Rabo-de-palha é o nome de uma ave que habita em regiões costeiras. Designa também a extremidade de uma vassoura de palha. Tem, todavia, outro significado com larga representação no universo literário e popular: mancha na reputação de alguém; motivo de censura, crítica ou condenação. Ter um rabo-de-palha é possuir um segredo inflamável. Quem o tem e receia ser descoberto vive na incerteza e pode ser alvo de chantagem.
Como expressão figurada, rabo-de-palha aparece recorrentemente em romances, peças de teatro, crónicas e memórias, sobretudo para indicar mancha na honra, culpa ou medo.
A expressão provém da imagem de um boneco com um rabo feito de palha, passando perto do fogo. Basta uma faísca para tudo se incendiar. Ou seja, quem tem rabo-de-palha corre o risco de se queimar, porque algo oculto e censurável poderá vir a ser descoberto. A mancha comprometedora do passado ou do presente torna as pessoas vulneráveis a críticas, suspeitas ou chantagens. Num confronto, quem tem rabos-de-palha fica nervoso e na defensiva, ao menor sinal de suspeita, porque sabe que pode ser queimado.
Trata-se de uma metáfora associada à hipocrisia e à desconfiança social.
Há um ditado popular que avisa: «Quem tem rabo-de-palha não se chegue ao lume.»

No Cancioneiro Popular Português, diversas quadras aludem aos rabos-de-palha: «Quem tem rabo-de-palha / não vá meter-se em briga; / qualquer faúlha acesa / logo na cauda lhe liga.»; «Quem tem rabo-de-palha, / Não brinque com a candeia, / Que a chama não escolhe / E a culpa logo incendeia.»; «Quem tem rabo-de-palha / não vá à brigalhada, / que qualquer tiçãozinho / lhe põe a cauda queimada.»
Contudo, ninguém é perfeito. Todos erram. No romance ‘Os brilhantes do Brasileiro’, de Camilo Castelo Branco, a personagem Pantaleão Mendes Guimarães, quando se discutia a honra de Fialho Barrosas, proclamou: «A gente se for a dar ouvidos à canalha, está perdida com a sua vida. Um homem tem sempre rabos-de-palha.» (4.ª ed., Lisboa, 1904, p. 30).
Situação diferente é alguém dirigir uma instituição, empresa, autarquia ou governo com receio que se lhe descubram os rabos-de-palha e tentar ocultá-los sem escrúpulos, cedendo a pressões em troca do encobrimento das máculas passadas.
Alguns dirigentes tomam decisões incorrectas, proferem despachos de legalidade duvidosa, servem-se de expedientes atamancados e protelam procedimentos sob pressão de alguns influentes que, com eles, estabelecem alianças firmadas na chantagem ou na cumplicidade. Que temerão esses decisores, dos agentes da impostura?
Quando um dirigente ou autoridade age com receio dos rabos-de-palha que esconde, deixa de ser imparcial, como é seu dever, para não se comprometer ou ser exposto. Assume atitudes e decisões que criam conflitos de interesses, promovem o favoritismo e a corrupção, revelam perda de autoridade, provocam desigualdades e injustiças e originam um ambiente tóxico. A cultura organizacional deteriora-se com medos, desconfianças e jogos de poder.
Quem está preso por rabos-de-palha e tudo faz para os manter ocultos, não tem perfil para dirigente.
O rabo-de-palha do líder torna-se um risco para toda a instituição. Transparência e ética são essenciais para que a lama não a sufoque.
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