Rui Marote
“Isto é como as cerejas quanto mais se come, mais vontade dá”. O debate diário sobre o serviço de mobilidade encaixa-se exactamente no provérbio. Cada problema ou discussão puxa logo o assunto seguinte, criando um ciclo que nunca termina.
O nosso artigo “Subvenções à mobilidade já existem desde o reinado de D. Carlos I” ajudou a recordar circunstâncias de que poucos se lembram sobre os auxílios do Estado à mobilidade insular.
A própósito do mesmo, recebemos de um nosso leitor ex-estudante do Instituto Superior Técnico e hoje em dia engenheiro aposentado, um relato que nos avivou a memória de que na década de 70 a TAP passou a disponibilizar descontos e facilidades para estudantes universitários, permitindo -lhes viajar a preços mais acessíveis. Esta medida ajudou a democratizar o transporte aéreo, especialmente nas ligações entre Continente e as Regiões autónomas da Madeira e dos Açores.
Nos anos Setenta, viajar de avião era um luxo inacessível para a maioria dos portugueses e o bilhete normal de ida e volta entre Lisboa e o Funchal custava cerca de 3000 a 4.000 escudos. O desconto de estudante nos anos 70 surgiu para quebrar este isolamento. A TAP e o Governo criaram tarifas especiais estruturadas.
Os estudantes universitários (especialmente os deslocados das Ilhas ) tinham direito a um abatimento substancial, que chegava a atingir 50% a 60% de desconto face à tarifa normal.
Com o desconto aplicado, a viagem de ida e volta para a Madeira ficava por cerca de 1500 a 2000 escudos. Embora continuasse a ser um valor elevado para época, esta tarifa permitia aos jovens regressar a casa nas férias de Natal Páscoa e Verão, algo que de outra formas seria financeiramente impossível para as suas famílias.
As passagens eram emitidas em livretos físicos com papel químico vermelho, e os estudantes tinham de apresentar uma declaração oficial de matrícula da respectiva faculdade no balcão da TAP para usufruir do preço reduzido.
Segundo nos recordou o engenheiro aposentado nosso leitor, “sem recuar tanto no tempo ,em que haviam empreendedores sérios, nos meus tempos de faculdade havia descontos nas viagens para estudantes e o processo era simples”.
Segundo o mesmo, era ir à TAP e levar um impresso (gratuito) e preenchê-lo. O estudante deslocava-se à secretaria da tua faculdade, o impresso era carimbado como confirmação de aluno, e, de regresso à TAP, levantava-se a passagem só pagando a tarifa de estudante.
Hoje há quem exija uma taxa para para inscrever as pessoas na plataforma, o que acontece com o IRS em que certos escritórios de contabilistas cobram um valor. Nos anos Setenta isso também existiu: certas universidades, para colocar o carimbo cobravam uma taxa.
Para finalizar, mais uma historieta: o director do DN -Funchal Sílvio Silva, na década de Setenta tinha um filho a frequentar a faculdade no Continente. Acontece que a TAP nesse ano fez aumento irrisório no bilhete de estudante insular e o director do DN não gostou e chamou um redactor ao gabinete, dando instruções para efectuar uma reportagem criticando a transportadora.
Hoje aumentam-se as passagens a todas as horas ninguém se manifesta. É pagar e não protestar.
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