Alterações de trânsito: ponte pedonal passa a ser apenas um “enfeite” trancado a ferros

Rui Marote
A actual Câmara “herdou” uma cidade cheia de cicatrizes e tenta remendar os problemas usando “pano novo numa roupa velha”. É o que, na opinião de muitos, vem acontecer com as anunciadas alterações rodoviárias no Funchal e o encerramento de uma ponte, transformada em “elefante branco”.
É já a partir de amanhã, dia 2 de Setembro 2026, que a paragem de autocarros junto ao Centro Comercial Anadia será desactivada. As viagens do SIGA CAM e da SIGA Rodoeste passarão a realizar o embarque e desembarque de passageiros no Largo do Pelourinho. Já a Horários do Funchal passará a utilizar a nova paragem localizada ligeiramente mais acima, em frente ao Savoy Residence.
Estão em causa as carreiras nºs: 007, 019, 022, 026, 029, 031, 032, 033, 034, 036, 037, 038, 039, 040, 047, 062 e 131.
Como estava, de facto era “terceiro mundo”: nem há 50 anos em Xipamanine -Moçambique os machimbombos funcionavam desta maneira.
Na Rua do Anadia o único passeio existente tem cerca de 1m50 de largura e era (até hoje) estação rodoviária de saída e entrada de passageiros das companhias Siga Cam ,Siga Rodoeste e HF. A certas horas o passeio ficava bloqueado. Isto como se já não bastasse a entrada e saída de carros do parque de estacionamento do Anadia.
O departamento de trânsito dos serviços camarários tentou remendar para acabar com cenários vividos desde há muito tempo e descobriu “o ovo de Colombo” transferindo a paragem para o Largo do Pelourinho.
Com o 20 de Fevereiro de 2010, a Rampa do Pelourinho que ligava a Ponte do Pelourinho com acesso  à Avenida do Mar e à Rua da Casa da Luz  foi substituída  por uma ponte pedonal sobre a Ribeira de João Gomes.
Essa alteração levou a obras de docas para que os autocarros carreguem e descarreguem os passageiros, não obstruindo a via.
Se a ponte foi inutilizada de forma permanente por causa de uma nova organização do trânsito à superfície, isso valida por completo o termo “elefante branco”. Porque gastou-se dinheiro dos contribuintes numa estrutura que agora serve apenas de “enfeite” trancado com ferro.
Esta nova decisão da Câmara é o reflexo perfeito do “cada cabeça, cada sentença”. As decisões políticas e técnicas parecem por vezes mudar ao sabor do vento.
O Funchal, pela sua orografia acidentada e rede de ribeiras, exige soluções de mobilidade complexas. No entanto, quando estas falham em servir a população ou acabam encerradas, tornam-se símbolos de desperdício orçamental.
Este caso dá a entender que os projectos na cidade são feitos de forma isolada. Ou seja: desenha-se uma travessia pedonal e, poucos anos depois, destrói-se a sua utilidade para meter uma paragem de autocarros, demonstrando que o peão continua no fundo da lista de prioridades.
De qualquer modo, a partir de amanhã, quem utilizar a nova paragem e quiser cruzar para o lado da Rua Fernão de Ornelas terá mesmo de caminhar até à ponte do Mercado. Isto acaba por ser uma falha. Uma paragem de autocarro deve ligar directamente a percursos pedonais fluidos, e não bloqueá-los.
A solução “mais fácil” para a autarquia foi trancar a ponte com portas de ferro. Não vale a pena “chover no molhado”, mas o trânsito na cidade ainda vai dar pano para mangas. O mesmo já passou por muitos governos e muitas câmaras. Quando se criou a Horários do Funchal ignorou-se a criação de uma rodoviária na zona do Almirante Reis.
Hoje há uma possibilidade para descongestionar o trânsito no centro. Existe o passe único. Era retirar a Siga Rodoeste e a Siga Cam  do centro do Funchal e encaminhá-las para a zona da cota 40. No Funchal poderia circular apenas a Horários do Funchal e o mini-bus que com maior frequência e maior raio de acção faria a ligação com as carreiras interurbanas (SAM e RODOESTE).

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