“V Jornadas do MERL: Alguém sabe onde fica o CAMINHO DA MADEIRA?”

Expressões como “esta é a minha terra”, “isso é bem nosso” ou “isto é muito nosso” fazem pensar no quanto as pessoas precisam de possuir algo, nem que seja uma ideia vaga de propriedade. A expressão da posse e a identidade comunitária, de pertença ao mesmo lugar, vão associadas, havendo uma certa ilusão em julgar que a terra é “nossa”. Em Estudos Canadianos, na década de 80 do século XX, na Universidade de Coimbra, existia uma opção para as licenciaturas, como em Línguas e Literaturas Modernas, onde era estudada a cultura inuite (identificada com a dos esquimós) e foi uma descoberta porque era pouquíssima abordada, para não dizer “ignorada”, em Portugal. Com o povo inuite, que habita parte do Canada, a Gronelândia e o Alasca, entre outros povos pelo mundo fora, é o contrário: “nós pertencemos à terra”. A forma de ver, encarar e analisar as coisas muda segundo o ponto de vista de cada pessoa e de onde olha tudo. Podemos decidir e optar por um ou outro ponto, para nos localizarmos. Como quer olhar para as coisas? Tudo (ou quase) depende de si e de onde se posiciona para as observar. Ao dar uns passos à frente ou atrás, nunca verá nada de modo igual. Fixando-se um pouco mais para a direita, terá uma panorâmica; ao colocar-se um pouco mais para a esquerda, verá tudo sob outro ângulo. No centro, terá uma visão alargada, mas não será igual à dos lados. Se se virar, o cenário será outro. Uma vista de cima (assim como de baixo) é outra experiência: que o digam os astronautas do voo Artemis II. Em dez dias, deram uma volta no espaço e viram o planeta Terra de muito longe, a caminho da Lua.

Vem isto a propósito das V Jornadas do Mestrado em Estudos Regionais e Locais que decorreram em Machico, na Biblioteca Municipal, com os autarcas e representantes das Casas do Povo que aceitaram o desafio de falar do “seu” território e das comunidades onde desempenham um papel importante. Estiveram também presentes antigos estudantes, e já mestres, em Estudos Regionais e Locais. Numa universidade, especialmente num mestrado, estudamos diversos assuntos. No Mestrado em Estudos Regionais e Locais, envolvendo a parceria com o Erasmus Mundus Climate Change and Diversity_Sustainable Territorial Development (CCD_STeDe – Alterações Climáticas e Diversidade_Sustentabilidade do Desenvolvimento Territorial), as áreas de interesse são diversificadas, já que este curso de 2.º Ciclo da Universidade da Madeira (UMa) é multidisciplinar. Contudo, sejam locais ou regionais, o(s) território(s), com todas as suas realidades, e a(s) comunidade(s) que o habitam são o assunto convergente. Poderíamos ficar apenas nas nossas instalações de ensino universitário, entre quatro paredes, e continuar exclusivamente com as aulas programadas. Todavia, se isso é muito importante, também é de extrema importância olhar para a realidade envolvente, nomeadamente aquela onde a UMa se situa, concelho a concelho, na Região Autónoma da Madeira (RAM). Além de haver estudantes internacionais, vamos compreendendo que isso faz sentido para os próprios ilhéus ou luso-venezuelanos, entre outros descendentes de emigrantes que regressaram à “sua” terra ou a dos antepassados. Muitos jovens (e um número considerável de adultos) madeirenses não conhecem essa “sua” terra. Alguns conhecem muito pouco os diversos concelhos da RAM. Vários nunca foram ao Porto Santo; nunca subiram ao Pico do Areeiro; desconhecem o Cais do Sardinha; não viram Machico de outro ponto a não ser do centro; não sabem onde fica o Pico do Facho, o Piquinho, o Caramanchão; não nomeiam as zonas altas, nem ouviram falar das Fontes Vermelhas, entre uma diversidade de realidades territoriais, sociais e culturais. Podem ter ido à praia de Machico ou ao Mercado Quinhentista, mas, comprovadamente, a experiência que têm não é diversificada. Muitos universitários madeirenses, mesmo os do concelho no qual residem, e onde podem ter nascido, têm um conhecimento limitado da “sua” terra. Para saber isso e compreender o ponto de vista que seguem, basta ouvi-los um pouco para o confirmar. No entanto, felizmente, também há estudantes que têm um conhecimento mais pormenorizado do território e das vivências comunitárias.

Quando se pergunta a alguém de onde é, a resposta pode variar entre um topónimo menor e outro maior, com, por vezes, um intermédio. Ouvir dizer que se é da “Madeira”, de “Machico” ou de “Água de Pena” é diverso e revela o ponto de vista de quem respondeu. Dificilmente aparecerão as três respostas (podendo haver mais lugares, alguns com uma visão mais vasta, isto é, alargada – “Portugal” ou “União Europeia” – e outras com uma bem mais restrita, ou seja, estreita – “Cruz da Guarda” ou “Larano”). O tipo de resposta poderá depender do interlocutor e de outros parâmetros. Para ouvir algo como “no Caminho da Madeira”, a pergunta terá de ser mais “Onde mora? Já agora, alguém sabe onde fica o “Caminho da Madeira”? Existe mesmo um “Caminho da Madeira” na ilha da Madeira, mais precisamente no concelho de Machico. O Dicionário Corográfico do Arquipélago da Madeira, que o Padre Fernando Augusto da Silva publicou em 1934,

não o identifica, embora mencione uns quantos topónimos com “caminho” no nome próprio. O que significará “Madeira” neste topónimo? Mereceria uma investigação, já que pode não corresponder ao nome da ilha, mas a um lugar concreto onde houvesse “madeira”. Quem sabe? A população local precisaria de ser inquirida para esse estudo toponímico. Por agora, fica unicamente expressa a intenção de o investigar.

