“Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça” Fernando Pessoa, trecho de “Carta a Mário de Sá Carneiro” 1915
O nosso encontro com a Comunidade Madeirense na África do Sul será composto por três partes: I – EMIGRAÇÃO; II – IMIGRAÇÃO e III – ANÁLISE E CONSEQUÊNCIAS.
O Capítulo mais trabalhoso será, porventura, este, o primeiro: Porque fomos (?); quais foram os que saíram, de onde eram naturais, em que cidades se fixaram, o que os esperavam, o que encontraram e como seguiram viagem; quer nos longos braços do mar; quer nas asas dos pássaros grandes pelo céu infinito. Afinal, de que sonhos eram feitos!
Outrora – tal como hoje, em que de todos os aeroportos de todas as capitais europeias partem aviões para rasgar o céu da noite de África e aterrarem na madrugada seguinte nos aeroportos internacionais da África do Sul – assim zarpavam, dos mais importantes portos do Velho Continente, navios com destino às Africas – Ocidental e Oriental -passando pelo Cabo da Boa Esperança. É desse movimento, dessa humanidade que “calcorreava” o mar que vos falarei nestes singelos textos.
No dia 27 de janeiro de 1851 chegou à cidade do Cabo o primeiro navio regular de passageiros, o vapor BOSPHORUS que saíra de Plymouth no dia 18 de dezembro de 1850. Comandado pelo Capitão J.V.Hall . Atracou na Madeira, pela primeira e única vez, com 16 passageiros a bordo com destino à África do Sul, no dia 24 de dezembro, rumou à Serra Leoa, onde chegou no dia 4 de janeiro seguinte e, finalmente, pôde avistar o sonho de qualquer navegante o TABLE MOUNTAIN da belíssima cidade do Cabo. No regresso à Inglaterra fez, de novo, uma paragem na Serra Leoa, outra em São Vicente e voltou a Plymuoth no dia 12 de março de 1851.
A partir dessa data, mais de 340 navios de importantes companhias de navegação tornaram-se assíduos visitantes da África do Sul. Diariamente, chegavam ou dobravam o Cabo das Tormentas, navios de todos os tipos. Esse movimento incessante, dos iniciais SCOT e CARISBROOK CASTLE e dos navios pertencentes à companhia BANK LINE (FORT SALISBURY, BULUWANY e JOHANNESBURG) e de outros importantes armadores (que comentaremos no desenrolar destes textos) até aos navios portugueses (que apresentaremos mais tarde) e que se mantiveram até à era dos aviões. É dessa aventura que falaremos; – “de barcos, de gentes e de portos “[frase do poster que existia no gabinete do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso]. De navios a vapor, a motor a diesel (como o SECOND GUJARAT, ou do SECOND KATHIAWAR) dos mais rápidos, aos mais luxuosos, enfim, desses, mas, particularmente dos que fizeram a História do meu Povo. Iremos falando à medida que formos escrevendo e apreendendo mutuamente.
Quem viaja pelo coração “aguado” dos navios viaja pelo História dos países, das guerras, das economias, viaja pela inquietude humana que não se compadece com a quietude dos dias antes procura a tal “Terra Prometida” que mana leite e mel e que é imaginada por qualquer um de nós.
Com a ajuda de David Hughes e de Peter Humpries “In South African Waters ,Passager Liners Since 1930 “; com o apoio do Dr. Dimas Almada que me emprestou o livro e tanto do seu saber e com a minha modesta pesquisa vamos juntos, os que me leem e eu próprio , ou os que foram e os que ficaram, contar a História feita de “estórias”, de relatos, feita do que imaginamos ter sido o fio condutor que ligou a Madeira à África do Sul e que nos mantem ligados na gaveta da memória de dois Povos amigos.
