Ficar ou sair (da ilha)? Um dilema geracional

A desafiante decisão de permanecer/residir na Região Autónoma da Madeira ou emigrar em busca de novas e melhores oportunidades tornou‑se, para muitos jovens madeirenses e porto-santenses (e não só), mais do que uma escolha individual: é um dilema geracional que atravessa famílias, sítios, freguesias e autarquias, em suma, toda uma comunidade. A questão é complexa e não se resume à geografia; envolve políticas públicas, condições económico-financeiras, expectativas profissionais e, sobretudo, a capacidade de cada jovem projetar um futuro digno e realizável.

A Madeira, arquipélago português e europeu dotado de uma autonomia política, administrativa, financeira, económica e fiscal tem beneficiado de resoluções políticas que, ao longo das últimas décadas, favoreceram sobretudo quem já se encontra “dentro do sistema”. Para quem trabalha diariamente com jovens – especialmente aqueles que estudam e concluem o ensino secundário – esta realidade é deveras evidente. Muitos estudantes, ao atingirem a maioridade, descobrem que a prossecução dos seus estudos (e projetos esboçados no horizonte) dependem quase inevitavelmente da saída da Região. A oferta formativa local é limitada e não acompanha a diversidade de áreas científicas e técnicas que caracterizam a geração atual, frequentemente descrita como “a mais diplomada de sempre”. Assim, muitos que ambicionam seguir carreiras em áreas como engenharia, investigação científica, artes performativas, direito ou relações internacionais… veem‑se compelidos a procurar instituições de ensino superior no continente nacional ou além-fronteiras. Contudo, o problema não se esgota na procura de formação académica.

Para além de pequeno, o mercado de emprego madeirense permanece circunscrito a um grupo restrito, está fortemente dependente do empregador Estado e do setor do Turismo, este último marcado por alguma precariedade laboral, baixos salários e escassas oportunidades de progressão. Profissionais qualificados – como enfermeiros, engenheiros, arquitetos, jornalistas, professores, técnicos especializados – relatam, frequentemente, a dificuldade em encontrar empregos que valorizem o seu percurso académico e que lhes permitam construir um projeto de vida ‘sustentável’. Vários acabam por aceitar estágios não remunerados, contratos temporários ou vencimentos que rondam pouco mais do que mil euros mensais, valores manifestamente insuficientes para garantirem uma autonomia financeira e familiar.

A este cenário junta‑se o custo de vida elevado. A insularidade implica dependência de transportes marítimos e aéreos, o que fatalmente encarece os bens essenciais e limita a mobilidade, sobretudo quando se aprova um modelo de apoio que já deu provas de não servir os interesses dos residentes. As deslocações para o continente, necessárias para quem estuda ou trabalha fora, representam um peso financeiro bem expressivo. A habitação, por sua vez, tornou‑se num dos maiores obstáculos à fixação de jovens na Região (toda a ilha, mas particularmente o Funchal, consolidou-se como um destino privilegiado no mercado imobiliário de luxo e, a título de exemplo, hoje o arrendamento de um apartamento T1 no centro da cidade pode custar entre 1.000 e 1.600 euros mensais, enquanto um T3 varia entre 1.500 e 3.000 euros. Invariavelmente, o crescimento do alojamento local e a pressão turística contribuíram para a subida acentuada dos preços, tornando praticamente impossível a emancipação de quem aufere salários baixos ou empregos precários. Não surpreende, portanto, que muitos jovens permaneçam na casa dos pais ou regressem a ela após tentativas falhadas de “autonomia”.

Apesar das adversidades descritas, a Madeira oferece vantagens inegáveis: uma beleza natural invejável, um clima ameno (“semitropical”) durante todo o ano, níveis consideráveis de segurança, qualidade ambiental (com a célebre floresta Laurissilva que é uma relíquia viva com cerca de 20 milhões de anos e Património Mundial da Unesco) e um estilo de vida mais tranquilo. Para alguns, tais fatores constituem argumentos suficientes para permanecer. Contudo, para outros, sobretudo aqueles que ambicionam carreiras competitivas, contacto com novas ideias e experiências internacionais, a ilha revela‑se pequena e limitadora. A sensação de isolamento geográfico, embora subjetiva, é frequentemente apontada como um fator que condiciona o desenvolvimento pessoal, familiar e profissional.

O testemunho de muitos alunos que terminam o ensino secundário confirma esta tendência: mais de 80% dos jovens finalistas ponderam sair da Região, seja para estudar, seja para trabalhar. Alguns já o fizeram, estabelecendo‑se inclusive noutros países europeus, mas também noutros continentes. São jovens formados em Portugal, preparados para contribuir para o desenvolvimento regional e nacional, mas que não encontram na Madeira condições para concretizar os seus projetos de vida. A contradição é evidente: forma-se uma geração extraordinariamente bem qualificada que, por falta de oportunidades, acaba por reforçar o fenómeno da emigração jovem. (Novos – e para muitos – adversos tempos.)

Ora, perante o contexto aqui esboçado, importa então questionar: a Região Autónoma da Madeira é (ainda) uma região para jovens? A resposta a esta questão, embora complexa, pode residir na palavra “sonho”, mas a decisão entre ficar ou sair na(s) ilha(s) não deve ser romantizada nem dramatizada. Deve, antes, ser analisada com abundante lucidez. Permanecer na ilha da Madeira pode ser uma escolha válida para quem privilegia estabilidade, proximidade familiar e qualidade de vida. Sair/emigrar é opção imprescindível para quem procura crescimento profissional, diversidade cultural e horizontes mais ‘amplos’, por outras palavras, desafios transformadores. O essencial é que a escolha seja livre, informada e respeitada – e que a Região, enquanto território insular com autonomia política reconheça a urgência de criar todas as condições que permitam aos jovens não apenas sonhar, mas sobretudo concretizar os (seus) sonhos sem terem de partir.

A Madeira continuará a ser um lugar de afetos, memórias e identidade. Mas só será verdadeiramente uma Região para os jovens (e não só) quando estes puderem escolher livremente ficar, não por falta de alternativas, mas porque encontram na (bela) ilha um futuro possível, digno e promissor!

 


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