Velhos Achados – A joia

Os poetas antigos são vozes eternas no cômputo dos séculos e não precisam sequer de ser datados para que sejam reconhecidos. Existem através do nome e da obra que legam ao mundo. Em todo o tempo a sua evocação traz-nos momentos iluminados que nos inserem, de modo particular, nas emoções da vida, sem anular a sua realidade, mas a transcende-la através de estados de puro prazer. «A Vida é feita de nadas…». Miguel Torga bem o sabia. Também Fernando Pessoa sabia que «o nada é o tudo». Um «saber d´experiências feito…» e lá vem Camões com o seu sentido de realidade. Ao contrário do que muitos supõem, os poetas não se alheiam da vida, apenas têm o seu modo próprio de interpretá-la e senti-la.

Miguel Torga no poema «Bucólica» diz-nos que «a vida é feita de nadas…de grandes serras…de casas de moradia…de ninhos… de poeira…de sombra… e conclui com palavras   de espanto por  «ver esta maravilha/ meu pai a erguer uma videira/ como uma mãe que faz a trança à filha».  Um quadro que expressa o realismo duma vida simples, amante da Natureza, um poema que em certa época da minha adolescência muitos de nós sabíamos de cor.

Aida hoje há quem revele um terno apelo no gesto de plantar uma videira e a trança de cabelo é exibida por algumas mulheres, como um delicado acessório a realçar o  penteado. Homens e mulheres ao longo das épocas, apesar das mudanças de paradigmas, voltam a trazer do passado modas, tradições e costumes, numa onda de reposição que acrescenta variedade e valor ao espólio do presente. Num país produtor de vinhos o cuidado com as videiras é evidente, assim como o negócio da moda recupera modelos e artesanatos antigos. numa adaptação criada pelo moderno design.

Prosseguindo na evocação de poetas, os cabelos, como componente sensual e afectivo, sempre foram objecto de interesse.: «ó vagas de cabelo esparsas longamente/ que sois o vasto espelho onde me miro…» dizia Cesário Verde. Fernando Pessoa, numa onda muito íntima de paixão secreta, escolheu uma quadra para afirmar: «Quando compões o cabelo/ com tua mão distraída/ fazes-me um grande novelo/ no pensamento da vida». António Ramos Rosa não se alheia dessa  impressão nostálgica que lhe causava o gesto de pentear: « Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos/ e que sinais de perfeição tão triste/ que doçura do espírito da serra/ que suavidade do espírito da água».

As mãos sobre os cabelos, estou a vê-las numa infância distante, construindo, madeixa a madeixa, duas robustas tranças na minha cabeça, cada uma com um laço de fita a condizer com a popelina ou a chita florida do vestido de ir à escola. Se a fita fosse branca ia bem com qualquer padrão do tecido, que se queria de cor alegre e clara.

Em certas épocas históricas os cabelos longos prestavam-se a definir conceitos de beleza, de força e de estatuto social. Tornaram-se referências culturais importantes. Nas tribos primitivas os homens ostentavam grandes cabeleiras revoltas, sinal de poder e de força. Recorde-se a personagem do juiz bíblico Sansão que perdeu força e prestígio ao serem-lhe cortados os cabelos. Durante séculos, este acto era uma forma de humilhar as mulheres e impor-lhes castigos. Na época vitoriana as mulheres da classe alta, sobretudo as jovens, ostentavam cabelos até aos pés, ondulados ou entrançados, salientando a dignidade da sua estirpe. Pouco a pouco este acessório foi tomando a forma de  objecto sentimental através do qual se preservava a memória das pessoas amadas e dos ausentes. Criou-se então um artesanato singular, o Hairwork, em forma de jóias de cabelo entrançado, que, tendo surgido no sec XVIII, em Inlaterra, atingiram no sec. XIX modelos de extraordinária beleza e revelavam além de grande criatividade, uma excepcional perícia de execução.

E foi numa antiga caixa de cartão forrada de percalina azul escura, com um veio dourado circundando a tampa, que encontrei duas pequenas pulseiras de cabelo entrançado que as hábeis mãos dos meus pais confeccionaram, dedcados que foram a essa arte de tradição inglesa e onde perpetuaram a lembrança das minhas tranças. Um entrançado perfeito de quatro mechas. Uma delas já muito usada tem um fecho de armela e uma pequena placa de ouro onde gravaram o meu nome. A outra está intacta e conserva ainda a beleza e o brilho originais. Ficou inacabada, á espera dum futuro que agora, de repente, me surpreendeu pela memória dessas mãos que, na minha infância, de vários modos, me cuidaram e acariciaram os cabelos.

A História humana não é feita apenas de «feitos gloriosos», mas de pequenas inventivas que atingem por vezes dimensões incalculáveis, com reflexos vários, inclusive nas nossas particulares emoções.

 


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