Tem poucos dias que o atual ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, considerou “imprudente” a decisão de alguns pais marcarem férias durante o período de realização e correção dos Exames Nacionais do Ensino Básico e Secundário. A afirmação gerou polémica e trouxe para o debate público um conceito que merece reflexão: a prudência (phronesis). Mais: perante os acontecimentos das últimas duas semanas (e, adianto, próximas), importa perguntar quem tem verdadeiramente agido de forma imprudente na condução do sistema educativo português?
A prudência, entendida como a capacidade de decidir com ponderação/sensatez, antecipando riscos e avaliando consequências, é – ou pelo menos deveria ser – uma das virtudes fundamentais (cardeais) em qualquer tomada de decisão nas nossas vidas e igualmente na ação governativa. O seu exercício torna-se particularmente importante em áreas tão sensíveis como a Saúde ou Educação, esta última onde decisões políticas afetam diretamente milhares de alunos, famílias e profissionais do sector. Ora, os múltiplos problemas registados neste ano letivo, no processo de correção/classificação dos Exames Nacionais, parecem demonstrar precisamente a carência desta virtude.
Como é do domínio público, pela primeira vez a correção dos Exames Nacionais passou a realizar-se integralmente em formato digital, apesar de as provas continuarem a ser efetuadas em papel. Embora esta mudança tenha sido propagandeada como um avanço tecnológico e organizacional, a verdade é que existiam já sinais de alerta e grande descontentamento. Em 2025, o exame de Filosofia serviu de projeto-piloto para este modelo de classificação digital, tendo nessa altura sido identificadas variadas falhas “significativas” que foram reportadas às entidades responsáveis. Aparentemente, de nada serviu… e optou-se por generalizar o sistema a todas as disciplinas em que se realizam exames, com exceção de duas.
O novo modelo implementado prevê a digitalização das provas num único centro e a distribuição de (2) itens específicos aos docentes classificadores através de uma plataforma eletrónica. Cada professor deixa de corrigir a totalidade de uma prova para passar a classificar apenas determinadas questões, provenientes de milhares de exames diferentes. Em teoria, o sistema promete maior uniformidade, rigor e objetividade. Na prática, a realidade revelou algo bem diferente. Desde o início da operação surgiram dificuldades técnicas, atrasos na disponibilização das provas para classificação, erros na distribuição dos itens e constrangimentos que afetaram o normal desenvolvimento do processo. A situação tornou-se de tal forma preocupante que os relatos de problemas ultrapassaram rapidamente os círculos das escolas e chegaram (finalmente) à comunicação social.
Perante as críticas, o ministro da pasta procurou tranquilizar a opinião pública, garantindo que nenhum aluno seria prejudicado assegurando que o rigor, a transparência e a equidade da avaliação prevaleceriam sobre qualquer calendário administrativo. São palavras de circunstância e necessárias para acalmar os ânimos. Todavia, as declarações governamentais frente aos órgãos de comunicação de massas não eliminam os problemas concretos que continuam a ser sentidos por muitos docentes classificadores. Aliás, passados vários dias sobre a realização de algumas provas, muitos professores continuavam sem acesso aos itens que lhes deveriam ter sido atribuídos para correção. No modelo anterior, as provas chegavam aos classificadores geralmente entre 24 e 48 horas após a sua realização. Hoje, apesar do investimento na digitalização e da promessa de maior eficiência, os atrasos acumulam-se e o processo está longe de transmitir a rapidez e confiança desejável.
Mais difícil de compreender foi a insistência do ministro em afirmar que, do ponto de vista logístico e organizacional, não existiram percalços relevantes, remetendo os problemas para meras questões de software. Num sistema inteiramente dependente de tecnologia digital, esta distinção parece artificial. Quando a plataforma não funciona, quando os itens não chegam aos classificadores ou quando a gestão do processo fica comprometida, não estamos perante um problema acessório, estamos sim perante uma falha estrutural do próprio modelo!
Acresce que todas estas dificuldades não podem ser analisadas isoladamente. Ao longo do último ano, o Ministério da Educação promoveu uma profunda reorganização de estruturas e serviços ligados à sua área governativa e à avaliação externa dos alunos. Foram extintos organismos, alterados procedimentos consolidados e afastados profissionais que possuíam experiência acumulada na gestão dos exames nacionais… Entretanto, vários especialistas e responsáveis do setor alertaram para os riscos de implementar mudanças tão profundas sem um período adequado de transição e validação operacional.
Uma dessas vozes comparou a reforma em curso no Ministério à substituição dos motores de um avião em pleno voo. A imagem pode parecer excessiva, mas traduz bem a dimensão do risco assumido… e agora de todos os danos causados. Transformar simultaneamente processos, equipas, plataformas tecnológicas e modelos organizacionais, sem assegurar previamente a sua robustez e fiabilidade, revela uma confiança excessiva em soluções cuja eficácia estava longe de estar comprovada. Ora, é precisamente neste contexto que a questão da prudência ganha toda a sua relevância. Desde Platão e Aristóteles até aos nossos dias, a prudência tem sido entendida não como resistência à mudança, mas como a capacidade de introduzir inovação sem colocar em causa a estabilidade das instituições. Reformar é necessário, modernizar também! Mas reformar não significa ignorar avisos, desvalorizar riscos ou avançar sem garantir que os instrumentos essenciais estão plenamente preparados para cumprir a sua função.
O (ainda) ministro da Educação afirma que o objetivo destas alterações passa por reduzir injustiças e reforçar a qualidade da avaliação. Trata-se de uma intenção legítima e partilhada por todos aqueles que trabalham na escola pública. Porém, quando os meios escolhidos geram mais incerteza, atrasos e mais dificuldades do que aqueles que pretendiam resolver, impõe-se uma reflexão séria sobre as opções tomadas. Por tudo isto, a discussão não deveria centrar-se na alegada imprudência das famílias que organizam as suas vidas em função do calendário escolar; a verdadeira questão consiste em saber quem assumiu o risco de transformar um dos processos mais sensíveis do sistema educativo sem garantir que estavam reunidas (todas) as condições para o seu sucesso.
À luz dos acontecimentos recentes, a resposta parece evidente. Se houve imprudência, então ela não partiu dos pais, alunos ou professores. Partiu de quem decidiu avançar com uma reforma estrutural sem a cautela, a preparação e o sentido de responsabilidade que a prudência exige… e esta é uma imprudência cujas consequências podem ser demasiado sérias para serem ignoradas.
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