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No 1º de Maio em Portugal, como em muitos países por este globo fora, assinala-se o Dia do Trabalhador. Dia esse que tem como objectivo primordial assinalar o esforço de todos os trabalhadores, reconhecendo o impacto que esta força de trabalho tem nos indicadores económicos, financeiros e sociais do nosso país. São estes o motor, a alma, a perseverança, a esperança e a garra de toda uma nação.
Neste dia, habitualmente surgem grandes concentrações de pessoas pelas ruas do país, as centrais sindicais CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical) e UGT (União Geral dos Trabalhadores) tem por hábito assinalar esta data nas ruas, com os seus membros, com o seu povo, de forma a tornar as suas reivindicações mais audíveis, mais presentes, mais expressivas e mais impactantes. É a forma que normalmente escolhem para passar as suas mensagens, para dar expressão à sua voz, para dar corpo às suas reivindicações e para fazer chegar essa mensagem a um país, a um governo, a toda uma nação.
Em pleno estado de emergência o 1º de Maio deste ano chegou. Chegou porque não havia forma de o fazer esquecer, de passar por cima ou de ignorar a sua existência. A meu ver, esta é uma data que não poderia ser apagada do calendário pelo seu peso cultural, mas que todos tinham a responsabilidade de a assinalar de forma segura, responsável, coerente, consistente e sobretudo pesando todo o esforço que tem vindo a ser pedido e feito por todos nós em relação ao combate da pandemia do covid-19.
Contextualizando, temos que Portugal iniciou o seu primeiro estado de emergência no dia 18 de Março de 2020, nesse primeiro decreto foi-nos restringido liberdades e garantias inscritas na constituição portuguesa. Foi-nos pedido a todos que ficássemos em casa, que as deslocações fossem limitadas ao indispensável, que os profissionais de saúde, forças de segurança e sectores fulcrais da actividade económica pudessem sair com todas as regras de segurança e distanciamento social necessários. Escolas foram fechadas, professores foram remetidos para o confinamento tal como os seus alunos. Igrejas foram obrigadas a fechar as portas que sempre tiveram abertas para os seus fiéis. Os idosos que vivem em lares foram impedidos de receber visitas presenciais dos seus familiares. Hotéis tiveram de fechar portas e dar também eles o seu contributo para o combate a esta pandemia. Quem diz hotéis diz restaurantes, bares, cafés, discotecas, pequeno comércio, centros comerciais, grandes grupos económicos, pequenos empresários, todos estes deram o seu contributo a quando da primeira e segunda renovação do estado de emergência que vigora até às 23:59 de 2 de Maio de 2020.
Após todo este esforço pergunto-vos, o que pesa mais para o nosso país, ter a possibilidade de celebrar o dia do trabalhador nas ruas como se nada fosse, pondo em risco um país inteiro? Ou dar-lhe a dignidade com as devidas precauções necessárias? Para mim a resposta é evidente, o que se passou naquele jardim, não é digno, não é aceitável, não é consistente com todas as mensagens que o Governo da República e a Direcção Geral de Saúde tem emitido em todas as comunicações que tem feito ao país no combate a esta pandemia. O mesmo Governo que nos pediu para juntos ficarmos em casa para não disseminarmos esta pandemia com risco de colapso do Serviço Nacional de Saúde foi o mesmo que permitiu uma situação lamentável como aquela. Os mais críticos irão dizer-me que a concentração estava reduzida face aos anos anteriores, que as regras de higiene pública e distanciamento social estavam a ser cumpridas, que os integrantes da celebração tinham máscaras e cada um tinha a sua máscara. Mas os realistas irão ver esta imagem, que para mim é o espelho da gravidade desta situação.
Em pleno estado de emergência em vigor, com limitações de circulação entre concelhos, foram vistos autocarros de outros concelhos a entrada do recinto. A pergunta que faço é esta: se nos foi restringida (e bem) a circulação entre concelhos para evitarmos concentrações de pessoas, convívios que pudessem pôr em causa a saúde pública e visitas desnecessárias a familiares, porque é que a central sindical CGTP-IN pode circular livremente? Existe alguma excepção na lei que foi escrita com tinta invisível e só os detentores dos óculos cor-de-rosa é que a podem ler? E porque é que a CGTP-IN não seguiu e bem os passos do seu par, UGT que a meu ver e muito bem, ficou em casa, como nos foi pedido a todos e celebrou este dia através das redes sociais? Através de intervenções dos vários sindicalistas integrantes para que este dia fosse assinalado e que as suas mensagens pudessem continuar a passar, mas de uma forma segura, consciente e sem pôr em risco a saúde pública de toda uma nação.
São por situações como estas que existem falhas no cumprimento do isolamento profilático, são com estes péssimos exemplos que muitos se sentem livres para quebrar as regras e circular livremente. O governo e as autoridades de saúde não podem ter dois pesos e duas medidas. Têm que falar a uma só voz! Tem de ser coerentes no seu discurso e aplicar todas as medidas de confinamento e segurança a todos sem excepção. Espero honestamente que esta situação não seja potenciadora de uma inversão na nossa trajectória de retoma, porque caso seja, terão de ser exigidas devidas consequências aos mesmos que a autorizaram.
*O Autor escreve segundo a antiga ortografia da Língua Portuguesa
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