“Palavras, para que as quero?” por Irene Lucília Andrade

Estou perante um cenário vazio. Quando as nuvens espessas descem sobre as serras que avisto da varanda, a ilha deixa de existir por detrás duma brancura aflita. Aquele enquadramento que a janela permite sobre a paisagem mostra-me um rectângulo branco que eu identifico com a página do «word» onde me debruço em busca de palavras, como quem procura o mundo desaparecido. Que mundo?

Esta é a questão. O estado do nosso envolvimento é pesado, cruel, ameaçador. Não podemos disfarçar a mágoa e a raiva, quando uma palavra hedionda ronda a nossa vida, pronta a explodir, a ofuscar os sonhos, a enegrecer a esperança, que a crença na Natureza tornou verde, a demolir as cidades que se tornaram cor de cinza, a saturar o nosso espírito com o espectro álgido da morte. Definitivamente vou riscar do meu vocabulário a palavra «guerra».

É com palavras que penso, é com palavras que vivo e, sendo assim , falarei delas, daquelas que me confortam, ou redimem ou me agitam e inquietam no melhor sentido da necessidade da resistência. Decidi hoje compor este texto com frases já anteriormente escritas no livro «Um lugar para os dias» que publiquei em 2013. Há onze anos as palavras inquietavam-me e, já muito antes disso, sempre precisei delas para procurar entender o mundo, e o que faço aqui. Não cheguei nunca a nenhuma conclusão, mas ganhei uma espécie de consciência do efémero, que é um dos remédios contra a fobia do ter, em benefício da mais valia do ser.

«Escrevo não porque saiba das coisas, mas para procurar sabe-las» Esta asserção não é minha, mas responde ao que eu pergunto. Então, há onze anos escrevi: «…Procuro fazer da escrita uma maneira de abordar alguns fenómenos e tento encontrar neles qualquer coisa que não sei o que é, mas qualquer surpresa me reserva. Essa surpresa ainda que não se revele, plasma-se na mesma escrita, a escrita é a miragem, a surpresa, a escrita é o próprio fenómeno.

Várias vezes me detenho sobre esses traços que me apelam e repelem, me acolhem e fustigam, me adoçam e exasperam, numa mistura de deleites e estremecimentos, teimosia de querer segurar a vida com uma espécie de avidez insubordinada, de
maneira a extrair dela matéria moldável que a meu modo transforme e da qual faça motivo para as minhas alucinações diárias. Escrevo os dias e as noites. As horas, os minutos.

O que observo sob o sol e a lua ou por detrás das nuvens, por dentro dos ventos e do tempo. Aquém e além da lágrima, à revelia da dor, ao deslumbre do riso, ao abrigo duma pequena página branca, construído sobre ela uma parede de palavras como se fosse uma casa, um lugar onde organizo as várias versões da minha própria história, onde encho sótãos à maneira de imaginários, espaços onde alojo atavismos, provocações, dúvidas, lampejos, ironias e outras contingências. Desnudo as palavras e, à medida que preencho a página branca, é como se as nuvens que cobrem a paisagem das serras se evolassem e eu pudesse então ver o mundo.

É quando «me pergunto, olhando -me de fora, que estatuto é o meu frente aos miríades de seres, atmosferas e astros, à transcendência do espirito que não se define nem se limita, a que poderes posso eu aceder perante a legitimidade, ou não, dos conflitos organizados, a violência
da ambição, os contenciosos da miséria, a prepotência das dominações, as carências do amor, frente aos riscos da alma, no desamparo da ignorância, no orgulho de toda a exaltação, nas euforias da alegria e no desamparo dos deslumbramentos?».

É então que a escrita me socorre como regeneradora das fragilidades e activadora de novas e salutares vibrações.

A escrita, onde algumas palavras saturadas e omniosas me abrem um caminho de resistência e me obrigam necessariamente a mudar de direcção.

Texto por: Irene Lucília Andrade


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