Num país onde se discute o preço do café e se fazem contas ao cêntimo no supermercado, Portugal prepara-se, com notável consistência, para investir milhares de milhões num dos caças mais caros do planeta. Prioridades são prioridades.
O protagonista desta ambição é o F-35, uma maravilha tecnológica que promete ver tudo, ligar-se a tudo e, sobretudo, custar mais do que tudo. Trata-se de um avião tão avançado que, dizem, consegue fundir dados de sensores em tempo real — uma funcionalidade particularmente útil para acompanhar, ao milímetro, o momento exato em que o orçamento nacional entra em colapso.
Do outro lado da pista está o Saab Gripen, mais barato, europeu, eficiente e, ao que tudo indica, perfeitamente capaz de cumprir as necessidades de um país cuja principal ameaça aérea continua a ser… o atraso de voos comerciais. Mas o Gripen sofre de um problema grave: não é suficientemente caro para impressionar.
A favor do F-35, os entusiastas invocam a famosa furtividade. O avião não é invisível, mas quase. Já o dinheiro investido, esse sim, promete atingir níveis de invisibilidade bastante mais consistentes e duradouros, especialmente quando diluído em contratos, manutenção e “atualizações essenciais” vindas diretamente dos Estados Unidos.
E é aqui que entra o detalhe incómodo: ao comprar F-35, Portugal não compra apenas aviões. Compra também uma relação duradoura com a indústria militar americana, com direito a dependência técnica, software fechado e a ocasional necessidade de pedir autorização para mexer em botões. Tudo isto numa altura em que a previsibilidade política dos EUA é, digamos, uma experiência dinâmica.
Mas não há problema. Afinal, já estamos habituados. Os F-16, que serviram fielmente durante décadas, provaram que Portugal é um aliado exemplar: disponível, cooperante e, acima de tudo, pronto a investir em capacidade militar para missões que, curiosamente, raramente envolvem o próprio território nacional.
Entretanto, cá dentro, persistem pequenos detalhes irrelevantes como serviços públicos sob pressão, salários estagnados e desigualdades sociais. Nada que não se resolva com um caça de quinta geração a sobrevoar o problema a alta velocidade.
No final, a questão mantém-se: precisamos mesmo do F-35 ou apenas gostamos da ideia de o ter? A resposta poderá não estar nos relatórios técnicos nem nas análises estratégicas, mas sim num traço profundamente nacional — a capacidade de aspirar ao topo de gama, mesmo quando o orçamento sugere, com alguma insistência, algo mais… sueco.
A decisão ainda não está fechada, mas uma coisa é certa: seja qual for o desfecho, Portugal continuará a demonstrar ao mundo que, quando se trata de escolhas difíceis, há sempre espaço para optar pela versão mais cara.
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