Um conselho de Sherlock Holmes

No filme Enola Holmes (2020), o detective Sherlock Holmes dá um conselho astuto à irmã adolescente, que procurava o paradeiro da mãe e tentava desvendar o caso de um lorde fugitivo. Disse-lhe: «Às vezes, temos de pôr os pés na água para atrair os tubarões.»

Se, no contexto da investigação de um detective, esta máxima tem significado particular para obter informações e provas de violação da lei, em outros domínios poderá ser também aplicada.

Na actualidade, quase não há jornalismo de investigação na Madeira. A imprensa limita-se, a maioria das vezes, a uma agenda, com largos contributos do Governo Regional e das Câmaras Municipais, reproduzindo, com frequência, textos elaborados nos gabinetes de comunicação desses órgãos de poder. A opinião é alimentada por alguns destacados colaboradores e editoriais. Há quem escreva regularmente sem opinião, preenchendo as colunas que lhe são disponibilizadas, sem despertar o interesse dos leitores. Outros há que ali promovem vaidades ou frustrações, num desperdício de tinta e papel.

Diversas razões podem explicar a ausência da investigação nos jornais locais. Não é, por certo, por inércia ou incompetência dos jornalistas. Muitos já deram provas de que sabem fazer, e bem. Pesará muito mais o facto de o território ter dimensões reduzidas, onde operam conhecidos, dos quais dependem os seus parentes, o poder ser tentacular e os proprietários dos órgãos da imprensa usarem discretamente da sua autoridade, para impedir qualquer veleidade perturbadora dos seus negócios ou das suas ligações ao aparelho governativo.

Hoje circulam muitas notícias, reais e falsas, divulgadas em canais muito próximos dos cidadãos, que já não dependem, em termos informativos, da imprensa. As tiragens diminuíram. Vendem-se menos exemplares. Há empresas em risco de falência. Um empresário queixa-se por ter sido incentivado a investir na área. Às claras e às escondidas, sai dinheiro do erário público para a imprensa.

Muitos jornalistas manifestam-se contra as redes sociais. Alguns demonstram até um irracional rancor. Mas não ousam fazer diferente, para cativar leitores e assinantes, porque não lhes é permitido ou não lhes interessa. Compreende-se que a garantia de um salário é indispensável. Não se pode correr riscos, quando está em jogo a sobrevivência. Mas daí até se prestarem a fretes, vai uma distância grande.

A existência de plataformas, onde as publicações resultam de denúncias anónimas, revela, em primeiro lugar, que há riscos para quem pretende transmitir informações credíveis e de interesse para o bem público, e, em segundo, que emitir livremente uma opinião é também perigoso na nossa sociedade. Qualquer crítica objectiva é tomada como calúnia ou difamação, como se não houvesse direito à liberdade de expressão.

O anonimato vai funcionando como fonte de informações preciosas para algumas instituições, como é o caso do Ministério Público. Mas serve também para veicular uma opinião livre, numa sociedade demasiado controlada.

Alguns jornalistas e comentadores têm zurzido nos projectos digitais de opinião. Quem conhece um pouco de História, sabe que, durante décadas, muitos artigos da imprensa eram anónimos, assinados por pseudónimos ou com iniciais, difíceis de identificar. Perante obstáculos, foi assim que a imprensa sobreviveu e a opinião pública impôs-se, principalmente quando a democracia ainda não existia ou era muito limitada, e assinar constituía um risco.

No romance ‘O Crime do Padre Amaro’ (1880), Eça de Queirós descreve um episódio elucidativo do temor e perigo de opinar livremente, mesmo sobre factos reais presenciados pelo autor do texto.

João Eduardo, incitado pelo redactor da ‘Voz do Distrito’, publicação hostil ao governador civil de Leiria, acabou por escrever uma desanda aos podres dos padres da terra. Contudo, pelas circunstâncias do meio e o tema abordado, não queria que o texto saísse com o seu nome. Numa primeira hipótese, o redactor sugeriu que fosse publicado como «artigo da Redacção».

Todavia, o cabecilha do grupo, que sustentava o periódico, resolveu de outra forma, com a anuência do redactor. Foi publicado como Comunicado e, para fazer jus ao género e não dar azo ao direito de resposta, decidiram alterar o fecho para: Cuidado, sotainas negras! Em vez de Alerta, mães de família! Assinava: Um liberal.

O ‘liberal’ foi identificado e marginalizado. A ‘Voz do Distrito’ fechou-lhe as portas. Mesmo anónimo, a sociedade e um pequeno grupo de padres católicos corruptos conseguiram sufocar a imprensa da sua cidade e humilhar João Eduardo.

Embora corra o risco de desencadear a costumada reação corporativa, considero que a nossa imprensa, sob ameaça de sucumbir, precisa, e muito, do jornalismo de investigação, de «pôr os pés na água para atrair os tubarões». Os leitores gostam de ver publicados, com provas, os podres que eles sabem, suspeitam ou ouviram falar e que a Justiça desconhece.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.