“Esta Páscoa feita de jejum e de confinamento continua a ser feita também de ressurreição e de esperança. A todos quero dizer: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Não é um vírus que o poderá derrotar. E Ele espera de nós, já agora, e mesmo na situação em que nos encontramos, esta disponibilidade apostólica para O testemunhar”. Esta mensagem foi do Bispo do Funchal, hoje, na Catedral, durante a Vigília Pascal, este ano sem fiéis devido às medidas de contenção da Covid-19.
D. Nuno Brás, na homilia questionou sobre “como podemos comunicar a vida nova?”, considerando que “parece contraditório a afirmação desta urgência evangelizadora com a situação em que nos encontramos, confinados às nossas casas, famintos do encontro com os irmãos”.
O Bispo fala de Paulo, “o Apóstolo que o Senhor ressuscitado encontrou no caminho de Damasco, viveu também ele esta urgência de que a notícia da ressurreição chegasse a todos. Paulo, o Apóstolo dos Gentios, caminhante incansável pelo mundo romano de então; Paulo que a propósito e fora de propósito anunciou o Evangelho, sofreu também ele a prisão. Ficou, também ele, confinado tantas vezes a quatro paredes. Mas nem por isso impedido de proclamar a Boa Nova. Prova dessa realidade são as chamadas “cartas do cativeiro”, escritas da prisão, onde o Apóstolo continuou o seu trabalho evangelizador, cuidando das comunidades que tinha fundado, acompanhando a sua vida e os seus problemas. E poderíamos continuar com tantos outros exemplos.
Deixemos, irmãos, que neste tempo de quarentena, a urgência do anúncio do Evangelho fermente no nosso coração. Que ela se faça vida, disponibilidade e ousadia em toda a nossa existência.
E alegremo-nos com esta certeza serena mas entusiasmante, única capaz de verdadeiramente romper a escuridão: Cristo venceu a morte. Aleluia!”.
D. Nuno Brás começou a homilia falando da “tranquilidade desta noite santa — sobretudo desta noite de Páscoa de 2020, que ficará para a história da Igreja como a “Páscoa da grande fome da Eucaristia”, com os sacerdotes a celebrarem quase toda a Quaresma e, agora, esta solene Vigília com as igrejas vazias e os fiéis distantes, em suas casas — a tranquilidade e o silêncio desta noite, dizia, contrasta claramente com a urgência e a correria presentes na narração evangélica do encontro do túmulo vazio, que acabámos de escutar”.
O anúncio da ressurreição de Jesus com que o Anjo surpreendeu aquelas mulheres temerosas; a quantidade de sinais na natureza que acompanharam esse anúncio; a certeza da vitória sobre a morte — e da vitória sobre o pecado que a causa —, longe de serem paralizadoras daquelas duas mulheres, fizeram antes surgir uma urgência (quase diríamos: uma emergência) que nada nem ninguém poderá deter. É uma urgência que teve início naquele momento, mas que atravessou estes dois mil anos, e chegou aos nossos dias.
Aliás, esta urgência estava já contida na própria missão: “Ide depressa dizer aos discípulos: Ele ressuscitou dos mortos”, diz o Anjo às mulheres. E o evangelista continua, referindo como estas corresponderam à missão: “afastaram-se rapidamente […] e correram a levar a notícia aos discípulos”.
A urgência marca pois, desde o início, a missão cristã. É fruto da vontade de Deus. É a urgente necessidade de anunciar e viver a ressurreição! A vitória de Jesus sobre a morte (que é também a nossa vitória, a vitória da humanidade) é uma novidade que urge comunicar a todos. A morte foi derrotada no seu terreno. Um homem que é Deus abriu uma brecha no seu domínio e a derrotou, e deu-nos a todos a esperança de passar com Ele do tempo para a eternidade!
Em primeiro lugar era, naquele momento, urgente comunicar a Boa Nova aos discípulos porque eles, que partilharam a vida de Jesus, que presenciaram os milagres, e que escutaram a sua palavra, haviam também de ser as primeiras testemunhas do mundo novo que naquele momento surgiu. Haviam de ser eles a garantir que este Jesus ressuscitado era o mesmo que com eles caminhou pelas estradas da Galileia. Que não era um fantasma, uma ideia, uma projeção, mas o mesmo que todos viram morto no madeiro da cruz e que agora se apresentava, cheio da vida divina, a comer e a beber com os seus”.
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