Esta semana queria escrever sobre algo interessante, como a lei da paridade ou o perigo fascinante que é o Boris Johnson. Não vou.
Por vezes, a nossa mente mantém-nos refém de um só assunto e assim tem sido comigo. Por mais voltas que dê, há um programa que corre em segundo plano no meu sistema operativo. Só não vem com um aviso de consumo excessivo de energia, porque ainda não fiz esse upgrade.
Amanhã faço 40 anos.
Há alturas na vida que nada assenta como um clichê. Tal como quando acabamos de ser mãe, de sentir o maior turbilhão de emoções e de sermos invadidas por uma realidade maravilhosamente avassaladora e só conseguimos dizer, por detrás de um sorriso enigmático, que não há palavras.
O meu chavão dos 40 anos – ou dos anos 40 como diz a minha filha – é o como é que é possível, para onde foi este tempo todo?
Ainda ontem estava no topo da arrogância dos meus 12 anos indignada porque os meus pais gostavam de ir à Marina comer um cone de batata frita com molho. Não era um programa para velhos. Tinham 40 anos.
Ainda ontem, nos meus vintes, estava na festa marroquina de uma prima e enquanto a via dançar com os amigos, pensava como eles eram engraçados, a achar que eram novos. Tinham 40 anos.
Como é que num piscar de olhos, tudo passou, tudo aconteceu?
Não percebo as pessoas que dizem que o dia de aniversário é um dia igual aos outros. Não é. Os outros 364 dias é que são. Já a minha bisavó, que nunca conheci, enfeitava uma cadeira especial, o trono, para qualquer um dos seis netos aniversariantes e, nesse dia, sentiam-se únicos. Ainda hoje falam disso.
Mesmo assim, sempre senti os aniversários de forma agridoce. Porque eram a constatação de que estava a envelhecer. Durante 5 anos tive 27.
Agora não. Quero celebrar, sem mais quê.
Sinto a urgência do fazer, do estar, do ser. Tudo quanto imaginei querer fazer na vida, quero fazê-lo já. Sem adiamento e procrastinações. Pululam os projetos e as ideias e execução é sempre para ontem.
Quero deixar obra feita, algo perene, que persista.
Quero estar em todo o lado, ajudar toda a gente, ouvir problemas, arranjar soluções. Quero sentir que deixo a minha marca e não só na perpetuação dos genes que recebi e transmiti.
Talvez seja outra forma de perceber que estou a envelhecer.
Não. Talvez só tenha amadurecido.
Talvez esta urgência seja uma reação à tomada de consciência plena da mortalidade.
Não. Talvez só tenha evoluído.
Talvez o Ser saiba que a energia, a partir de agora, só diminui e se agarre a ela com toda a força.
Não. Talvez só me tenha aperfeiçoado.
Talvez…..
Talvez esteja com uma crise de meia idade.
Afinal, talvez seja isso.
Bem, sempre é uma crise produtiva. E sempre é mais barata do que comprar um Porsche.
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