Rui Marote
Em Agosto de 2019, a então secretária do Turismo e Cultura, Paula Cabaço afirmava que o Governo queria devolver solares à população, e dava como exemplo as obras do Solar de São Cristóvão, em Machico, que nesse momento visitava. Acrescentava que a aposta na recuperação e abertura destes espaços à população, residente e visitante, seria uma estratégia “para manter no futuro”. Seis anos depois a “música” é outra, embora o “chefe da orquestra” seja o mesmo.
As entidades oficiais decidiram colocar à venda antigo o Solar de Nossa Senhora da Piedade no Jardim do Mar, uma decisão polémica e que promete ainda fazer correr muita tinta; a antiga Quinta Vale Paraíso na Camacha, onde havia a aldeia do Padre Américo na Camacha, parece ir seguir pelo mesmo caminho, de venda ou arrendamento; no Caniço, o Solar dos Reis Magos foi já vendido a um empresário privado, muitos anos depois de ter sido penhorado pela Fazenda Pública (1920) e de ter passado pelas mãos das empresas “João de Freitas Martins Ltd.” e “Turiscaniço, Empreendimentos Turísticos Lda”.
A Diocese do Funchal não fica atrás, tendo vendido em 2011 o edifício de grande porte “Solar das Meninas Leais” no Porto da Cruz aos proprietários do engenho, um ramo da família Clode. E aqui vamos…Recordamos a parábola do filho pródigo narrada por Jesus… que mostra o que significa desperdiçar algo, e depois arrepender-se…
Correu ainda na nossa praça que o Solar de São Cristóvão no sítio do Caramanchão em Machico, doado à RAM
em 1987 por Carlos Cristóvão, escritor e poeta, tinha sido colocado à venda. Porém, tal é falso. Aliás, tendo sido recuperado seis anos atrás, era uma loucura, se fosse verdade.
Mas, além dos solares, há outros grandes espaços que estão a ser alienados: o Governo Regional da Madeira abriu um procedimento de Hasta Pública do Centro Cívico do Porto da Cruz, para arrendamento de espaços interiores distribuídos por três pisos e lugares de estacionamento.
Na senda das antigas quintas e solares que estão a desaparecer, percorremos a Rua dos Ilhéus, zona que no passado albergava muitas quintas: Quinta dos Ilhéus, Quinta Dias, Quinta das Fontes… com jardins impressionantes, onde artistas e viajantes do século XIX se hospedavam e pintavam a paisagem. Várias delas ainda persistem, tendo hoje algumas mudado de mãos dos antigos proprietários privados para, por exemplo, imobiliárias. Mas o nosso objectivo era outro neste percurso: chegar à Quinta das Maravilhas, situada na rua com o mesmo nome, no Funchal.
Este é um bem cultural que historicamente serviu como residência oficial do Cônsul da Noruega na Madeira.
A propriedade reflecte a era dourada das quintas madeirenses dos séculos XVIII e XIX, períodos marcados pela forte fixação de comunidades e diplomatas estrangeiros na ilha.
Os principais elementos históricos que definem o património da quinta incluem a arquitectura senhorial, sendo que a casa principal preservava os traços da arquitectura tradicional com materiais nobres regionais, tectos altos e janelas amplas. Capela Privada: a propriedade integrava ainda uma antiga capela histórica, elemento típico das grandes famílias da aristocracia da época. Jardins Românticos: Os seus extensos terrenos seguiam o conceito do “gosto pelo natural”, influenciados pelos icónicos jardins botânicos britânicos, valorizando a vista sobre o anfiteatro do Funchal.
Do passeio contemplámos a terraplanagem já em curso e fotografamos os editais afixados.
É a nossa história que está em jogo e veio à baila a Lei de Lavoisier, “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”… Uma célebre frase que resume a Lei da Conservação da Massa formulada pelo químico francês Antoine Lavoisier em 1775, estabelecendo que, num sistema fechado, a matéria não pode ser criada nem destruída; apenas se altera.
Nasce portanto presentemente um empreendimento residencial exclusivo localizado na Rua das Maravilhas, em São Martinho (Funchal). O projecto transforma uma propriedade histórica numa área de 13.260 m² numa zona de habitação contemporânea, prometendo manter a traça madeirense tradicional.
Serão apenas 30 unidades, divididas entre apartamentos e moradias (isoladas, geminadas ou em banda). Disponíveis em T2, T3 e T4. Mais de 6.000 m² de jardins, piscina comum e ginásio. A obra prevê a recuperação da antiga capela da quinta e vistas panorâmicas sobre a cidade e as montanhas.
É a “economia a trabalhar”. O dinheiro que circula, a criação de emprego e as decisões das empresas ditam o poder de compra e o bem-estar de todos nós, quer queiramos quer não.
Para terminar a história restam-nos sobre o tema os livros da autoria de Marjorie Hoare (autora de “The Quintas of Madeira: Windows into the Past”) e de Susana Ribeiro Pereira (autora de “A História das Quintas da Madeira”). Outro destaque é a investigadora Maria Lamas, que dedicou um capítulo marcante ao tema. Também Rui Campos Matos se debruçou, como investigador sobre “As Origens do Turismo na Madeira ─ Quintas e Hotéis do Acervo da Photographia Museu ─ “Vicentes”, unindo estas propriedades ao património turístico. E Brígida Homem Gouveia, autora de “As Quintas da Madeira, Na Projecção do Séc. XIX Europeu”, uma análise académica aprofundada da sua importância histórica. Pelo menos ficarão os registos.
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