De qualquer forma, o “Caminho da Madeira” é um topónimo muito interessante por vários motivos. Nas V Jornadas do Mestrado em Estudos Regionais e Locais (MERL), percorreu-se uma parte deste arruamento, que já não é propriamente “um caminho” e que é “na” ilha da Madeira, mesmo levando na designação o elemento linguístico “da”. O uso das preposições também mereceria um estudo. Dali, avista-se o aeroporto, vendo-se perfeitamente a dimensão da pista. Há, ali, um Lavadouro Público, indicado como sendo da autoria de Chorão Ramalho, “com valor patrimonial e social”, que marca a “Memória, Cultura e Comunidade”, como se lê na placa comemorativa. A água é um bem essencial à vida humana e o poema de João Branco, num painel de azulejos brancos e azuis, evidencia, com ilustração, a importância da “fonte”, antes de haver água canalizada nas habitações. Também foi possível compreender, nas V Jornadas do MERL, que, em particular em zonas altas, ainda há, no século XX madeirense, habitações sem água potável e algumas sem acesso a carro. Isso explica a importância de ter observado uma parte das Fontes Vermelhas e o esforço de canalização, transportando a água de um concelho para outro. Além destes elementos caracterizadores do “Caminho da Madeira”, está, ali, a nascer o Atelier de Soma SOMA BLISS ECOSSOFAS, com a indicação “I am World!” (Eu sou o Mundo) e o lema “A favor do Planeta! A favor da Humanidade!”. Impressionante esta iniciativa! Se não conhece, procure-a na Internet e descobrirá o que está a ser feito com roupa velha que já ninguém usa. No Lavadouro Municipal, lavam-se os tecidos da roupa rota, desbotada, sem qualquer utilidade (os chamados e reais “trapos velhos”) e, após um processo de tratamento, surgem produtos como sofás, colchões, etc. completamente novos, para serem comercializados.

Em suma, sair da UMa para percorrer o território permite conhecê-lo por dentro. As I Jornadas decorreram na UMa e tiveram o contributo da Associação de Municípios da Região Autónoma da Madeira (AMRAM). As II e III foram temáticas e também tiveram lugar nas instalações universitárias. Em 2025, as IV Jornadas do Mestrado em Estudos Regionais e Locais realizaram-se na Casa da Cultura, em Santa Cruz, com a presença de diversos eleitos. Neste ano, decorreram em Machico, com apoio municipal, e prevê-se que as VI sejam, no próximo ano, em Santana. Fica, aqui, lançado o desafio a todos os eleitos do concelho, assim como à Escola Básica e Secundária D. Manuel Ferreira Cabral e à Biblioteca Municipal de Santana, caso queiram acolher o evento previsto para dois dias (o primeiro em sala e o segundo no terreno, a explorar o que houver

para visitar e descobrir) e/ ou participar a nível organizativo nele. O propósito é percorrer anualmente os concelhos da RAM e, talvez, de outras regiões portuguesas ou mundiais, já que os Estudos Regionais e Locais transcendem a área geográfica do arquipélago madeirense.

As V Jornadas do Mestrado em Estudos Regionais e Locais permitiram, entre muitas outras informações facultadas pelos agentes locais, ter, igualmente, uma ideia do trabalho da iniciativa ECOS Machico, que estuda e divulga ecossítios. Há vídeos na Internet que dão a conhecer o Património Natural de Machico, mas também o Património Linguístico, pela toponímia, sobretudo, investindo também no Património Cultural. É muito o que vai sendo feito. Quem disser que é “da Madeira”, que a Madeira é a “sua” terra, deveria conhecer os concelhos e as freguesias “por dentro”. Alguns turistas – e há cada vez mais – vão descobrindo o território, experimentando percursos que um número considerável de locais nunca visitou. “Ser madeirense” implicaria conhecer a Madeira. Estudar o território a nível regional e local incentiva a recolher dados junto dos agentes políticos e culturais. Assim aconteceu nas freguesias, do Caniçal à Água de Pena, terminando na de Machico. Implica desfazer ideias preconceituosas que se trazem e ouvir quem está todos os dias a trabalhar pelo território e para as populações locais. As propostas associativas, sociais e culturais, levadas a cabo no Caniçal, em Água de Pena e em Machico, que foram apresentadas, promovem o bem-estar e a troca de experiências, inclusive entre gerações. Ainda houve tempo para passar pelo Museu da Baleia, com uma experiência imersiva, pela Quinta do Lorde com muitos turistas jovens, ter uma ideia, por fora, do Centro Internacional de Negócios da Madeira e do investimento em energias renováveis com painéis que se vão multiplicando, de ir até à grandiosa, mas abandonada Matur para terminar no Pico do Facho, a fim de observar a extensão da cidade de Machico, que vai crescendo pelo vale e as encostas, enquanto se foi falando de apicultura e do mel como produto em crescimento nessa parte da ilha da Madeira. Muito fica por contar. Percorrido o território municipal de Machico, alguém sabe, agora, onde fica o CAMINHO DA MADEIRA?


 

LÍNGUA-SOCIEDADE-CULTURA

Helena Rebelo

Universidade da Madeira (FAH-DLLC e CIERL), Funchal, Portugal

CLLC da Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal mhrebelo@staff.uma.pt


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