Fortaleza do Pico: da caiação ou pintura necessárias, ao anunciado baloiço panorâmico

Rui Marote
A Fortaleza do Pico (oficialmente conhecida como Fortaleza de São João Baptista do Pico)  foi cedida definitiva à Região Autónoma da Madeira pelo ministro da defesa José Aguiar Branco (hoje Presidente da Assembleia da República) em Julho de 2014. A entrega do imóvel histórico envolveu contrapartidas focadas no reforço de infraestruturas estatais.
O Estado Português, por seu turno, recebeu a propriedade do navio “Blaus VII” apreendido ao largo da Madeira numa operação nocturna onde os fuzileiros  interceptaram  e apreenderam 1500kg de cocaína, e a utilização do “Edifício Funchal 2000” para serviços judiciais.
A 3 de Julho de 2015 a embarcação foi entregue à Marinha  que a rebatizou como NRP Zarco, sendo utilizada no apoio, treino e formação. Houve ainda a cedência do edifício Funchal 2000 para uso do Instituto de Gestão Financeira e equipamentos da Justiça.
Voltando à Fortaleza do Pico, antigamente tinha a alcunha de “Pico Rádio”, por causa dos antigos postes e antenas de radio instalados  no local em 1922.
Desde que foi entregue à RAM as manutenções foram diminutas: em (2015-2017) verificaram-se várias limpezas iniciais vistorias técnicas  e planeamento  para reabilitação de espaços fechados há décadas.
Em 2018 houve um investimento de 180 mil euros para consolidação estrutural, pintura de muralhas exteriores e criação de uma área de multiusos  para concertos e conferências.
Em 2022, verificaram-se novas intervenções, para corrigir infiltrações e reabilitar outras áreas não tinham sido intervencionadas na totalidade.
Em 2023 e 2024 o espaço esteve integrado no Plano de Investimentos da Região (PIDDAR), recebendo pequenas intervenções para acolher grandes cartazes artísticos com destaque para estreia e consolidação do Festival de “Ópera no Pico”, integrado no Festival do Atlântico. Em 2025 o forte continuou a servir a segunda edição da ópera.
Em 2026, finalmente  o Governo anunciou formalmente  o lançamento do concurso para o projecto de arquitectura de reabilitação da Fortaleza de São Baptista do Pico. Trata-se de uma intervenção estrutural de fundo desenhada para devolver uma nova vida ao monumento e assegurar uma vocação exclusivamente cultural até ao fim do actual mandato.
No entanto há que assinalar que já há 12 anos que recebeu esta herança. Os madeirenses e o povo português, com a visita do presidente da Republica, tomaram conhecimento do estado degradante que se encontra a Fortaleza.
Tanto a Fortaleza do Pico como Fortaleza de São Tiago não são tratadas há anos com o tradicional banho de cal, como antigamente,  apresentando-se de  “cara lavada”.
Historicamente  a maior parte da cal utilizada para as caiações na Madeira vinha do Porto Santo. A matéria-prima era extraíuda em grande quantidade do Ilhéu de Baixo (conhecido pelo Ilhéu da Cal ). Essa cal era transportada para Madeira de barco. Recordamos  o grande fornecedor José Maria Branco ( o Ferro Velho) que tinha um barco carreiro.
Hoje em dia, a famosa caiação continua a ser uma técnica valorizada pelas suas propriedades desinfectantes  e redutoras de humidade, além de caiar as fachadas  onde servia também para  argamassas e rebocos.
A extracção de calcário  e a produção de cal no Porto Santo deixaram entretanto de ser uma actividade  industrial contínua na década de 1960. O fim  desta industria deveu-se ao surgimento do cimento  e ao crescimento do turismo na ilha, que entrou em conflito com a permanência  de poeiras  perto de zonas balneares.
Hoje em dia o antigo local de extracção no Ilhéu da Cal é uma reserva natural protegida, restando apenas as impressionantes galerias escavadas na rocha, como património histórico. Visitas turísticas é assunto para outra reportagem.
Antigamente não existia a tinta de água. Vivemos e crescemos na Zona Velha que nessa época  tinha dois caiadores famosos, um com a alcunha “Puxeiro” e outro “Pai Costa”. Era tradição  caiar a casa uma vez por ano no Natal.
A preparação era num bidão de 200 litros de gasóleo onde era colocada a cal na água e deixada a ferver 24 horas com sebo. Cheirar a cal dava era curioso. Dava um ar de frescura.
Hoje esse processo só e usado em monumentos antigos especialmente fortes, fortins e fortalezas. Nos campos de futebol em que se utilizavam antigamente a cal na marcação é proibida a cal viva, por causar queimaduras: utiliza-se cal hidratada ou tinta específica para relva.
Se não cuidarmos do nosso património urgentemente, corremos o risco de perdê-lo, de tanto que se degrada. A continuar assim  seremos “um povo sem memória”, um povo sem história “ou “sem futuro”.
Há outras curiosidades a cercar a Fortaleza do Pico. Em 2024 a Câmara da Funchal, pela voz da sua presidente Cristina Pedra, anunciou que ali iria ser instalado um Baloiço Panorâmico, junto ao Forte. O projecto não avançou  de imediato devido aos processos de governação local que se seguiram ao anúncio. Mais uma vez a equipa optou por direcionar os investimentos daquela zona para as acessibilidades, centrando as intervenções na requalificação e pavimentação. O projecto desenhado pelos serviços de Urbanismo ficou aguardar os pareceres necessários e o fecho da respectiva cabimentação  orçamental.
Cristina Pedra alegava que tais baloiços “são já uma forma de turismo temático, com turistas que se deslocam exclusivamente para onde haja baloiços panorâmicos, e o Funchal vai investir nesta área”.
A sua criação envolve uma estrutura de madeira, com duas correntes que o suspenderão. As lanças do baloiço serão colocadas na vertical, construídas com toros de madeira. Para se alcançar uma melhor estrutura para o baloiço estão previstos cinco toros amarrados entre si, por toros de menor diâmetro e as rótulas serão reforçadas no seu interior com bandas e vergas de ferro, estando também previsto um “letreiro” de identificação em ferro, pintado com tinta metalizada.
O testemunho está nas mãos do actual presidente Jorge Carvalho. Não sabemos se tal projecto irá efectivamente avançar. Não esqueçamos património funciona como memória viva da ilha. Embora se possam explorar medidas para a sua atractividade, o mais urgente é a manutenção e reabilitação.

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