerável e sujeito a desinteresse.
Henrique Augusto Rodrigues arrendou e posteriormente adquiriu todos os edifícios que compunham a frente da Rua do Bettencourt e Rua do Príncipe (actual Rua 5 de Outubro). Á medida que a loja se expandia os dois casais saem do edifício que serviria de residência.
Entre 1933 e 1935 foram realizadas obras nas fachadas das Rua do Bettencourt e da 5 de Outubro, tal como hoje se encontra.
Havendo a necessidade actual de realizar obras, não podem haver dúvidas de que as mesmas têm de acautelar o património histórico, que é a nossa memória.
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