Amazónia, insónia do mundo

Donald Trump, recordista do Twitter, deste mundo e arredores, achou de toda a justeza e oportunidade elogiar o “angelical” Presidente brasileiro, depois de “beatificar” Xi Jinping, “canonizar” Kim Jong Un e “sacralizar” Boris Johnson.  No seu “Livro de Santos” online, o igualmente “imaculado” Trump, teve a seguinte epifania: “Eu conheço bem o Presidente Jair Bolsonaro das nossas relações com o Brasil. Ele está a trabalhar muito nos incêndios da Amazónia e em todos os aspetos, fazendo um ótimo trabalho para o povo do Brasil – Não é fácil. Ele e o seu país têm completo apoio dos EUA!” Não senhores, não é fácil em tão pouco tempo transformar a Amazónia numa paisagem lunar. Não é para todos, ai não que não. Só comparável, porventura, aos doze trabalhos de Hércules num mix com a paciência de Jó. Assim, tal qual. Admirável!!!

Sem dúvida que Trump reconhece a milhas os bem-aventurados irmãos da sua confraria. Goste-se ou não do estilo, há que conceder-lhe esse encantador carácter visionário!!! Em bom rigor, Don Trump, sabe muito bem dos atos dos seus apóstolos e discípulos, que nos levarão dentro em breve à Terra Prometida, e “lamentavelmente” só não acompanham tal salvífico pensamento os homens de pouca fé… como eu, no caso vertente.

O “divino” Bolsonaro, com todo o “mérito”, tem feito por merecer os cânticos de louvor de Don Trump. Vejamos: com base numa política económica ultra-neoliberal, logo no primeiro mês do seu mandato, tudo fez para extinguir o Ministério do Meio Ambiente, fundindo-o com o Ministério da Agricultura, “benfeitoria” que só não implodiu fruto da pressão popular, que acabou por manter a pasta. Na melhor das intenções, calcula-se, não satisfeito com a tentativa de travar os seus desígnios, com o passar do tempo, Bolsonaro foi desidratando e sufocando financeiramente o dito ministério. Claro, entenda-se, a bem do ambiente, do povo brasileiro e da própria humanidade. É assim, todos lhe devemos um coro de Aleluias!!!

Recorde-se que Bolsonaro não deixou por cumprir todas as promessas de campanha. “Homem de palavra”, prometeu rever todas as reservas naturais, afirmando que não haveria um cm de chão demarcado para indígenas e quilombolas e que abriria espaços, em áreas de proteção, para o agronegócio e garimpo. Meu dito, meu feito, começou por enfraquecer o IBAMA, Instituto de fiscalização da natureza, cortando verbas para o seu funcionamento, bem como ajuda policial para proceder à fiscalização. Ou seja, deixou via aberta para legitimar o desmatamento pelos “escrupulosíssimos” latifundiários que aproveitaram o discurso do “Mestre” para a alegação de que precisavam de desmatar a terra para a formação de mais pasto para a criação de gado.

Num dos “versículos” do seu “Evangelho” diziam, “muito devotamente”, essas “boas almas” que urgia: “mostrar para o Presidente que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando e, para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo.” Ne(u)róticos!

Vai daí, estes homens “de boa vontade” decidiram criar “O Dia do Fogo” (O fogo da purificação!!!) que constituiu apenas um de vários exemplos de como os latifundiários sentiram a bênção bolsonariana para desmatar e queimar “à fartazana”, sem o mais pequeno receio de consequências legais e penais. Perante estas “bem-aventuranças”, quem poderá negar que o governo brasileiro, na pessoa do seu Presidente da República, Jair Bolsonaro, é o principal responsável pelo crescimento do desmatamento e, principalmente, pelas queimadas na Amazónia? Obviamente, e apenas, Bolsonaro e confrades. O resto é gente de má fé, homessa!

O Washington Post, jornal (porventura) de hereges e afins, no seu editorial teve mesmo o “desplante” de comparar Bolsonaro a Don Trump, nos seguintes termos: “Na sua negação da realidade, o populismo de direita de Bolsonaro assemelha-se ao do presidente Trump. Os dois líderes alimentam suspeitas infundadas de que as preocupações ambientais são conspirações estrangeiras para minar a economia doméstica. Os dois estão comprometidos com a extração acelerada de recursos, ignorando as advertências dos especialistas”.

Claro que para toscos manipuladores, como Bolsonaro, Don Trump e outros do mesmo satânico credo, a Terra é plana, nunca houve ditadura, e refrigerantes há que contêm células de bebés abortados. Acontece, porém, que uma mentira contada mil vezes não se torna verdade, a não ser para gente de palas eternas nos olhos.

