Não fora o facto do BE e do PTP terem assumido a derrota e, na noite do passado dia 22 de Setembro, todos os partidos concorrentes às eleições regionais teriam cantado vitória. Uns porque mantiveram o poder (PSD) ou vão lá chegar (CDS), os outros porque, finalmente, o PSD perdeu a maioria absoluta.
E, no entanto, todos acabaram por perder! O PSD porque perdeu a maioria absoluta que sempre deteve, o PS porque o objectivo apontado pela dupla Paulo Cafôfo / Emanuel Câmara, e pelo próprio António Costa era o de ganhar as eleições, e todos os outros porque ambicionavam crescer a sua representação parlamentar (CDS, JPP, CDU, BE e PTP) ou conquistar assento no parlamento regional, o que não se verificou….
Mas, os grandes derrotados das eleições legislativas regionais são indiscutivelmente o PSD e o CDS. O PSD porque perdeu três deputados e consequentemente a maioria de que sempre dispôs no hemiciclo regional, o CDS porque foi o partido que perdeu mais deputados e mais votos (9.200 votos e quatro mandatos).
Apesar desta realidade, quer um quer outro festejaram. O PSD, porque vai poder continuar a governar, embora com a ajuda do CDS. Este porque, estrondosamente derrotado nas urnas, lá conquistou uns “lugarzinhos” na esfera do poder. Ao longo da campanha, aliás, percebeu-se que era esse o desiderato que fazia mover as hostes centristas. Disponíveis para “casar” com o PSD ou com o PS! Com quem não interessava, o que importava era conseguir o “casório”. É isso de resto que explica o festório ali para os lados da rua da Mouraria. Um júbilo que, por muito disfarce montado, percebia-se que não era extensivo no partido sediado na rua dos Netos. Por razões óbvias, afinal, agora vão ter de ceder uns lugarzinhos no governo e na administração pública aos seus parceiros de coligação. O que na prática significa que há uns assentos no carro preto que terão de ser cedidos, uns “boys” ou “girls” que lá terão de arrumar os papéis. O que convenhamos trará amargos de boca, vai deixar marcas porque, enfim, há gente que será preterida e que ficará, por conseguinte, descontente. E esse ónus será seguramente imputado a Miguel Albuquerque porque foi com ele, na liderança, que o PSD perdeu as sucessivas maiorias absolutas de que sempre dispôs.
Arriscamos mesmo a dizer que 22 de Setembro constituirá uma espécie de R.I.P. na sua carreira política, na medida que nada garante que volte a ser o candidato do partido a presidente do governo nas próximas eleições regionais, independentemente da data em que ocorram, isto é, no seu ciclo normal ou antecipadas, em consequência de uma qualquer hipotética derrapagem na novel coligação em formação. O simples facto do omnipresente presidente honorário que se assumia como o “único importante” cá do burgo ter defendido que o partido, o PSD, fosse colocado no “estaleiro” e se procedesse a uma purga nas hostes, expulsando-se os “infiltrados” indicia quão turbulentos vão ser os próximos tempos ali para os lados da Quinta das Angústias e da rua dos Netos.
Enfim, talvez fosse conveniente ter à mão um qualquer medicamento para a azia ou para a depressão, consoante a maleita do paciente, ou então habituarem-se a trautear a melodia “Ao tempo volta para trás…”, popularizada por António Mourão nos anos 60 do século passado.
As dificuldades e as complicações, porém, não se ficam por aqui. Desde logo com a maioria do eleitorado (60%) que, em conformidade com a posição expressa por Miguel Albuquerque, se comportou como “idiota”, com particular relevância nas grandes urbes (Funchal, Santa Cruz, Machico e Porto Santo), transformando o PSD num partido predominantemente rural – o resultado da votação na ilha dourada foi até classificado de “traição”! Mas, também com a evolução da relação com o CDS, o partido que tenderá a ser o mais afectado com esta espécie de “abraço do urso”, na medida em que uma das principais incógnitas é saber se o CDS resistirá a esta passagem pelo poder regional ou se poderá mesmo desaparecer – a este propósito, as eleições autárquicas de 2021 serão certamente um barómetro até para avaliar se o alegado “legado político de luta anti jardinista” foi trocado por um prato de lentilhas por quem resolveu mandar a memória e a dignidade às malvas. De resto, convenhamos “mudança com cautelas” tem todo o ar de “vira o disco e toca o mesmo”. Isso mesmo, mais do mesmo! Fazendo jus à velha máxima de Giuseppe di Lampedusa: “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”. Isto é, o peso e a dependência dos interesses instalados ditarão as regras, como sempre sucedeu ao longo destes 43 anos.
*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia. Texto escrito antes das eleições nacionais
Post-Scriptum: 1) Tabacaria versus Tancos: Ao longo dos tempos, Rui Rio tentou vender de si próprio uma imagem de político diferente, insensível ao denominado “politicamente correcto” e avesso ao populismo, até que a acusação do processo do roubo de armas em Tancos apareceu em plena campanha eleitoral para as eleições para a Assembleia da República, vai daí o líder do PSD, convencido que a coisa pode dar votos, transformou-se numa espécie de ardina numa tabacaria e toca a substituir-se à justiça, mesmo relativamente a pessoas (o primeiro-ministro) que não constam do processo. Mas acabou por não ser consequente ao não envolver também o Presidente da República na tramóia. Caíu-lhe a máscara. Fará uma excelente dupla com Assunção Cristas
2) Dicionário procura-se: Inaugurar obras por acabar constituía uma das imagens de marca do jardinismo, como herdeiro que se preza o governo em funções não teve qualquer pejo em proceder de igual modo com o denominado “Dicionário Enciclopédico da Madeira”: fez o anúncio do lançamento do respectivo 1º volume, mas exemplares nem vê-los. Na ocasião, surgiu um para amostra, mas quer os colaboradores quer o público em geral continuam sem acesso ao mesmo. O que importava era realizar o número antes das eleições.
3) Comentadores: A história repete-se! Sempre que há eleições na “santa terrinha” o critério da comunicação social pública é convidar para comentar sempre os mesmos. Lá saberão porquê. Mas, ao menos poderiam diversificar as proveniências e não colocarem um irmão na RTP/M e outro na RDP/M. Não há mais ninguém?
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