As principais companhias mercantes no trânsito para a África do Sul e os principais navios foram as seguintes:
– BANK LINE [Johannesburg; Buluwayo; Fort Salisbury; [Kathiawar; Sats General Botha; Gujarat; Isipingo]
– BLUE FUNNEL LINE [Aeneas; Anchises: Ascanius; Nestor; Hector; Peleus; Pátrocles; Helenus; Perseus]
– BRITISH INDIA LINE [Karanja; Tairea; Kenya; keran; Amra; Aska; Aronda; Uganda]
– COMPANHIA COLONIAL DE NAVEGAÇÃO [João Belo; Colonial: Mouzinho; Pátria; Infante Dom Henrique]
– COMPANHIA NACIONAL DE NAVEGAÇÃO [Lourenço Marques; Nyassa; Angola; Quanza; Moçambique; Príncipe Perfeito]
– ELDER DEMPSTER LINE [Calabar]
– ELLERMAN LINES [City of London;City of Paris ;City of Marseilles; City of Exeter ;City of Cairo ;City of Baroda ;City of Simla; City of Nagpur; City of Canterbuty ; City of Venice ; City of Hong Kong ;City of Benares; CIty of Port Elizabeth]
– FARRELL LINES [City of New York]
– GERMAN AFRICA LINES [Toledo; Kigoma ;Wangoni;Ussakuma;Wahehe ;Usambara ;Tanganjika ;Watussi;Winddhuk;Empire Doon]
– HOLLAND AFRICA LINE [Meliskerk ; Randontein :Boschfontein ; Bloemfontein ;Jagersfontein ;Randfontein]
– LLOYD TRIESTINO LINE [Maiella; Perla; Sistiana; Leme; Piave; Rosandra; Gerusalleme ;Giulio Cessare ; Duilio ; Toscana ;Timavo ;Europa]
– NATAL LINE [Umvoti;Umona ;Umvuma ;Umgeni]
– THE NETHERLANDS GOVERNMENT [Zuiderkruis; Groote Beer ;Waterman]
– OSAKA SHOSEN KAISHA [Hawaii Maru; Arizona Maru; Africa Maru; Arabia Maru; La Plata Maru; Montevideo Maru; Santos Maru; Buenos Aires Maru; Rio de Janeiro Maru; Argentina Maru; Manila Maru]
– ROYAL INTEROCEAN LINES [Houtman ;Barentz ;Roggeveen ; Tasman ; Tjisadane ; Tjithalengka ; Ruys ; Boissevain ;Straat Banka ; Tjinegara ]
– SHAW SAVILL AND ALBION LINE [Thermistocles ; Ceramic ;Akarioa ; Mataroa ; Tamaroa ;Arawa : Dominion Monarch ; Gotic ; Southern Cross ;Aranda ; Northern Star ;Souyhern Cross ]
– SOUTH AFRICA MARINE COOPERATION [SA Orange; SA Vaal]
E
– UNION-CASTLE LINE[Armadale Castle ; Kenilwoth Castle ;Dunluce Castle ;Durham Castle ; Dover Castle ; Balmoral Castle ; Edimburg Castle ; Garth Castle ; Grantully Castle ;Guildford Castle ; Gloucer ; Llanstephan Castle ;Llandovery Castle ; Arundel Castle ;Windsor Castle ;Carnarvon Castle ; Llandaff Castle ;Llandovery Castle ;Llangibby Castle ; Winchester Castle ; Warwick Castle ;Dunbar Castle ;Athlone Castle ; Stirling Castle ; Dunnottar Castle ; Dunvegan Castle ; Capetown Castle ;Durban Castle ; Pretoria Castle ;Bloemfontein Castle ; Kenya Castle ;Rhodesia CastleKlipfontein;Braemar Castle ; Pendennis Castle ; Windsor Castle]
Nesta visão geral (mas em síntese) de navios com destino ou com passagem pela África do Sul: – uns comprados; outros rebatizados; outros vendidos; uns bombardeados nas duas Guerras Mundiais; outros abatidos; outros transformados em navios-hospital e ainda outros em navios alugados ou requisitados pelos governos para transporte de tropas podemos ter uma ideia da enorme “teia” de interesses que circulavam entre os dois Oceanos a sul e nas duas costas de África, respetivamente o Atlântico e o Índico .
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