Politicamente (in)correta

O politicamente correto irrita-me. A sério que me tira do sério.

Diz-nos o Santo Google que a expressão “politicamente correto” é utilizada para descrever a linguagem, atitudes e medidas que evitam ofender ou marginalizar grupos mais desprotegidos, em especial pela raça ou sexo.

Isso deveria chamar-se só correto.

Coisa diferente a que vimos a assistir é aquele tom falso, forçado. Sabem? Aquele que cheira, soa e sabe a nada. Os excessos e os fundamentalismos. A linguagem, atitudes e medidas adotadas para evitar ofender os eternos ofendidos e marginalizar os marginalizados crónicos.

O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, veio há uns tempos apresentar as suas mais sentidas desculpas públicas. A revista Times havia publicado uma foto sua, com quase vinte anos, em que aparecia disfarçado de Aladino. Com direito a sedas, turbante e plumas. E pintou a cara de castanho. Caiu o Carmo e a Trindade. Ou duas quaisquer igrejas canadianas.

Veio arrependido dizer que foi imprudente e comprometer-se a continuar a combater a discriminação e racismo.

Lamento, mas não consigo perceber. Por mais voltas que dê a esta cabeça quadrada não consigo perceber como é que pintar a cara de castanho é racismo.

O chamado “blackface”, na sua aceção original, refere-se a atores brancos que pintavam a cara com o carvão de cortiça e representavam caricaturas de pessoas pretas – adeptos do politicamente correto leiam, por favor, pessoas de cor, essa expressão fantástica – que eram sempre retratados como preguiçosos, pouco dados à inteligência e indolentes. Este perpetuar de estereótipos, sim. Isto parece-me racismo.

O que Justin Trudeau fez não foi isso. Ele pintou a cara de castanho porque o Aladino tem uma tez mais escura que o Trudeau copo de leite.

(Ai, será que agora ofendi as pessoas muito brancas?)

O que Trudeau fez foi ser rigoroso e perfeccionista no seu disfarce. E para isso só respeito. Ou não fosse eu uma fanática de disfarces.

Agora que penso nisso, quando me disfarcei de indiana usei uma base mais escura que o tom da minha pele. Em nome do realismo. Se fosse uma figura pública adepta do politicamente correto lá teria de pedir desculpas. E seria também atacada por ter feito apropriação cultural.

A apropriação cultural, expoente máximo do politicamente correto, está também muito em voga nos Estados Unidos. Sim, essa mesma nação que praticava a segregação de raças até aos anos 60 do século passado.

À custa de não ser acusado de fazer a tal apropriação cultural – mas quem é que inventa estas coisas? – ninguém já se pode disfarçar de chinês, japonês, índio ou indiano. É ofensivo. Será que ainda se podem disfarçar de Viking?

Também à custa disso têm sido as kardashian-Jenners queimadas na praça pública por usarem os cabelos com tranças, costume que não é herança da sua cultura. Com tanto disparate que elas fazem, vão lembrar-se é disto? Mas, curiosamente, quando pintam o cabelo de loiro ninguém se lembra que estão a apropriar-se da cultura nórdica.

Que disparate é este?  Se, na loucura, algures de férias num qualquer sítio paradisíaco daqueles de fundo de ecrã e provavelmente depois de um Mojito a mais, me apetecer entrançar o cabelo todo, não poderia sob pena de estar a insultar alguém?

Oh, poupem-me!

E insultar quem? É que esta ditadura do politicamente correto grita sistematicamente crime. E muitas vezes crime sem ofendido.

Basta vermos o mais recente caso do Bernardo Silva – que, se é jogador da Selecão, significa que agora já sei o nome de dois jogadores – e  a história do Conguito. O Conguitogate.

O tal Bernardo publica uma foto dum colega de equipa em criança, ao lado de uma foto de um conguito, aquele bonequinho castanho dos chocolates. Ah, e o colega do Bernardo, Benjamin Mendy, é preto. Não o estou a discriminar. É só relevante para a história.

E quem ficou ofendido com isto? O Benjamin? Não. Ele achou graça. São amigos, brincam, fazem piadas e picam-se. Mas respeitam-se.

Ofendidos ficaram os habituais puritanos e guardiães da moral e bons costumes atrás dos seus teclados. Ofendididos ficaram também, pasme-se, os senhores da Federação Inglesa de Futebol. Provavelmente todos brancos. E ingleses. Ingleses daquele Reino Unido que tinha um programa com “blackface” até 1976. E que tem Boris Johnson como primeiro-ministro.

Não sei se já deu para perceber, mas a hipocrisia do politicamente correto irrita-me. A sério que me tira do sério.

Respeito? Sim, sempre. Cuidado com as palavras? Sim, claro. Até porque muitas vezes doem e abrem feridas difíceis de sarar. Pensar e repensar o que pode ser ofensivo? Com certeza. Porque o que sempre foi feito não quer dizer que foi bem feito e pode continuar a ser feito.

Mas caramba, há que ter algum poder de encaixe. Sem dramatismos exacerbados. E sem falsos moralismos.

E o poder de encaixe, a capacidade de se rir de si próprio e relativizar as coisas são fulcrais. Para não termos uma vida politicamente correta. Sensaborona. Aborrecida.

Como é que aprendi a ter poder de encaixe? Sou (também) do Porto Santo. Com todo o orgulho do mundo. Minha querida, santa e abençoada terra.

Conseguem imaginar quantas piadas de profetas já ouvi na vida?

Digamos que se tivesse 1 euro por cada uma delas, estaria agora num sítio paradisíaco daqueles de fundo de ecrã, a tomar um mojto a mais e a entrançar o cabelo. Vestida de indiana.


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