Estepilha: travessia “inédita” de canoa Porto Santo-Madeira já o Brete a tinha feito…

 

Rui Marote
Recentemente uma iniciativa meritória propôs-se um objectivo difícil: remar do Porto Santo até à Madeira, numa travessia em canoa tradicional. O Estepilha respeita a coragem dos quatro canoístas que completaram 74 km enfrentando ventos fortes e correntes contrárias durante o percurso.
Porém, sempre atenta, a nossa secção crítico-irónica aponta que querer chamar de “travessia inédita” esta realização é um exagero.
Porque o que não sabem é que a travessia não é inédita e tem até uma história engraçada. Há muitos anos, uma figura castiça do calhau de São Lázaro, conhecido por Miguel Brete, prestava serviços ao Clube Naval do Funchal e pernoitava nas embarcações que fundeavam em frente ao calhau.
Brete tinha familiares no Porto Santo e visitava-os algumas vezes no ano. Segundo se conta, numa dessas deslocações não chegou a tempo de regressar ao Funchal  num dos carreireiros que nesse tempo asseguravam as ligações com a ilha vizinha.
Este lobo do mar aventureiro resolveu então fazer a travessia até o Funchal numa canoa a remos. Terá sido em finais dos anos 50. Ao chegar ao Funchal  teve uma surpresa: em vez de lhe darem os parabéns, foi preso, por lhe faltar a documentação autorizando tal navegação.
O então todo-poderoso e icónico “Deus da Beira Mar “, o chamado “Cabo de Mar” (hoje Polícia Marítima) não perdoou.
Nos anos 50 e 60 as travessias entre o Porto Santo e a Madeira eram altamente vigiadas pelas autoridades marítimas, devido ao contrabando e à falta de segurança das embarcações.
A  detenção do “Brete” acabou por se tornar uma peripécia folclórica na memória colectiva madeirense, ilustrando o contraste entre a audácia quase mítica do navegador solitário e o rigor burocrático das autoridades marítimas de então.
Foi precisamente para resgatar a memória desse tipo de navegação livre tradicional que os quatro atletas realizaram a travessia controlada e autorizada da última sexta feira. Mas chamar de inédita é como “chover no molhado”.
Como diz o Eclesiastes 1:9: “O que foi voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra vez; não existe nada de novo debaixo do sol.”
Este versículo é o resumo  sobre a natureza cíclica da vida. A história e os acontecimentos repetem-se constantemente. As nossas criações e experiências não são tão inéditas como pensamos.

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