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Pura e simplesmente o título dum quadro, proveniente de Amsterdão, pintado por Van Gohg em 1885, evocando os pobres trabalhadores de Nuenen, sua terra Natal. Nesta época o pintor revelou ao seu irmão Theo estar interessado em desenhar cabeças, para extrair dos rostos humanos a expressão da sua verdade interior, por oposição aos artistas de tradição holandesa, mais preocupados com a representação dos pormenores exteriores dos seus modelos. A pobreza dos camponeses refletia-se em expressões de rudeza, atónitos uns, outros ensimesmados, outros ainda de faces marcadas pela magreza e pela alienação. Batatas eram a base da alimentação diária ingerida na meia obscuridade dos seus casebres.
Esta introdução vem, por um lado, afastar-me dos assuntos controversos sobre os males que abalam os países, e nos tolhem a confiança nos destinos das sociedades e, por outro, despertar-me para a resiliência e a esperança apesar das suas contradições. Afinal, batatas são um alimento possuidor de boas componentes nutricionais se bem usadas numa dieta equilibrada.
A este propósito, vislumbro, nos anos distantes de algumas viagens, um comboio a sair de Paris, cerca das 12 horas, Gare du Nord, com destino a Auvers-sur-Oise num percurso de pouco mais de uma hora. E uma discreta ansiedade por ir conhecer finalmente o lugar onde um drama, ainda pouco esclarecido judicialmente, pôs fim à vida de um dos grandes pintores de todos os tempos, um homem que sofreu a total ignorância e a rejeição dos seus contemporâneos, com poucas excepções. Um homem a atravessar os campos com um cavalete às costas, posto no meio dos trigais, pintando o seu espanto diante das árvores, a sua alegria diante do sol e dos girassóis, fixando na tela a igreja de Nossa Senhora da Assunpção, torcendo-lhe a pedra, para a tornar um corpo vivo, como quem lhe toca a alma, pareceria, aos olhos do povo rural, nada mais que um louco. Foi assim que sucedeu.
Em frente dos antigos trigais, ergue-se o cemitério onde Van Gohg, ao lado de Théo, seu irmão dedicado, são os únicos cujas campas estão cobertas de hera, um toque de frescura e de vida, junto das restantes, algumas delas abandonadas e jazigos de pedra cinzenta.
Estive lá. Percorri depois uma parte dos campos por um trilho que ia sair no centro da povoação. O silêncio do lugar impressionava e criava um clima de solidão e esquecimento. As ruas de Auver-sur-Oise alongavam-se entre muros de quintas e vivendas sossegadas onde parecia não haver ninguém, embora de vez em quando as plantas verdes e floridas, pendendo dos beirais sobre os caminhos, fossem viçosas e bem cuidadas.
De onde em onde, no piso das ruas, pequenas placas de latão registavam o nome de Vincent, aquele que deixou ali o som dos passos e dos sonhos, numa rotina sofrida para encontrar o âmago das paisagens do sul, que tanto o atraíam e esperava a aceitação dos que o rodeavam e afinal o repudiavam, sem o compreender. Um tributo necessário e comovente, em remissão da injustiça e do desprezo que lhe votaram em vida. Penso que essas placas com o seu nome deverão lá estar ainda.
Demorei-me num dos campos em pousio que dantes terá sido, como conta a história dos quadros de Van Gohg, uma grande extensão de trigo e encontrei entre os restos dos respigos secos, não a palha e os grãos da seara, mas pequenos ramos murchos de batateira e algumas batatas abandonadas. O desaparecimento dos moinhos determinou ao longo dos anos a mudança de plantio e, por fim, os donos do campo transformaram-no num batatal. Era o tempo a repetir o tempo desde a data de «Os comedores de batatas».
De repente criara-se, em tal descoberta, uma ironia velada, como se a memória do pintor surgisse nessa hora, a confirmar uma parte da sua vida passada, antes de partir para o sul. Num impulso de nostalgia e desagravo apanhei dois tubérculos e guardei-os. Trouxe-os comigo para a ilha, como uma espécie de amuleto e plantei-os num vaso que coloquei na varanda da casa acabada de adquirir. Durante um tempo verifiquei que os ventos que se cruzavam na varanda secavam as plantas mais frágeis e eu desisti de alimentar o devaneio.
Os anos sucederam-se até que, recentemente, decidi voltar a pòr água no vaso abandonado e, para espanto meu, logo notei os pequenos pontos verdes que brotavam da terra. As minúsculas batatas dos campos de Auvers ressurgiam e rapidamente se tornaram planta de ornamento que conservo temporariamente entre os cactos, atá que termine o ciclo. Há dois anos que, durante o outono, as batatas se ramificam e reproduzem, de modo espontâneo, e apenas me exigem água e, naturalmente, um especial carinho.
Uma regeneração que me conforta e conservo o facto como panaceia contra o desalento e o descontentamento que me causam o estado do mundo, a indiferença, os ódios e a destruição.
Por entre os meandros dos dramas humanos parece haver, de vez em quando, pequenas chamas que se ateiam e nos convidam a reverenciar a vida e a usufruir do incentivo de algumas memórias.
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