Rui Marote
O Funchal Notícias já tinha abordado esta temática de vários estabelecimentos a exibirem cartazes a pedir funcionários. Este é o reflexo mais visível do tradicional recrutamento de proximidade, comum no comércio local, restauração e hotelaria. O método, embora simples, continua a ser eficaz para empresas que procuram trabalhadores que residam perto do local de trabalho. Atrai-se assim candidatos que já frequentam a zona ou que moram perto.
A foto que exibimos é um exemplo de uma realidade madeirense: muitos não querem trabalhar no sector da restauração e/ou hotelaria. Frequentemente acabam por ser necessários funcionários estrangeiros para suprir essas vagas.
A imagem colhida no centro do Funchal, num fim-de-semana, com o café encerrado, é ilustrativa desta realidade. Fixada no arco da cantaria, uma cartolina amarela escrita a vermelho divulga: “Precisa-se empregada de mesa”. Geralmente, exige-se alguma experiência e domínio de línguas, mas nem sempre.
De facto veem-se muitos cartazes do tipo “Procura-se Funcionários” na Madeira nos nossos dias. Actualmente a Região está, oficialmente, com um nível baixo de desemprego, o mais baixo até, diz-se, dos últimos 15 anos. Mas não deixa de haver algum desemprego. Então porque faltam sempre funcionários? Este cenário, que afecta a restauração e outras áreas, deve-se a complicados factores estruturais, económicos e sociais.
A restauração é conhecida por horários longos, trabalho repartido (almoço e jantar), folgas rotativas e, frequentemente, salários baixos, embora isto nem sempre seja a regra. Muitos desempregados procuram empregos com maior estabilidade e melhor conciliação com a vida familiar.
Em zonas com forte turismo, como o é a Madeira, o custo da habitação é tão elevado que a maioria dos trabalhadores não consegue viver perto do emprego com o salário oferecido pela restauração.
Muitos jovens qualificados ou trabalhadores operacionais preferem emigrar para países europeus onde o mesmo trabalho (como serviço de mesas) é bastante melhor remunerado.
Os cartazes estão sempre visíveis porque a rotatividade nestas funções é altíssima. Os funcionários aceitam o trabalho temporariamente, mas abandonam-no assim que encontram uma oportunidade melhor, obrigando as empresas a estar em constante recrutamento.
A relação entre a falta de mão de obra local no Funchal e o aumento da contratação de trabalhadores imigrantes (particularmente de países asiáticos) reflete uma mudança estrutural profunda na economia da Madeira. Este cenário gera debate, entre a necessidade económica das empresas e as preocupações sociais da população local.
Conforme já referimos, muitos trabalhadores locais preferem não aceitar vagas na restauração e hotelaria devido aos salários baixos face ao elevado custo de vida no Funchal (especialmente a habitação) e aos horários exigentes. Com o turismo a bater recordes na Madeira, os restaurantes e hotéis precisam de funcionários para continuar a operar. Sem candidatos locais, as empresas recorrem activamente à contratação de imigrantes de países asiáticos (como Nepal, Bangladesh ou Índia), que aceitam estas funções e as condições oferecidas para entrar no mercado de trabalho europeu.
Os empresários argumentam que, sem a mão de obra imigrante, muitos negócios teriam de fechar ou reduzir o horário por falta de pessoal.
Por outro lado, os críticos dizem que a chegada de trabalhadores dispostos a aceitar salários baixos permite que as empresas mantenham os ordenados desvalorizados, em vez de os aumentarem para atrair trabalhadores locais.
A Madeira enfrenta um envelhecimento populacional acentuado; a imigração traz população jovem e activa para a economia e para a segurança social. Mas há uma preocupação crescente de que o aumento populacional rápido pressione o já saturado mercado de arrendamento e os serviços públicos no Funchal.
Por outro lado, alguns clientes queixam-se da perda de qualidade no atendimento tradicional devido à falta de fluência em português por parte dos novos funcionários. Muitos apenas falam Inglês e a sua língua natal. O Inglês pode servir para estrangeiros, mas gera situações caricatas ao atender madeirenses e portugueses em geral.
E ainda há uma outra realidade: a percepção de que outros profissionais qualificados, como mestres de obras, pedreiros, canalizadores, electricistas e jardineiros preferem receber o subsídio de desemprego a trabalhar é um tema recorrente na Madeira e no resto do país.
Embora o sentimento popular muitas vezes aponte para a “falta de vontade de trabalhar”, economistas, sociólogos e analistas do mercado laboral apontam para uma conjugação de factores estruturais e económicos que explicam este fenómeno.
Em profissões técnicas e de prestação de serviços (como canalização, electricidade ou jardinagem), existe uma facilidade muito maior de operar no mercado informal (“fazer biscates” ou “trabalhar por fora”), como se costuma dizer.
Alguns profissionais optam por manter o subsídio de desemprego oficial como uma rede de segurança fixa (enquanto dure) e, em paralelo, realizam trabalhos particulares sem declarar impostos (recebendo em dinheiro). Ao somar o subsídio aos “biscates”, o rendimento final destes trabalhadores acaba por ser significativamente superior ao salário líquido que receberiam se estivessem contratados a tempo inteiro por uma empresa de construção ou jardinagem (onde haveria descontos pesados para o IRS e Segurança Social). A matemática financeira individual muitas vezes desincentiva o regresso ao emprego formal por conta de outrem.
Se uma empresa no Funchal oferecer o salário mínimo regional (ou muito perto disso) a um pedreiro ou electricista, a diferença entre o que ele recebe parado (o subsídio) e o que receberia a trabalhar noites/dias inteiros sob esforço físico pode ser de apenas 100€ ou 200€ por mês.
Actualmente, a procura por estes profissionais na Madeira é gigantesca devido ao boom imobiliário e à reabilitação urbana. Um mestre ou electricista por conta própria consegue cobrar valores elevados por hora. Quando as empresas tentam contratá-los com salários fixos baixos, há uma rejeição imediata da proposta.
Sendo serviços prestados directamente nas casas das pessoas, a fiscalização deste tipo de trabalho informal é extremamente difícil para as autoridades.
Este desequilíbrio estrutural é um dos maiores desafios económicos actuais da Região Autónoma da Madeira, afectando tanto o ritmo das obras públicas e privadas como as contas da Segurança Social.
Para finalizar deixamos um comentário: os leitores sabem que a área de arruamentos e jardins do Novo Hospital representa 70%do total do espaço? Admitindo que 50% sejam jardins ,”onde irão fabricar os jardineiros” ??
Se os jardins do Funchal estão no estado em que estão, cheios de mato, pomo-nos a imaginar como será no novo hospital, com jardins tão ambiciosos no projecto. Água não faltará, porque serão irrigados pela levada do norte.
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