O ataque ao Capitólio apoiado por católicos

O ataque do bando de foliões ao Capitólio estadunidense tratou-se de uma farsa que poderia ter resultados bem mais graves do que aqueles que se verificaram. Embora não seja de somenos terem resultado avultados estragos do património público, vários feridos e cinco mortos. É óbvio que coisas destas são sempre graves.

Porém, o que me traz aqui para pensar este assunto prende-se com as denúncias que estão a ser feitas por todo o mundo, de que esta invasão tem por detrás sérios apoios do mundo católico dos Estados Unidos e não só. Por exemplo, já vi títulos do género: «Como as lideranças católicas ajudaram a dar origem à violência no Capitólio dos EUA»; «O trumpismo se infiltrou na Igreja Católica dos Estados Unidos»; «Negacionistas. A mentira do golpe no Capitólio: católicos de direita em defesa do amado Donald»; «O motim católico e aqueles que o apoiam».

Devemos salvaguardar que a maioria da Igreja Católica dos Estados Unidos e a Igreja Universal, à cabeça o Papa Francisco, estão contra esta invasão e contra todas as formas de violência. Aliás, devemos lembrar que o Papa foi dos primeiros líderes a alertar para o perigo do trumpismo.

E perigoso é que alguns católicos, os chamamos integristas e conservadores, juntamente com movimentos religiosos de cariz pentecostal andem a patrocinar estas lideranças de extrema direita inspiradas no populismo, que propala o discurso da repulsa e ódio pelo estrangeiro, pelos mais pobres e frágeis das sociedades. O discurso da prevalência da raça branca e do nacionalismo fechado ganha adeptos em todo o mundo.

Daí ser importante olharmos estes apoios à invasão do Capitólio não apenas como um ataque à democracia e às suas instituições, mas também como uma forma camuflada de fazer valer um desejo de que a Igreja Católica continue num determinado reduto, que não alinhe com a pastoral universalmente inclusiva («ninguém fica de fora») do Papa Francisco à luz do Evangelho. Por conseguinte, os apoios que algumas alas católicas fazem questão de manifestar a favor de lideranças conservadoras e integristas, são uma forma velada de se mostrar contra o Papa Francisco, contra a sua pastoral inclusiva e contra as suas reformas.

O que está em causa é então o desejo de que estes líderes populistas e autoritários emergentes façam ressuscitar a herança cristã ocidental. Por isso, anda há muito boa gente a alimentar a ideia de uma Igreja Católica «auto-referencial», onde cabem apenas os clericalismos e a acomodação de uma elite privilegiada. Não há lugar para a evangelização que permita o questionamento próprio, mas unicamente estratégias de resistência contra tudo aquilo que eventualmente desafie para um renascimento espiritual e uma acção pastoral nova sobre a realidade do mundo que passa sob o vento da novidade constante. Por isso, o pensador uruguaio Alberto Methol Ferré disse: «o integralista não questiona a modernidade, vê-a, isso sim, da mesma perspectiva iluminista – mas de um modo desfavorável».

Esta igreja católica que apoia a invasão do Capitólio, ama Trump, admira o discurso de André Ventura e outros populistas por esse mundo fora, está deslocada do centro da sua acção evangelizadora, o Evangelho. Neste sentido, sou levado a dizer que não posso pertencer a uma ala da Igreja que abandonou as parábolas essenciais do Evangelho, do Bom Samaritano, do Filho Pródigo, do Bom Pastor… Onde se descobre um Jesus que está no meio dos pecadores e dos mais frágeis, porque não veio ao mundo para os que têm saúde mas para os doentes, não para os «bonzinhos», mas para os ditos «rebeldes» que não entraram para dentro da caixa do comodismo auto-referencial do clericalismo.

Não posso pertencer a uma certa Igreja que apoia a violência, o discurso racista e xenófobo porque quer protestar contra todos estes que andam na política há tantos anos e que só querem é roubar, alimentar a corrupção e outras patifarias que a democracia permite. Embora cada um por si, não se iniba de dizer que se tivesse lá fazia o mesmo. É contra estes cristãos que me indigno e que recuso confessar a fé que eles dizem ser a verdadeira fé.

Está claro que nenhuma forma de violência é justificável. Não me posso sentir bem dentro de uma ala da Igreja Católica que prefira antes o sacrifício à misericórdia, o apedrejamento da mulher adúltera ao perdão, o castigo à compaixão, os ricos que distribuem esmolas aos pobres no lugar de praticarem a justiça, as pompas ritualistas das celebrações ao Jesus de Nazaré, o Filho do carpinteiro que nasceu num curral de animais porque não tinha lugar para Ele e vestia uma simples túnica e calçava sandálias ou andava descalço.

Não me quero ver centrado em normas e protocolos. É preciso recusar esse estilo que depois recorre à exclusão, à violência e ao ódio contra o que não encaixa no pensamento único e na hermenêutica do fechamento dos salvos contra os infiéis que não alinham connosco. Também não alinho com a ideia de que é preciso distribuir raios sobre os galhos secos da raiva, porque o que é preciso fazer é o que Jesus fazia, que ponha os cegos a ver, os coxos a andar e a salvação é anunciada aos pobres.

Não pode sonhar a Igreja Católica levada a sério pelo Papa Francisco vir a se refastelar em faustos banquetes litúrgicos como um espectáculo de circo, quando o pobre Lázaro tem apenas as lambidelas dos cães.

É uma vergonha saber que anda uma porção grande da Igreja Católica a sonhar com tempos que já se foram e que isso lhes serve para apoiarem ideias absurdas que violam os elementares Direitos Humanos, a dignidade humana, a liberdade e os direito a ser gente como toda a gente seja lá como for e tenha a cultura ou raça que tiver. Não posso crer que estejamos a perder o horizonte da «Fratelli Tutti» (a fraternidade universal) e que andemos ainda mergulhados na loucura de querer salvar uma organização menosprezando ou esquecendo deliberadamente a salvação do Povo de Deus.