Carros de bois

Já não posso com a pandemia. Nem ler ou sequer ouvir falar disso.

Por isso, hoje vou-vos falar dos carros de bois que, outrora, passeavam na Avenida da Mar.

Desengane-se, pois, quem pensou que vinha para aqui falar das escolas no Continente. Num belo dia, era o sítio mais seguro para as crianças, uns dias depois já talvez não fosse. Que seria melhor testar as crianças. Que talvez fosse melhor fechar a partir do 7.º ano. Para no dia seguinte fechar tudo.

Até se consegue entender, porque tudo depende da evolução da epidemia. Da sua perceção e pressões socais. O que não se entende, de todo, é a outra parte. A “pausa letiva” – atente-se nas aspas – de quinze dias. Quando todos víamos que não era uma pausa. E que não seria de quinze dias.

O que se percebeu foi que, desta forma desastrada e desastrosa, se quis disfarçar a falta de preparação e que, afinal, não tinham chegado os tais computadores que, como prometia António Costa em Abril passado, todos os alunos iam ter já em Setembro, “aconteça o que acontecer”. Não aconteceu. Quando se sabia a imensa probabilidade de voltarem ao ensino à distância e de terem dez meses para se preparar.

Pior ainda. A ideia obtusa de Tiago Brandão Rodrigues de proibir que algumas escolas continuassem a lecionar ou acompanhar os seus alunos. Uns não podem fazer, porque não têm meios, então ninguém faz. Nada como nivelar pela mediocridade. Mas afinal até nem foi isso que ele disse, como se lembrou de esclarecer uma semana depois, depois de Costa vir explicar, na Quadratura do Círculo, que obviamente não era disso que se tratava. Triste coisa quando um primeiro-ministro explica a um ministro o que ele, afinal, queria dizer.

Mas não é disso que vou falar. Arre! Estou aqui para falar dos carros de bois da minha infância.

Porque se fosse para isso, não poderia calar-me com a história das vacinas. As dificuldades que está a ter a Comissão Europeia com as entregas agendadas das vacinas, que até fez Ursula Von der Leyen deitar as garras de fora, fazem-me agradecer todos os dias estarmos numa União Europeia que decidiu ir mais além. No financiamento, na negociação e na organização. Já pararam para imaginar, por um momento, cada país por si? Que poder negocial teria Portugal? Quando e a que custo nos chegaria a esperança em frasco?

E teria de, necessariamente, falar dos que furam o sistema ou aproveitam-se da sua fragilidade para se vacinarem primeiro. Se alguns fazem-no por puro chico-espertismo, outros tantos dizem que sobravam doses. Ou ainda que as diretrizes não são claras. O que não seria de espantar. Temos um plano de vacinação que avança e recua. Primeiro exclui os maiores de 80 anos, ao arrepio do definido pela União Europeia, e todos os titulares de cargos políticos, ao arrepio do bom senso.  A seguir emenda a mão e excede-se, nas palavras de Rui Rio que, entretanto, acordou para a vida, e passa a incluir quase tudo o que era detentor de cargo político e se mexe. Só faltavam os assistentes dos assessores dos adjuntos. Tudo transmitido por aquele senhor da voz monocórdica que me adormece.

Não é disto que precisamos, mas de um plano com os grupos prioritários adequadamente definidos, um plano claro, bem gerido e bem supervisionado. Precisamos de transparência e informação. Urgentemente.

Mas voltando aos carros de bois. E sem me desviar do assunto. Concentrada. Porque se me distraio a pensar em carros, vou pensar em ambulâncias.

Se penso em ambulâncias penso na tristeza das filas à porta dos Hospitais. Que desespero. Que pavor ver aquilo acontecer aos nossos. Os doentes nas macas, com dores, ansiosos, com medo. Os bombeiros exaustos, com fome. Horas a fio.

Para depois, de repente, deixar de acontecer. Porque, afinal, até nem eram prioritários e não deveriam estar ali. Como se a culpa fosse deles. Não é. A culpa é de quem não sabe gerir. Sinceramente não me admira. Há uns tempos vi um vídeo de um administrador de um grande hospital de Lisboa que mostrava como ia sendo atualizada a informação do número de camas disponíveis. Numa folha Excel. Sim, numa folha Excel. Até uma infoexcluída como eu tem noção que o Excel não é tecnologia de ponta entre os inúmeros programas de gestão hospitalar. Assim vai o desinvestimento em Portugal sobre a égide da esquerda. Nem na altura da Troika se investiu tão pouco na Saúde.

Mas é melhor parar por aqui as críticas, não vá Marta Temido vir dizer que o que estou a fazer é criminoso, como disse na semana passada acerca dos que criticam a sua gestão.

Com toda a honestidade, o que vejo de criminoso é outra coisa. O que é criminoso é morrerem tantos portugueses, dia após dia, num desfile de números aterradores. O que é criminoso é já terem morrido mais portugueses às mãos da COVID do que em treze anos de Guerra do Ultramar. Se tivessem morrido diariamente 300 pessoas além-mar, o Estado Novo teria caído mais cedo, tal seria a insurgência popular.

E se há uns tempos dizia que a culpa não é do Governo Regional, também não posso dizer, a bem da coerência, que o número de infetados e de mortos é culpa do Governo Nacional. Mas a má gestão, as decisões péssimas ou ausentes, a falta de preparação e o desinvestimento é. O que chamo de síndrome António Costa, decidir mal e esperar que corra tudo bem. Mas até ele já veio dizer que as coisas estão a correr muito mal. Que houve erros. Mas sempre sem admitir culpa, claro. Talvez o Boris Jhonson pudesse dar-lhe umas aulas de como assumir as consequências da responsabilidade governativa.

Eu queria falar dos carros de bois. Queria. Queria dizer que, apesar de malcheirosos, me lembram as nossas tradições e que eram característicos dos nossos hábitos e das nossas gentes. Que tenho pena que tenham de desaparecido e que poderiam ser, em determinadas circunstâncias, uma atração turística interessante. Queria.

Mas depois de ver o nosso Portugal tão mal, o pior do mundo em casos diários e número de mortes por milhão de habitantes, tão mal que até teve de ser inventado um novo vermelho escuro para o classificar, depois disto, até me falta o ânimo para falar de bois.

Só consigo chamá-los pelos nomes.