Rui Marote
A Ponte do Pelourinho, localizada no coração do Funchal, na Ilha da Madeira, é um dos marcos históricos e arqueológicos mais interessantes da cidade. A sua evolução está ligada ao desenvolvimento urbano, às defesas militares e, tragicamente, às recorrentes aluviões que fustigaram a ilha ao longo dos séculos.
O Largo do Pelourinho ganhou esta denominação após o Duque Dom Manuel (futuro Rei D. Manuel I) enviar um pelourinho para a ilha em 1486. A primeira travessia oficial foi erguida no final do século XV (por volta de 1486 a 1495). Começou como uma ponte de madeira rudimentar para ligar o Largo do Pelourinho à antiga Igreja de Nossa Senhora do Calhau. Sendo uma zona de transição e foz das ribeiras (Ribeira de João Gomes e de Santa Luzia), a necessidade de travessia segura levou à projecção e construção de estruturas de passagem. Em Setembro de 1495, por ordem camarária, foi convertida em uma estrutura de pedra.
Com o crescimento comercial do Funchal e os ataques de piratas, a zona foi fortificada. Foi erguido o Forte de São Filipe no século XVI para defender a foz. A ponte original nesta área servia não só para ligar as margens da ribeira, mas também para articular o tráfego militar e civil junto às muralhas defensivas da cidade.
As pontes do Funchal sofreram historicamente com as violentas cheias. A grande aluvião de 1803 destruiu grande parte das infraestruturas da zona baixa da cidade. Nos anos subsequentes, as pontes foram reconstruídas em alvenaria de pedra basáltica regional, ganhando arcos mais robustos para resistir à força das águas.
Durante as reformas urbanísticas do século XX e o progressivo canalizamento e cobertura parcial das ribeiras do Funchal, a antiga Ponte do Pelourinho acabou por ser desactivada, aterrada e “escondida” sob o pavimento das novas estradas e praças modernas, ficando esquecida pela maioria da população. A ponte que a maioria das pessoas conheceu antes do desastre foi construída na década de 1930 (concluída por volta de 1937). Fazia parte do grande plano de modernização e cobertura parcial das linhas de água que deu origem à atual Avenida do Mar.
O ponto de viragem mais recente na história da ponte ocorreu devido à trágica aluvião de 20 de Fevereiro de 2010. Durante as massivas obras de reconstrução da Frente Mar do Funchal e a reabilitação da foz das ribeiras, as escavações trouxeram à superfície tesouros arqueológicos que estavam enterrados há décadas. Foram postos a descoberto os antigos arcos de pedra da ponte histórica, as muralhas da cidade e as fundações originais do Forte de São Filipe.
Foi severamente danificada e posteriormente demolida após o aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, por ter funcionado como uma barreira que represou detritos, inundando a baixa da cidade.
Em 2014 no âmbito das grandes obras de reconstrução foi inaugurada a actual ponte (passarela pedonal metálica) e canalização das ribeiras do Funchal decorrentes do aluvião de 2010.
Doze anos depois, servindo a população, passou a partir de hoje a “enfeite” em que a solução mais fácil foi trancar a ponte com portas de ferro.
Aqui fica a história de uma ponte que passou de madeira a pedra e ficou reduzida a pedonal. Aquela travessia na Ribeira de João Gomes guarda a memória das primeiras pontes camarárias e do comércio antigo da ilha. Transformá-la num “enfeite trancado” desrespeita a sua função histórica de ligação urbana.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.