Para termos uma ideia mais clara a propósito das “juras de amor” de Trump a Bolsonaro, convém recordar que, na ONU, Trump qualificou Bolsonaro como “um bom homem”, tão geminadas são as suas opiniões sobre mudanças climáticas, bem como paralelas as críticas ao suposto excesso de regras ambientais. Não será, pois, por acaso que o discurso do governo brasileiro de que há um “alarmismo” sobre a questão ambiental para fins políticos encontra confortável respaldo na Casa Branca, para mal dos nossos pecados.

Do outro lado da barricada, gente ambientalmente séria como a lenda do rock, Mick Jagger, encerrou a sua participação no Festival de Cinema de Veneza com um ataque contra o presidente americano Donald Trump, a quem criticou por ter levantado os controles ambientais nos Estados Unidos. Mick Jagger em entrevista coletiva para apresentar o filme fora do festival de cinema de Veneza “The burnt Orange heresy” (A heresia da laranja queimada, em tradução livre), dirigido pelo italiano Giuseppe Capotondi, no qual trabalha como ator, afirmou: “Estou com os jovens que protestam contra as mudanças climáticas. Do mesmo modo, o coprotagonista do filme, Donald Sutherland, repercutiu o seu pedido de protesto e pediu às pessoas que saiam às ruas e não votem em pessoas como Trump ou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

— Quando eles tiverem 85 anos e possuírem filhos e netos, não terão nada se não deixarem de votar nessas pessoas no Brasil, em Londres e Washington — acrescentou.

Contudo, Jagger e Sutherland não foram os únicos artistas a falar de política em Veneza. O britânico Roger Waters, membro fundador da lendária banda Pink Floyd, também criticou veementemente o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, Trump, o ex-ministro do Interior italiano Matteo Salvini e Bolsonaro.

— Eles estão obstinados em destruir este belo planeta — disse antes de apresentar o seu documentário “Us + Them”.

Não menos verdade é que ao lado do presidente brasileiro, o presidente americano até parece um cavalheiro. Bolsonaro, inequivocamente, pertence a uma categoria dos que glorificam a violência, como o presidente filipino, Rodrigo Duterte, ou de intransigentes autocratas, como o venezuelano Nicolás Maduro, cujas ações são somente influenciadas por questões como a manutenção do seu próprio poder e do sistema de compadrio que representam.

Pinóquio roer-se-ia de inveja ao ouvir Bolsonaro, em comunicado ao país pela televisão, em meio à crise: “Tenho profundo amor e respeito pela Amazónia”, disse ele, diante dos incêndios florestais devastadores, que ocorreram numa região na qual vem incentivando o desmatamento com todas as suas forças. “A proteção da floresta é nosso dever. Somos um governo de tolerância zero com a criminalidade, e na área ambiental não será diferente”, (bolsou)narou ele, né? Para se ter uma visão mais concreta do modo como Bolsonaro encara as questões ambientais, nada como espreitar o seu “invejável” histórico. Em janeiro de 2012 foi surpreendido a pescar ilegalmente numa reserva marinha na costa do Rio de Janeiro. Na altura foi-lhe aplicada uma jeitosa multa de 10 mil reais. Para Bolsonaro, então deputado federal, essa foi a ocasião, não para escarmenta, mas para uma vendeta sem precedentes: primeiro, apresentou uma lei para reduzir o poder do Ibama. Em seguida, entrou com um mandado de segurança para obter direitos exclusivos de pesca na reserva. Ainda assim, não lhe chegou. Após a sua eleição como presidente, passou a difamar o Ibama como uma mera “indústria de multas” controlada por ambientalistas radicais. No final de março, o servidor Morelli que o multou – à época fiscal na Amazónia – foi exonerado do cargo. Bolsonaro não esquece e serviu fria a vingança, como é de “pessoa de bem”. Acresce que Bolsonaro vê inimigos em todo o lado. O instituto ambiental é visto como o seu inimigo principal – seguido dos índios da Amazónia; dos cientistas; do Greenpeace; de Merkel e Macron, cujo compromisso com a Amazónia é por ele criticado como um comportamento colonial. Enfim, todos aqueles que estão comprometidos em preservar o pulmão verde do mundo são inimigos de Bolsonaro. Da minha parte, assumidamente inimigo me confesso, respondendo inequivocamente Presente sempre que se trata de desmascarar despudorados “vendilhões do Templo”.